A mucopolissacaridose tipo I (MPS I) é uma doença genética, de depósito lisossômico, causada pela deficiência da enzima lisossômica α-L-iduronidase, e tem mecanismo de herança autossômico recessivo.1,2 Os pacientes com MPS I são incapazes de degradar os glicosaminoglicanos (GAGs) sulfato de dermatana e sulfato de heparana.1,2 Esses componentes dos proteoglicanos fornecem suporte estrutural à matriz extracelular e às estruturas cartilaginosas, como articulações e valvas cardíacas, além de estar envolvidos na regulação e na comunicação celular.2 A deficiência de α-L-iduronidase resulta no acúmulo progressivo de glicosaminoglicanos nos lisossomos, com subsequente disfunção multiorgânica e dano celular.1,2 

A MPS I evolui com grande envolvimento multissistêmico e apresenta grande variabilidade fenotípica.1,2 Grande parte dos casos se enquadra na forma grave (síndrome de Hurler), com sinais e sintomas que se iniciam no primeiro ano de vida.2,3 Sem tratamento específico, os pacientes apresentam expectativa média de vida dentro da primeira década.2,3 São também conhecidas formas mais leves da MPS I, com espectro de diversos fenótipos, classicamente divididos em atenuados (síndrome de Scheie) e intermediários (síndrome de Hurler-Scheie).2 Os pacientes com os chamados fenótipos “mais brandos” podem atingir a idade adulta, mas apresentar morbidade significativa.2,3 

Os principais sinais e sintomas são descritos conforme a tabela 1.
Na investigação, faz-se necessária a realização de exames complementares, laboratoriais e de imagem para documentar os achados de exame físico, bem como a realização de exames bioquímicos específicos para confirmação diagnóstica, como dosagem de GAGs na urina, dosagem de atividade das enzimas relacionadas às MPSs, que podem ser realizadas em leucócitos ou sangue impregnado em papel-filtro, e também exames de biologia molecular, como sequenciamento dos genes que codificam essas enzimas.1,2,6-8 

A investigação basal é de suma importância para avaliar o comprometimento do paciente antes do início do tratamento, bem como para servir de parâmetro de comparação no seguimento clínico durante o tratamento.2,7,8 

O atendimento de pacientes com MPS I requer avaliações constantes, cuidados de suporte e tratamento de uma variedade de complicações sistêmicas.2 Por causa da complexidade e da raridade dessa doença, recomenda-se que o seguimento dos pacientes seja realizado por uma equipe multidisciplinar.2 

A tabela 2 apresenta as principais avaliações basais necessárias a todos os pacientes com MPS I e o intervalo mínimo recomendado de reavaliação.
Para melhor compreensão, ilustraremos com o caso clínico a seguir. 

Paciente do sexo masculino, de 6 anos de idade, retornou ao consultório, após suspeita clínica de MPS, com exames de avaliação. 

Histórico de atraso de marcha com 2 anos, fáscies grosseira, macrocrania, hérnia umbilical e aumento de volume abdominal aos 3 anos, roncos acentuados e IVAS de repetição aos 4 anos, bem como atraso de desenvolvimento, com agitação psicomotora, notado aos 6 anos. 

Após suspeita de MPS na consulta inicial, retornou com exames. 

Ressonância magnética (RM) de crânio com alargamento de espaços perivasculares e dilatação ventricular, compatível com dilatação ex vácuo (atrofia cortical). 

Avaliação audiológica com perda auditiva condutiva moderada bilateralmente. 

Avaliação oftalmológica com sinais de opacidade corneana discreta bilateralmente. 

Polissonografia com aumento moderado de episódios de dessaturação de oxigênio, associada a episódios de apneia, compatível com diagnóstico de síndrome de apneia obstrutiva do sono. 

Ecocardiograma com leve aumento de espessura de folhetos valvares mitrais e tricúspides associado a insuficiência valvar leve. 

RM de abdome com presença de hepatomegalia homogênea importante e esplenomegalia homogênea moderada. 

Dosagem de GAGs urinários duas vezes acima do limite superior para a faixa etária, atividade enzimática de α-L-iduronidase não detectável. 

O paciente tem diagnóstico bioquímico, laboratorial e de neuroimagem compatível com MPS I, e se deve solicitar tratamento imediatamente. 

Com o advento do transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) e da terapia de reposição enzimática (TRE), há tratamentos específicos de MPS I. Postula-se que eles serão tanto mais eficazes quanto mais precoce for o diagnóstico, antes que ocorram alterações irreversíveis.2,4,5 O reconhecimento precoce dos inúmeros sintomas de MPS I e o encaminhamento imediato a atendimento multidisciplinar experiente são essenciais.2,4,6,9 
 
Cada paciente com MPS I é único e pode exibir curso clínico distinto. As opções de tratamento e manejo da doença devem ser ponderadas individualmente, considerando-se a idade do diagnóstico e a gravidade da doença.9 O seguimento periódico desses pacientes visa melhorar a qualidade de vida das crianças com MPS I e de seus familiares.1,2,9 

O paciente tem diagnóstico bioquímico, laboratorial e de neuroimagem compatível com MPS I, e se deve solicitar tratamento imediatamente. 

O caso relatado tem indicação de realização de TRE, visto que o TCTH é indicado para tratar as formas graves de MPS I em pacientes com idade inferior a 2,5 anos e sem comprometimento neurológico.10