INTRODUÇÃO

Crianças e jovens representam apenas 1-2% dos casos de doença do coronavírus 2019 (COVID-19) em todo o mundo e a grande maioria das infecções relatadas nesta faixa etária é leve ou assintomática. Dados iniciais da China mostraram que apenas 0,6% das crianças com COVID-19 estavam gravemente doentes.1

O objetivo deste estudo foi levantar e correlacionar as características de crianças e jovens (com idades até 19 anos) internados em hospitais no Reino Unido com infecção pelo novo coronavírus 2 da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2), confirmada por exames laboratoriais, bem como explorar fatores associados à admissão em unidade de cuidados intensivos, mortalidade e desenvolvimento de síndrome inflamatória multissistêmica em crianças (SIM-C).1 

METODOLOGIA 

Para tanto, um estudo de coorte observacional prospectivo foi realizado entre 17 de janeiro e 3 de julho de 2020 (com acompanhamento mínimo de 2 semanas), em 260 hospitais na Inglaterra, País de Gales e Escócia (Figura 1).1
 
Os principais desfechos foram:1
  • Necessidade de cuidados intensivos.
  • Mortalidade.
  • Desenvolvimento de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-C) associada à COVID-19.
  • Necessidade de suporte respiratório e cardiovascular.
Figura 1. Proporção de pacientes pediátricos hospitalizados (até 19 anos de idade) em relação ao número total de pacientes internados com COVID-19. (Adaptado de Swann OV, et al. BMJ. 2020; 370:m3249.1)

RESULTADOS


Características epidemiológicas:1
  • Idade média: 4,6 anos (intervalo interquartil 0,3-13,7).
  • 35% (225/651) tinham menos de 12 meses de idade.
  • Sexo masculino: 56% (367/650).
  • Brancos: 57% (330/576).
  • Sul da Ásia: 12% (67/576).
  • Negros: 10% (56/576).
  • Presença de pelo menos 1 comorbidade: 42% (276/651).
Figura 2. Distribuição de idade e comorbidades em uma coorte de pacientes com menos de 19 anos com confirmação laboratorial de SARS-CoV-2. *Prematuridade foi definida como nascimento antes de completar 37 semanas de gestação.  †Corticosteroides orais, não inalados. (Adaptado de Swann OV, et al. BMJ. 2020; 370:m3249.1)

Em geral, os sintomas  mais comuns foram febre (70%), tosse (39%), náuseas / vômitos (32%) e falta de ar (30%). Abaixo são apresentadas as porcentagens de ocorrência dos sintomas nos pacientes tratados na enfermaria versus em unidades de tratamento intensivo (Figura 3).1 
Figura 3. Proporção de sintomas em pacientes admitidos na Enfermaria ou UTI. (Adaptado de Swann OV, et al. BMJ. 2020; 370:m3249.1)
 
Após uma análise da co-ocorrência de sintomas, três grupos distintos de fenótipos clínicos foram observados (Tabela 1):1
  • Doença respiratória leve: fenótipo mais comumente encontrado.
  • Doença mucocutâneo-entérica sistêmica: inclui os sintomas especificados pela OMS para SIM-C.
  • Sintomas neurológicos: mais raros.
Tabela 1. Ocorrência concomitante de sintomas classificados em agrupamentos fenotípicos. 
Uma pequena sobreposição entre um subgrupo de "febre, tosse e falta de ar" e um subgrupo de "vômito, dor abdominal, diarreia, fadiga e erupções cutâneas" foi observada.1 
 
Necessidade de atendimento em UTI

Um total de 18% (116/632) das crianças foram internadas em unidades de tratamento intensivo. Na análise multivariável, isso foi associado à:1
  • Idade inferior a 1 mês (OR: 3,21, IC95%: 1,36 a 7,66; P = 0,008),
  • Idade de 10 a 14 anos (OR: 3,23, IC95%: 1,55 a 6,99; P = 0,002),
  • Etnia negra (OR: 2,82, IC95%: 1,41 a 5,57; P = 0,003).
Algumas comorbidades foram mais comumente associadas à necessidade de cuidados intensivos e estão discriminadas na Figura 4.1
 
Figura 4. Sintomas e comorbidades em crianças que necessitaram de cuidados intensivos. (Adaptado de Swann OV, et al. BMJ. 2020;370:m3249.1)

