Este debate é relevante devido à persistência da transmissão do poliovírus fora das Américas, embora em baixos níveis. Como demonstrado na figura 1, com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) datados de 26 de maio de 2020, o vírus selvagem tipo 1 ainda está presente em dois países – Afeganistão e Paquistão – e cepas de VDPV foram detectadas em sete países.2
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Quase 20 anos se passaram desde que se definiu uma data, na 41ª World Health Assembly (WHA), realizada em 1988, para erradicação da poliomielite através do desenvolvimento de uma ação adequada: esse objetivo seria atingido até 2000.3,4

Tal iniciativa não teve sucesso no prazo estipulado, mas a 68ª WHA, realizada em 2015, renovou o propósito de erradicar o poliovírus até 2018. Entretanto, a complexidade da operação mundial levou a 72ª WHA, em 2019, a estender para 2023 a meta de erradicação global.4,5

Várias limitações de natureza política, social e econômica ainda precisam ser superadas, especialmente nas áreas de execução sob condições de campo duvidosas.5,6


Nas Américas conseguiu-se eliminar a poliomielite em 1991 com a utilização de uma estratégia efetiva de uso massivo de OPV com formulação vacinal adequada e a adoção dos Dias Nacionais de Vacinação (DNV), realizados em vários países.4,7

Tal esforço mobilizou governos nacionais em todos os níveis, bem como organizações privadas e a sociedade civil como um todo.4,7

A estratégia também teve êxito em outros continentes e levou a conquistas globais memoráveis, tais como: o poliovírus tipo 2 foi declarado erradicado em 2015; o último achado de poliovírus tipo 3 foi relatado em 2012;5 pouquíssimos casos de poliovírus selvagem tipo 1 foram confirmados, em apenas dois países, Afeganistão e Paquistão; e a circulação do VDPV está restrita a alguns países, como mostrado na figura 1.2,5,8

Enquanto a erradicação global está em processo, é essencial manter em níveis muito altos a imunidade da população mundial contra o poliovírus a fim de impedir a reintrodução do poliovírus selvagem em todos os lugares.5,6

As coberturas vacinais estão ocorrendo em todo o mundo, e com a pandemia de COVID-19, com recomendação de distanciamento social, aumentou mais ainda o problema de baixa cobertura vacinal. A ocorrência de casos de VDPV se deve à baixa cobertura vacinal com o uso de OPV, o que permite que as pessoas que recebem a vacina de vírus vivos atenuados excretem o vírus vacinal para o meio ambiente, podendo infectar outros indivíduos suscetíveis não protegidos.6

Após algumas passagens pelos seres humanos, o vírus vivo vacinal pode sofrer mutações para um novo VDPV e infectar outras pessoas.6
Portanto, na situação global atual, de baixa circulação de vírus da poliomielite e quase livres dos poliovírus selvagens, a OPV não deveria mais ser usada.6

Dessa forma, a Estratégia da Reta Final 2019-2023 da Pólio recomenda a substituição completa da OPV pela vacina IPV.1,5

A IPV com esquema de imunização adequado é altamente eficaz e muito segura e não contém vírus vivo para ser eliminado no ambiente.6 

É, portanto, essencial que todos os programas de vacinação do mundo não mais utilizem a vacina OPV e passem a utilizar a IPV,1 com três doses ou, melhor ainda, com quatro doses da vacina IPV.