A mucopolissacaridose tipo I (MPS I) é uma doença genética, de depósito lisossômico, causada pela deficiência da enzima lisossômica α-L-iduronidase, com mecanismo de herança autossômico recessivo.1 Os pacientes com MPS I são incapazes de degradar os glicosaminoglicanos (GAGs) sulfato de dermatana e sulfato de heparana.1 Esses componentes dos proteoglicanos fornecem suporte estrutural à matriz extracelular e às estruturas cartilaginosas, como articulações e valvas cardíacas, além de estar envolvidos na regulação e comunicação celular.1 A deficiência de α-L-iduronidase resulta no acúmulo progressivo de glicosaminoglicanos nos lisossomos, com subsequente disfunção multiorgânica e dano celular.1

A MPS I evolui com grande envolvimento multissistêmico e apresenta grande variabilidade fenotípica.1,2 Grande parte dos casos se enquadra na forma grave (síndrome de Hurler), com sinais e sintomas que se iniciam no primeiro ano de vida.2,3 Eles incluem obstrução das vias aéreas superiores, devido a hipertrofia das mucosas e adenotonsilar, infecções de vias aéreas de repetição, estreitamento laríngeo e traqueal, déficit auditivo e visual, fácies infiltrada, visceromegalias, hérnias abdominais, valvopatia e cardiomiopatia, deformidades esqueléticas como giba toracolombar e rigidez articular, além de progressivo quadro neurológico com importante deficiência intelectual.2,3 Sem tratamento específico, os pacientes apresentam expectativa média de vida dentro da primeira década.2,3 

Também são conhecidas formas mais leves da MPS I, com espectro de diferentes fenótipos, classicamente divididos em atenuados (síndrome de Scheie) e intermediários (síndrome de Hurler-Scheie).2 Os pacientes com os chamados fenótipos “mais brandos” podem atingir a idade adulta, mas apresentar morbidade significativa.2,3

Para melhor compreensão, ilustraremos com o caso clínico a seguir:

Paciente do sexo masculino, 6 anos de idade, encaminhado ao serviço de genética pelo neuropediatra devido à baixa estatura desproporcionada e deficiência intelectual, com suspeita de displasia esquelética.

Filho único de casal não consanguíneo, sem história familiar de doenças crônicas. Os pais referem que quando a criança tinha 6 meses notaram em casa “abaulamento” da coluna na região lombar. 

Aos 2 anos de idade, observou-se atraso na marcha, quando se iniciou seguimento pediátrico mais rigoroso. 

Aos 3 anos de idade, os familiares notaram “aumento do tamanho da cabeça”, bem como “aumento do tamanho da barriga” associado a hérnia umbilical. 

Aos 4 anos de idade, os familiares observaram ronco, bem como frequência acentuada de episódios de otite média aguda (referem uso mensal de antibioticoterapia). 

Aos 6 anos de idade, o paciente foi encaminhado ao neuropediatra, devido a atraso de desenvolvimento e agitação psicomotora, que encaminhou ao geneticista para investigação.
Durante inspeção visual, foram notados fácies infiltrada, macrocrania, aumento de volume abdominal e baixa estatura desproporcionada. O paciente apresentava ainda nível de atividade aumentado, não contactuava com o examinador e demonstrava interesse parcial em objetos do ambiente. Não verbalizava, apenas emitia gritos. 

Na ausculta cardíaca notou-se sopro sistólico valvar mitral e tricúspide; na ausculta pulmonar, ruídos grosseiros secundários a obstrução em via aérea alta. A oroscopia mostrou hipertrofia amigdaliana importante.

O exame de palpação abdominal evidenciou hepatomegalia e esplenomegalia de grande monta, com presença de hérnia umbilical grande e redutível, além de hérnias inguinais bilateralmente.

Na avaliação musculoesquelética, foram observados mãos em garra, limitação à elevação de braços (restrição articular de ombros), escoliose lombar moderada e joelhos valgos, além de marcha digitígrada com restrição articular em tornozelos. (Tabela 1)
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Os sinais e sintomas evidenciados nesse paciente são fortemente sugestivos de doença de depósito lisossômico,1,2 sendo a hipótese diagnóstica mais provável a mucopolissacaridose.4,5 

Para investigação, faz-se necessária a realização de exames complementares, laboratoriais e de imagem, para documentar os achados de exame físico, bem como a realização de exames bioquímicos específicos para confirmação diagnóstica, como a dosagem de GAGs na urina, dosagem de atividade das enzimas relacionadas às MPSs, que podem ser realizadas em leucócitos ou sangue impregnado em papel-filtro, e também exames de biologia molecular, como o sequenciamento dos genes que codificam essas enzimas.1,2,6,7

A suspeita clínica pelo médico generalista é o primeiro passo para o diagnóstico precoce dessas doenças. É fundamental aumentar a conscientização sobre a MPS entre pediatras e outros especialistas, a fim de reduzir o atraso diagnóstico ainda existente.8 O diagnóstico oportuno é mandatório para o início do tratamento o mais rápido possível, quando disponível, a fim de obter melhores desfechos, com menor morbidade desses pacientes, e propiciar melhor qualidade de vida.6-8