A depressão é atualmente a principal causa de incapacidade funcional entre as doenças e se encontra entre as dez doenças mais prevalentes no mundo, caracterizando-se como um grave problema de saúde pública, assim como a insônia, que é altamente prevalente entre a população global e associada à promoção de importante incapacidade funcional e ao aumento de morbidade e mortalidade entre seus portadores.1

Historicamente essas duas condições são relatadas com frequência e se apresentam concomitantemente, o que aponta para uma relação íntima entre elas. A ligação entre sono e doença depressiva é complexa: a depressão pode causar problemas de sono e os problemas de sono podem causar ou contribuir para transtornos depressivos. Para algumas pessoas, os sintomas de depressão ocorrem antes do início dos relacionados ao sono. Para outras, os problemas de sono aparecem primeiro. Essas duas condições também podem compartilhar fatores de risco e características biológicas e responder à mesma estratégia de tratamento. Os problemas do sono também estão associados a transtornos depressivos mais graves.

As evidências sugerem que as pessoas com insônia têm risco dez vezes maior de desenvolver depressão em comparação às que dormem bem.1 Indivíduos deprimidos podem sofrer de uma variedade de sintomas de insônia, como a dificuldade de iniciar ou manter o sono ou o despertar precoce.1-3

Pesquisadores brasileiros realizaram um estudo da prevalência de queixas sobre o sono em três décadas consecutivas na cidade de São Paulo.2 No estudo, é possível observar o aumento da prevalência de queixas sobre o sono com o decorrer dos anos, principalmente a dificuldade de mantê-lo (insônia intermediária).2 Em complemento, pesquisas sugerem que o risco de desenvolver depressão é maior entre as pessoas com insônia no início e na manutenção do sono. 

Assim como os sintomas desagradáveis dos transtornos do sono experimentados pelos pacientes, as mudanças objetivas na arquitetura do sono são bem documentadas na depressão.4 Em comparação com a de indivíduos controles normais, a continuidade do sono de indivíduos deprimidos geralmente é prejudicada, com aumento da vigília (períodos mais frequentes e mais longos) e redução da eficiência do sono.4 A latência do início do sono aumenta significativamente e o tempo total de sono é reduzido.4 A latência do movimento rápido dos olhos (REM, de rapid eye movement) é frequentemente reduzida e a duração do primeiro perío­do REM é aumentada.4

Além dos quadros psiquiátricos, os transtornos do sono, independentemente dos transtornos psiquiátricos, também estão associados com aumento de risco de hipertensão arterial sistêmica5, infarto agudo do miocárdio6, acidente vascular cerebral7, diabetes mellitus8 e quadros álgicos9,10

A higiene do sono, tão comentada atualmente, é ponto de partida no tratamento de todas as queixas de sono, pois corrige fatores precipitantes que, embora muitos pacientes desconheçam, podem ser a causa de seus problemas.11 Os pacientes serão aconselhados a: realizar exercícios físicos exclusivamente durante a manhã ou nas primeiras horas da tarde; fazer uma refeição leve acompanhada da ingestão limitada de água durante o jantar; evitar nicotina, álcool e bebidas que contenham cafeína (café, chá, infusão de erva-mate, bebidas do tipo “cola” e até guaraná); providenciar que a cama, o colchão e a temperatura do quarto sejam agradáveis; regularizar a hora de deitar e de levantar; utilizar o quarto somente para dormir; e manter atividade sexual.3,11,12 
Além disso, algo pouco explorado na higiene do sono é a composição da dieta. Talvez valha a pena refletirmos rapidamente sobre a microbiota e o seu papel nas doenças psiquiátricas. 

Os problemas gastrointestinais geralmente coexistem com o transtorno do espectro do autista16

O conceito de “eixo intestino-cérebro” não é novo.13 Os sintomas gastrointestinais são frequentemente relatados por indivíduos com doen­ças psiquiátricas.13 Distúrbios do apetite e alteração de peso são características-chave do transtorno depressivo maior,14 enquanto sintomas de diarreia e náusea são queixas frequentes de pacientes com transtornos de ansiedade.15 Os problemas gastrointestinais geralmente coexistem com o transtorno do espectro do autista16, esquizofrenia13, e a doença de Parkinson17. Da mesma forma, os gastroenterologistas não são estranhos à psicopatologia. Transtornos de humor, ansiedade e estresse são bem reconhecidos como condições que desempenham papel em casos de transtornos gastrointestinais funcionais, como síndrome do intestino irritável (SII), juntamente com condições orgânicas, inclusive doença inflamatória intestinal18 e ulceração péptica19.

Seria prematuro sugerir que probióticos ou outras intervenções em microbiomas poderiam substituir tratamentos farmacológicos ou psicoterápicos baseados em evidências. De fato, se os probióticos estivessem sujeitos ao mesmo rigor e escrutínio que os medicamentos antidepressivos, é incerto se eles passariam por todas as fases do desenvolvimento. Há algum debate sobre a melhor forma de regular o desenvolvimento de probióticos e prebióticos e, se alguém deve promover essas substâncias para o tratamento de condições clínicas como a depressão, é razoável sugerir que elas devam estar sujeitas ao mesmo processo seguido com as medicações psicotrópicas.  

Este pequeno apanhado nos faz refletir sobre o fato de que todas as condições estão interligadas e as intervenções devem ser sempre multidirecionadas. A abordagem dos sintomas do sono é de fundamental importância para a recuperação da depressão. Certifique-se de discutir quaisquer problemas de sono que persistam à medida que o humor melhora. Tais problemas podem sinalizar a presença de um transtorno do sono subjacente e prejudicar a evolução do quadro e a recuperação funcional.