O carcinoma espinocelular (CEC) de pele é a segunda neoplasia cutânea mais frequentemente diagnosticada na população brasileira. Apresenta um fenótipo e uma história natural intermediária entre o carcinoma basocelular (CBC) e o melanoma. Isto é, embora de comportamento mais agressivo do que o CBC, é uma neoplasia passível de cura na maioria dos casos, diferentemente do melanoma. Ainda assim, de 2 a 5% dos casos de CEC de pele podem envolver nódulos regionais ou metástases à distância nos pulmões, ossos e, em alguns casos, sistema nervoso central.

Historicamente, quimioterapias citotóxicas, sobretudo doublet de platinas (carboplatina e doxetacel), eram as terapias mais utilizadas. Esses regimes eram adaptados para o CEC de pele sem estudos randomizados específicos para sua histologia e seu mecanismo de carcinogênese.
Em setembro de 2018, o cemiplimabe – um anticorpo monoclonal humano de alta afinidade anti-PD-1 – se tornou a primeira terapia sistêmica aprovada pelo FDA americano (U.S. Food and Drug Administration) para o tratamento da doença avançada em pacientes inelegíveis para cirurgia curativa ou radioterapia, por apresentar atividade clinicamente significativa e possuir um perfil de segurança consistente com outros agentes anti-PD-1. Ele também foi aprovado pela Anvisa, em março de 2019.

Recentemente, na ASCO 2020, três estudos sobre o tema foram destaque: Abstract 10018, Abstract 10033 e Abstract e19397.

O cemiplimabe se tornou a primeira terapia sistêmica aprovada pelo FDA americano para o tratamento do carcinoma espinocelular de pele em pacientes inelegíveis para cirurgia curativa ou radioterapia


Abstract 100181

De fase II, este é o estudo (NCT02760498) com maior conjunto de dados prospectivos de pacientes com CEC de pele avançado tratados com cemiplimabe e acompanhamento de aproximadamente um ano. Os pacientes foram alocados em três diferentes grupos:
  • Grupo 1: pacientes com CEC de pele metastático que recebiam cemiplimabe 3 mg/kg a cada 2 semanas;
  • Grupo 2: pacientes com CEC de pele localmente avançado que recebiam cemiplimabe 3 mg/kg a cada 2 semanas;
  • Grupo 3: pacientes com CEC de pele metastático que recebiam cemiplimabe 350 mg a cada 3 semanas.
Foram inscritos 193 pacientes (Grupo 1, n = 59; Grupo 2, n = 78; Grupo 3, n = 56). Do total, 128 não receberam terapia sistêmica antineoplásica prévia e 65 foram anteriormente tratados.

A duração média do acompanhamento foi de 15,7 meses (intervalo: 0,6-36,1) entre todos os pacientes, sendo 18,5 meses (intervalo: 1,1-36,1) para o Grupo 1, 15,5 meses (intervalo: 0,8-35,0) para o Grupo 2 e 17,3 meses (intervalo: 0,6-26,3) para Grupo 3.

O desfecho primário foi taxa de resposta objetiva (TRO, resposta completa + resposta parcial) por revisão central independente (Independent Central Review, ICR). Os dados aqui apresentados são por revisão do investigador.

A TRO foi de 54,4% (IC 95%: 47,1-61,6) para todos os pacientes; 50,8% (IC 95%: 37,5-64,1) para o Grupo 1, 56,4% (IC 95%: 44,7-67,6) para o Grupo 2 e 55,4% (IC 95%: 41,5-68,7) para Grupo 3. A TRO entre pacientes sem tratamento prévio foi de 57,8% (IC95%: 48,8-66,5) e 47,7% (IC95%: 35,1-60,5) para aqueles tratados anteriormente.

A duração mediana da resposta (DDR) não foi alcançada (intervalo DDR observado: 1,8-34,2 meses). Nos pacientes que responderam ao tratamento, a proporção estimada de indivíduos com resposta mantida em 24 meses foi de 76,0% (IC 95%: 64,1-84,4).

A sobrevida global (SG) mediana não foi atingida. A SG estimada em 24 meses foi de 73,3% (IC 95%: 66,1-79,2). Além disso, os eventos adversos emergentes ao tratamento (EAETs) mais comuns em qualquer grau foram fadiga (34,7%), diarreia (27,5%) e náusea (23,8%). Já os EAETs de grau ≥ 3 mais comuns foram hipertensão (4,7%), anemia (4,1%) e celulite (4,1%).
 
Os pesquisadores concluíram que, em relação aos dados históricos referentes a outras terapias sistêmicas administradas aos pacientes com CEC de pele avançado, o cemiplimabe atinge TRO, DDR e SG numericamente superiores.

Estudo com maior conjunto de dados prospectivos de pacientes com CEC de pele avançado tratados com cemiplimabe demonstra benefícios em TRO, DDR e SG.