Quando comparada às internadas em enfermarias, as crianças em cuidados intensivos apresentaram maior prevalência de:1
  • Plaquetopenia (mediana: 192,0 × 109 / L (intervalo interquartil: 133,0-280,5.109) versus 296,5.109 / L (229,0-383,5.109 / L) ; P <0,001),
  • Neutrofilia (mediana: 7,7.109 / L (4,3-12,3.109 / L) versus 4,6.109 /L (2,3-8,2.109 /L); P <0,001)
  • Proteína C Reativa aumentada (mediana: 64,5 (11,1-200,2) mg/L versus 11,0 (3,0-54,5) mg/L; P<0,001),
  • Maior propensão a apresentar radiografia de tórax com infiltrados (58% (47/81) versus 32% (52/162); P <0,001).
Síndrome inflamatória multissistêmica (SIM-C)

Um fenótipo de doença grave foi relatado em crianças e parece estar associado à síndrome respiratória aguda grave por coronavírus 2 (SARS-CoV-2), com sinais de um estado hiper inflamatório multissistêmico semelhante à doença de Kawasaki e à síndrome do choque tóxico (Figura 5). Essas crianças precisaram de suporte inotrópico para choque circulatório refratário e ventilação mecânica para estabilização cardiovascular, em vez de insuficiência respiratória.1 
Figura 5. Porcentagem de pacientes que desenvolveram SIM-C ou não, e necessidade de UTI em cada um dos grupos. SIM-C: síndrome inflamatória multissistêmica em crianças. UTI: unidade de terapia intensiva (Adaptado de Swann OV, et al. BMJ. 2020; 370:m3249.1)

O desenvolvimento da SIM-C correlacionou-se com:1
  • Etnias não brancas: 64% (29/45) versus 42% (148/355); P = 0,004.
  • Crianças mais velhas: idade mediana de 10,7 (8,3-14,1) versus 1,6 (0,2-12,9) anos; P <0,001.
  • Obesidade: 10% (5/51) versus 2% (6/385); P = 0,005.

Além das características usadas para a definição da SIM-C segundo a OMS, que incluem febre, erupção cutânea, conjuntivite e sintomas gastrointestinais, os pacientes que desenvolveram SIM-C nesta coorte foram mais propensos a apresentar fadiga, dor de cabeça, mialgia, dor de garganta, linfadenopatia e plaquetopenia do que as crianças que não atenderam aos critérios de SIM-C (Figura 6).1
Figura 6. Percentual de sinais e sintomas em pacientes que desenvolveram ou não a SIM-C. (Adaptado de Swann OV, et al. BMJ. 2020; 370:m3249.1)

Cinquenta e sete por cento (21/37) dos casos de SIM-C tiveram uma ou mais complicações cardíacas documentadas.1

Crianças com SIM-C tiveram 5 vezes mais probabilidade do que as outras de serem admitidas em unidade de cuidados intensivos (73% versus 15%; P <0,001), também sendo mais propensas a receber corticosteroides intravenosos, ventilação não invasiva, ventilação invasiva e suporte inotrópico (Figura 7).1
Figura 7. Percentual de intervenções em pacientes que desenvolveram ou não a SIM-C. (Adaptado de Swann OV, et al. BMJ. 2020; 370:m3249.1)

Desfechos
Seis (1%) de 627 pacientes morreram no hospital, todos com comorbidades. Nenhuma morte ocorreu no grupo SIM-C.1

CONCLUSÕES

A doença grave e morte foram raras neste grande estudo de coorte prospectivo de crianças hospitalizadas com COVID-19 confirmada por exames laboratoriais.1

Os dados confirmam casos de COVID-19 menos grave em crianças e jovens em relação aos adultos. A admissão em unidades de cuidados intensivos foi associada à idade inferior a 1 mês, idade entre 10 e 14 anos e cor da pele negra. Foram observadas idade mais avançada e etnia não branca associadas à SIM-C.1

Seis (1%) de 627 pacientes morreram no hospital, todos com comorbidades. Dentre os casos com diagnóstico de SIM-C relacionada à COVID-19, 57% tiveram uma ou mais complicações cardíacas documentadas, além de apresentarem 5 vezes mais probabilidade de serem admitidos em UTI (73% versus 15%; P <0,001). Porém, nenhuma morte ocorreu neste grupo de pacientes.1

Foi identificado um grupo de sintomas mucocutâneos-entéricos sistêmicos nesta coorte. Além disso, foram apresentadas novos sintomas associados à SIM-C, incluindo uma associação com baixa contagem de plaquetas, fadiga, dor de cabeça, mialgia, dor de garganta e linfadenopatia.1