INTRODUÇÃO

Até o momento, pesquisas sobre o impacto indireto da pandemia da COVID-19 na saúde da população e o sistema de saúde são escassos. O objetivo deste estudo foi investigar o efeito indireto da pandemia da COVID-19 nos cuidados gerais de saúde e nos diagnósticos sobre a saúde física e mental em uma população carente do Reino Unido.1

MÉTODOS 

Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo usando dados de atenção primária coletados rotineiramente, registrados no Salford Integrated Record entre 1 de janeiro de 2010 e 31 de maio de 2020. Foram extraídos dados clínicos para seis categorias:1 
  • Sintomas e observações,
  • Diagnósticos,
  • Prescrições,
  • Operações e procedimentos,
  • Testes de laboratório,
  • Outros procedimentos de diagnóstico.
Para análise dos dados foram utilizados modelos de regressão aos dados dos primeiros diagnósticos de condições comuns (problemas de saúde mental comuns, doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, diabetes tipo 2 e câncer - Tabela 1) e as correspondentes prescrições de medicamentos indicativos dessas condições. Esses modelos foram usados para prever os números esperados de primeiros diagnósticos e prescrições entre 1º de março e 31 de maio de 2020, que foram então comparados com o números observados para o mesmo período dos últimos 10 anos.1

Tabela 1. Doenças específicas incluídas em cada um dos quatro grandes grupos diagnósticos avaliados.
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(Adaptado de Williams R et al. Lancet Public Health.2020;5(10):e543-e550.1)

RESULTADOS 

O conjunto de dados incluiu 241.458 indivíduos ativos, dos quais 119.394 (49%) eram mulheres. A idade média dos pacientes foi de 35 anos (IQR: 21–54). Uma grande redução nos registros clínicos foi observado após o início da pandemia (Figura 1). Esta redução foi semelhante àquela normalmente observada a cada ano durante o período de Natal, mas foi sustentado desde pouco antes do início do lockdown, em meados de março até 31 de maio de 2020, quando o período de observação terminou.1
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Figura 1. Número de dados clínicos registrados nos prontuários dos pacientes por semana, 2010-2020. Dados clínicos incluem sintomas, observações, diagnósticos, prescrições, cirurgias, procedimentos, exames laboratoriais e códigos administrativos. (Adaptado de Williams R et al. Lancet Public Health.2020;5(10):e543-e550.1)

Uma redução no número de dados clínicos relatados por semana foi observada para todas as categorias avaliadas, incluindo dados de diagnóstico (Figura 2), com exceção das prescrições de medicamentos.1 
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Figura 2. Número de diagnósticos de pacientes registrados por semana, 2015-2020. As contagens incluíram todos os diagnósticos nos registros do paciente, não se limitando às quatro categorias de diagnóstico avaliadas neste estudo. (Adaptado de Williams R et al. Lancet Public Health.2020;5(10):e543-e550.1)

Entre 1º de março e 31 de maio de 2020, foram relatados 1.073 primeiros diagnósticos de problemas comuns de saúde mental em comparação com 2.147 casos esperados (IC95%: 1.821 a 2.489) com base nos anos anteriores, representando uma redução de 50,0% (IC95%: 41,1 a 56,9). Em comparação com os números esperados, menos 456  diagnósticos de doenças do aparelho circulatório (43,3% de redução, IC95%: 29,6 a 53,5) e menos 135  diagnósticos de diabetes tipo 2 (49,0% de redução, 23,8 a 63,1) foram observados. O número de primeiras prescrições de medicamentos associados também foi menor do que o esperado para os mesmos períodos de tempo. No entanto, a lacuna entre os diagnósticos de câncer observados e esperados (menos 31; redução de 16,0%, -18,1 a 36,6) durante este período de tempo não foi estatisticamente significativo (Tabela 2).1

O número observado de primeiras prescrições de medicamentos comumente usados para tratar os 4 grupos de doenças (problemas de saúde mental comuns, doenças cardio e cerebrovasculares, diabetes tipo 2 e câncer) também foi menor do que o esperado, como observado na Tabela 2.1

Tabela 2. Diferença entre o número esperado e observado de primeiros diagnósticos ou primeiras prescrições entre 1º de março e 31 de maio de 2020.
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ECA=enzima conversora de angiotensina. *Casos esperados menos casos observados. (Adaptado de Williams R et al. Lancet Public Health.2020;5(10):e543-e550.1)

Entre abril e maio de 2020, os números observados de pacientes com um primeiro diagnóstico de diabetes tipo 2 e as primeiras prescrições associadas de metformina foram significativamente mais baixos do que os números esperados para aquele período (Figuras 3 e 4).1
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Figura 3. Variação temporal no número de pacientes com um primeiro diagnóstico de diabetes tipo 2 por mês, dados de 1º de janeiro de 2019 - 31 de maio de 2020. O número de casos esperados (IC95%) foi estimado com modelos de regressão, usando dados de 1º de janeiro de 2010 a 29 de fevereiro de 2020. (Adaptado de Williams R et al. Lancet Public Health.2020;5(10):e543-e550.1)

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Figura 4. Variação temporal no número de pacientes com uma primeira prescrição de metformina por mês, dados 1º de janeiro de 2019 - 31 de maio de 2020. O número de casos esperados (IC95%) foi estimado com modelos de regressão, usando dados de 1º de janeiro de 2010 a 29 de fevereiro de 2020. (Adaptado de Williams R et al. Lancet Public Health.2020;5(10):e543-e550.1)

INTERPRETAÇÃO 


Nesta população urbana, os diagnósticos de doenças comuns diminuíram substancialmente entre março e maio de 2020, sugerindo que muitos pacientes não foram diagnosticados. No futuro, é possível que ocorra uma sobrecarga dos serviços de saúde com esses casos subdiagnosticados, que buscarão atendimento quando as restrições da quarentena forem afrouxadas.1
 
Impactos negativos são inevitáveis como consequência de uma diminuição na utilização dos serviços de saúde. Para doenças menos graves, as pessoas podem buscar soluções alternativas ou o problema pode ser resolvido sem intervenção médica. Já nos casos das doenças avaliadas neste estudo, que são crônicas e progressivas, geralmente não se resolvem sem intervenção e atrasos no diagnóstico têm sido associados ao aumento da mortalidade e pior prognóstico, especialmente em pacientes com infarto do miocárdio e depressão.1

Os diagnósticos de doenças comuns diminuíram substancialmente entre março e maio de 2020, sugerindo que muitos pacientes estão subdiagnosticados durante a pandemia. Isso pode trazer impacto negativo para a saúde da população, incluindo aumento da mortalidade.1


CONCLUSÃO


Este estudo mostra que a pandemia da COVID-19 tem resultado em um número potencialmente grande de atrasos ou ausência do diagnóstico de doenças comuns na população, o que pode trazer riscos para esse grupo de pacientes. Os serviços de saúde devem ser proativos e estar preparados para lidar com o grande acúmulo de pacientes que provavelmente devem procurar atendimento após o afrouxamento da quarentena. Além disso, estratégias nacionais de comunicação devem ser consideradas para garantir que  pacientes com necessidades de consulta de urgência não deixem de procurar os serviços de saúde.1