Abstract 100332

Esta análise exploratória examinou os dados de um estudo (NCT02760498) sobre qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) de pacientes com CEC de pele avançado tratados com cemiplimabe.

Os pesquisadores aplicaram o questionário Cancer Specific 30-item (QLQ-C30), da European Organization for Research and Treatment of Cancer (EORTC), aos pacientes da pesquisa na linha de base (LB) e no dia 1 de cada ciclo de tratamento.

Medidas repetidas de efeitos mistos (Mixed Effects Repeated Measures, MMRM) foram usadas para estimar a mudança média da LB até o ciclo 5 (C5) de acordo com os itens do QLQ-C30. Para esses pacientes da LB até o C5, a proporção daqueles que reportaram melhora ou piora (≥10 pontos) clinicamente significativa ou manutenção (sem alteração ≥10 pontos) em cada item foi determinada para os grupos de tratamento combinado e individual.

Os escores da LB indicaram níveis de moderados a altos de funcionalidade e baixos sintomas prejudiciais. Da LB para o C5, foi observada uma melhora clinicamente significativa no escore de dor (mudança média de -12.1 [2.1]; P < 0.0001) e a maioria dos pacientes apresentou melhora clinicamente significativa ou permaneceu estável nos principais itens. Outros itens também permaneceram estáveis ou mostraram uma tendência de melhora (mudanças médias < 10 pontos). Achados semelhantes foram observados em sintomas individuais (85%-94% para dispneia, náusea/vômito, diarreia, constipação, perda de apetite) e em cada grupo de tratamento.

Os autores concluíram que os pacientes tratados com cemiplimabe alcançaram uma redução clinicamente significativa da dor e a maioria deles melhorou ou manteve sua QVRS e funcionalidade, com baixo nível de sintomas.

A tabela abaixo apresenta um resumo dos resultados obtidos no estudo:
Abstract e193973
O objetivo desta análise foi avaliar a relação de custo-efetividade do cemiplimabe em pacientes com CEC de pele avançado no estudo de fase II de braço único (NCT02760498), na perspectiva do pagador dos Estados Unidos (EUA). Para isso, um modelo de sobrevida comparando a relação de custo-efetividade do cemiplimabe versus o padrão de terapia histórica (PTH) foi desenvolvido.

Todas as inclusões de pacientes foram identificadas com base em uma revisão sistemática da literatura (RSL), que foi complementada pela opinião de especialistas, quando necessário. As inclusões clínicas do cemiplimabe foram baseadas nos dados individuais dos pacientes do referido estudo, enquanto a análise do PTH foi baseada em uma avaliação conjunta de ensaios clínicos de braço único e de estudos retrospectivos que incluíram quimioterapia e inibidores de EGFR (cetuximabe, erlotinibe e gefitinibe) identificados pela RSL (6 dos 27 estudos incluídos).

A sobrevida global (SG) e a sobrevida livre de progressão (SLP) foram extrapoladas ao longo de um horizonte vitalício, usando funções paramétricas consistentes com as orientações do National Institute for Health (NIH) e sua Care Excellence Decision Support Unit.

Foram incluídos custos para aquisição de medicamentos, administração de medicamentos, gerenciamento de eventos adversos, terapia subsequente, gerenciamento de doenças e atendimento terminal. Os custos unitários foram baseados nos preços de tabela publicados nos EUA em 2019.

Cemiplimabe versus PTH resultou em uma taxa incremental de custo-efetividade de US$ 99.024 por qualidade de vida ajustada por ano (Quality Adjusted-Life Year, QALY), sendo custos incrementais e QALYs de US$ 372.425 e US$ 3,76, respectivamente.

Em um patamar de disposição para pagamento de US$ 150.000 por QALY, a análise de sensibilidade probabilística sugere uma probabilidade de 91% de que o cemiplimabe seja mais rentável quando comparado ao PTH. As análises dos cenários resultaram em uma taxa incremental de custo-efetividade variando de US$ 90.326 a US$ 147.944

Análise sugere probabilidade de 91% de que o cemiplimabe seja mais rentável quando comparado ao padrão de terapia histórica.

Os autores concluíram que o cemiplimabe apresentou-se como uma terapia capaz de economizar recursos dos pagadores dos EUA no tratamento de CEC de pele avançado, mostrando um impacto farmacoeconômico importante. Ainda não é possível, no entanto, extrapolar esses dados de forma imediata para a realidade brasileira.

Em resumo, os três estudos demonstram que o cemiplimabe se confirmou como tratamento para o CEC de pele, com dados atualizados mostrando taxas de resposta próximas de 50%, impacto favorável em qualidade de vida e número de sobrevida livre de progressão e sobrevida global bastante animadores. A imunoterapia permanece como tratamento padrão para o CEC de pele, em pacientes não candidatos à cirurgia ou radioterapia, ou ainda para aqueles com doença metastática.