Introdução

A arquitetura geral do sono, ou macroestrutura do sono, é definida desde 1957 por uma classificação proposta por Dement e Kleitman,1 que divide o sono em dois estágios fisiológicos distintos: o primeiro é caracterizado por atonia muscular, movimentos oculares rápidos, dessincronização do eletroencefalograma e ocorrência frequente de sonhos, denominando-se sono REM (do inglês, rapid eye movement); o segundo estágio, denominado sono não REM (NREM), apresenta diferentes fases de profundidade e eletroencefalograma sincronizado com elementos distintos.2 O sono normal consiste na alternância desses estágios ao longo da noite.2,3

O sono NREM é subdividido em três estágios: N1, N2, N3.2,3 Os estágios N1-N3 representam progressivamente a profundidade do sono, com maior limiar para despertar.2,3 O estágio N3 é conhecido também como sono profundo ou sono de ondas lentas.2,3 

Ciclos de sono

Os estágios de sono se alternam durante a noite, formando os ciclos NREM-REM.3 A distribuição desses estágios em uma noite normal, com aproximadamente 8 horas de sono, mostra maior quantidade de sono de ondas lentas na primeira metade da noite, com predomínio de sono REM na segunda metade.3 (Figura 1) A latência normal para o início do sono é de menos de 30 minutos, enquanto a latência normal para o início do sono REM é de 70 a 120 minutos após o início do sono.3
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Fatores que alteram a arquitetura do sono

O principal fator que modifica a arquitetura do sono é a idade:4 no recém-nascido o sono é mais fragmentado, e ao longo do primeiro ano de vida vai se consolidando. Ao contrário do que ocorre no indivíduo adulto, o sono se inicia pela fase REM e os ciclos são mais curtos (50-60 minutos). O sono profundo (N3) é mais prevalente na infância,4 vai se reduzindo a partir da adolescência, sendo que idosos têm menores proporções desse estágio e maior de sono superficial (estágio N1) em contrapartida.4
Além da idade, entre os fatores que podem modificar a arquitetura de sono estão: quantidade prévia de sono, ritmos circadianos, temperatura, uso de drogas diversas e doenças do sono (por exemplo, narcolepsia, síndrome da apneia do sono).4

O principal fator que modifica a arquitetura do sono é a idade4

A maioria dos antidepressivos e antipsicóticos suprime o sono REM (aumenta a latência e reduz o tempo de sono nessa fase), enquanto os benzodiazepínicos diminuem a porcentagem de sono de ondas lentas.5 Sob a ação desses fármacos, o sono é diferente do natural, e não se conhece o real impacto dessas alterações sobre a saúde, principalmente em relação às funções cognitivas.5
Estudos têm relacionado que a privação de sono, mesmo que parcial, afeta as funções cognitivas, com grande impacto sobre memória, funções executivas e humor.6 Uma metanálise recente mostrou que indivíduos com problemas de sono têm maior risco de desenvolver distúrbios cognitivos, como doença de Alzheimer.7

Conclusão
As funções do sono ainda constituem um dos mistérios da neurociência.7 O tratamento adequado dos transtornos do sono e o respeito à quantidade e à arquitetura natural do sono poderiam, com base no conhecimento atual, prevenir problemas cognitivos.7