RESUMO

O presente estudo foi publicado por Raynauld et al.1 na revista Osteoarthritis and Cartilage, uma das mais importantes na área de osteoartrite. O objetivo dos autores foi comparar a eficácia e a segurança do tratamento, com ciclos repetidos de hilano G-F 20, de osteoartrite de joelho.1 O desfecho primário de eficácia foi a alteração da pontuação da subescala de dor do Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC) como um percentual de melhora em relação ao início do estudo.1 

O subgrupo de um curso teve melhora de 41%, o subgrupo de repetição de 35% e o tratamento apropriado sem hilano G-F 20 melhorou 14%.1 Ambos os subgrupos tiveram melhora significativamente maior que a do grupo de cuidado apropriado sem hilano G-F 20 (p<0,05) e não foram estatisticamente diferentes um do outro.1 No subgrupo de repetição não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas no número de eventos adversos locais, no número de pacientes com eventos adversos locais nem nas taxas de artrocentese.1 Os autores concluíram que o estudo fornece suporte a um perfil favorável de eficácia e de segurança do uso repetido de hilano G-F 20.1 

INTRODUÇÃO

O tratamento da osteoartrite permanece como um grande desafio.2 Há grande debate a respeito das mais diversas formas de tratamento, sem ainda nenhum consenso sobre a melhor opção.2 As injeções intra-articulares são usadas há muitos anos para tratar distúrbios articulares dolorosos, com a vantagem, principalmente entre os indivíduos idosos, de promover ação mais localizada do medicamento, o que evita indesejáveis efeitos adversos observados com as medicações sistêmicas, que podem causar desde uma simples intolerância gástrica até efeitos catastróficos como insuficiência renal, infarto agudo do miocárdio e morte.3,4 

Depois das injeções intra-articulares de corticosteroides, a viscossuplementação é, sem dúvida, a modalidade de tratamento intra-articular mais popular no manejo da osteoartrite de joelho. A viscossuplementação (VS) é a injeção intra-articular de ácido hialurônico (AH), um polissacarídeo de alta viscosidade naturalmente produzido pelas células B da membrana sinovial.2 A VS de joelho traz benefícios à articulação pelo potencial de restaurar as propriedades viscoelásticas do líquido sinovial, pelo efeito anti-inflamatório e por efeitos antinociceptivos e de viscoindução, que é a normalização da síntese do ácido hialurônico pelo sinoviócito.2 

Há atualmente robustas evidências de seu mecanismo de ação e de sua eficácia clínica, o que torna a viscossuplementação um procedimento amplamente recomendado pelas principais guidelines sobre osteoartrite de joelho.5-7 Existe ainda certa preocupação com a possibilidade do aumento da incidência de reações adversas com o uso de cursos repetidos de ácido hialurônico.8 No entanto, até o final do estudo, não havia ensaios clínicos prospectivos sobre esse tema.1 Assim, o estudo teve o objetivo de analisar os dados de um ensaio clínico prospectivo e randomizado que avaliou não somente a eficácia como também a segurança da aplicação de cursos repetidos de viscossuplementação de hilano G-F 20.1 

MÉTODOS 

Um total de 255 pacientes com osteoartrite de joelho foi randomizado para receber cuidado apropriado com hilano G-F 20 ou cuidado apropriado sem hilano G-F 20.1 O grupo que recebeu hilano G-F 20 foi ainda dividido em dois subgrupos: 1) pacientes que receberam um único curso de hilano G-F 20; e 2) pacientes que receberam dois ou mais ciclos de hilano G-F 20.1 

O desfecho primário de eficácia foi a alteração da pontuação da subescala de dor do Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC) como um percentual de melhora em relação ao início do estudo.1 

Um evento adverso foi definido pelo protocolo como o surgimento de qualquer sinal, sintoma ou evento indesejável ocorrido enquanto o paciente fizesse uso de um medicamento, produto biológico ou dispositivo durante o estudo.1 Todos os eventos adversos, considerados relacionados ou não aos tratamentos do estudo, foram coletados durante cada entrevista por telefone, durante as visitas no consultório ou em qualquer momento em que o paciente relatou algum evento ao investigador.1 Se o evento adverso se revelou remota, possível ou provavelmente relacionado ao uso de hilano G-F 20, tal fato foi considerado no relatório como relacionado à utilização de hilano G-F 20.

RESULTADOS

Considerando-se o desfecho primário (escala WOMAC de dor), o subgrupo de um curso melhorou 41% em comparação ao início do estudo, o subgrupo de repetição melhorou 35% e o tratamento apropriado sem hilano G-F 20 teve melhora de 14%.1 Ambos os subgrupos tiveram melhora significativamente maior que a do grupo de cuidado apropriado sem hilano G-F 20 (p<0,05) e não foram estatisticamente diferentes um do outro.
 
No subgrupo de repetição não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas no número de eventos adversos locais, no número de pacientes com eventos adversos locais nem nas taxas de artrocentese.1 Os autores concluíram que o estudo fornece suporte a um perfil favorável de eficácia e de segurança do uso repetido de hilano G-F 20.

O desfecho primário de eficácia foi a alteração da pontuação da subescala de dor do Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC) como um percentual de melhora em relação ao início do estudo.1 


DISCUSSÃO

Apesar de haver na literatura um estudo retrospectivo sugestivo de possível aumento da incidência de eventos adversos na repetição do tratamento com hilano G-F 208 e ainda alguns relatos de reações granulomatosas relacionadas a esse produto,9 este foi o primeiro estudo de alto nível de evidência (ensaio clínico prospectivo e randomizado) a investigar a segurança do uso de cursos repetidos de ácido hialurônico. 

As análises apresentadas pelos autores forneceram informações detalhadas sobre a segurança dos ciclos repetidos de hilano G-F 20, inclusive relatórios de eventos adversos que detalharam todos os sinais, sintomas e ocorrências médicas que foram observados e relatados durante o estudo, atribuídos ou não ao tratamento em questão.1 Não se observaram evidências de reações sistêmicas ao uso de hilano G-F 20 nos subgrupos de ciclo único nem repetitivo, com exceção de um único paciente que relatou febre de um dia de duração associada a uma reação local a uma injeção de hilano G-F 20 administrada durante o segundo curso de tratamento desse paciente.1 

Na verdade, os eventos adversos da viscossuplementação são em geral os tipicamente observados com qualquer injeção intra-articular, inclusive injeções de corticoides ou de solução salina.10 Um fator muito importante e muitas vezes negligenciado é o posicionamento correto da agulha na hora da infiltração,11 pois a injeção incorreta pode gerar lesão tecidual local, dor e inchaço. Há vários artigos na literatura sobre o uso repetido e prolongado de hilano G-F 2010,12 que demonstram sua excelente tolerabilidade. 

CONCLUSÃO

Em conclusão, este é o primeiro ensaio clínico prospectivo e randomizado a concluir que o uso repetido de hilano G-F 20 não se associou ao aumento de reações adversas causadas pelo uso do produto.