A atividade física adequada requer plasticidade de movimento e, obviamente, entre os atletas, existe maior prevalência de osteoartrite (OA).1 Os atletas têm uma vida cada vez mais longeva, com uma produtividade esportiva muito grande. Como enfatizado por uma recente revisão sistemática da literatura,1 a prevalência de OA de joelho e tornozelo entre ex-jogadores profissionais de futebol de meia-idade (35 a 45 anos) chega a 80% e 17%, respectivamente. Além disso, até 90% desses ex-jogadores profissionais de futebol que sofreram de OA relataram dor e desconforto articular moderados ou graves, enquanto cerca de 65% indicaram problemas moderados ou graves de mobilidade e atividades cotidianas (trabalho, estudo, em casa).1

Muitos artigos estão publicados sobre OA e esporte/exercício. Apenas no último ano, mais de 600 estudos foram disponibilizados na base de dados PubMed sobre o assunto, e o que eles têm em comum é a avaliação do impacto ou da força, que na atividade física são chamados de carga de trabalho, que pode ser mensurada em intensidade, duração e frequência do treinamento.2,3

Após a lesão do ligamento cruzado anterior (LCA), o desenvolvimento de OA dependerá do mecanismo da lesão e também da lesão meniscal associada, pois a cartilagem articular do joelho continua a cicatrizar durante um a dois anos após uma lesão do LCA.4 Portanto, o cirurgião e a equipe de reabilitação devem estar atentos ao processo de reabilitação e à decisão de quando autorizar o retorno à prática esportiva, entendendo a dinâmica do paciente e como obter melhores resultados.4 Uma metanálise mostrou um risco global de lesão do LCA 2,6 vezes maior. Após cirurgia de reconstrução, os cirurgiões consideram os resultados da função do joelho significativamente melhores (cerca de 40% a 60%) do que são considerados pelos pacientes.4

Um registro norueguês sobre lesão do LCA avaliando 3.475 pacientes demonstrou que a chance de lesão cartilaginosa em uma lesão de LCA aumenta 1% a cada mês que se retarda a indicação cirúrgica de reconstrução e que as chances de lesão do menisco são duas vezes maiores se houver uma lesão na cartilagem articular, e vice-versa.4 

Em uma recente revisão da literatura,5 de 2017, os autores encontraram baixa incidência de OA de quadril e joelho em atletas corredores recreacionais e alta incidência em atletas profissionais, o que é bastante lógico, já que está relacionado com o volume de treino e a cartilagem responde à sobrecarga mecânica. Os resultados indicaram que estilo de vida mais sedentário ou longa exposição a corrida de alto volume e/ou alta intensidade estão associados à OA de quadril e/ou de joelho.5

Já em outra revisão,6 os autores concluíram que não foi possível determinar a associação entre o papel da corrida com a OA de joelho, devido às evidências científicas serem de qualidade baixa a moderada, e que evidências de estudos prospectivos bem planejados são necessárias para esclarecer as contradições. Isso pode ocorrer porque os desenhos dos estudos são diferentes, comparando-se populações distintas, e os resultados conflitantes podem refletir heterogeneidade metodológica.6

A OA é uma doença crônica, degenerativa e progressiva que afeta as articulações cobertas por sinóvia e, preferencialmente, o nosso amortecedor, que é a cartilagem.7,8 Ocorre desgaste da cartilagem, que produz dor e rigidez articular, perda da mobilidade articular e, consequentemente, perda da qualidade de vida.7 Quando é feito o diagnóstico de OA, vê-se apenas a ponta do iceberg, porque existem muitas outras alterações corporais ou metabólicas no processo inflamatório crônico que podem modificar a evolução do quadro.7,8

Dados epidemiológicos

No Brasil, há grande prevalência da doença; segundo o Ministério da Saúde, a OA atinge 15 milhões de brasileiros.9 A incidência de OA nas articulações de joelho é alta, tanto em homens quanto em mulheres.10 (Figura 1) 
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Causas

As causas da OA podem ser degenerativas ou traumáticas e dependem dos seguintes fatores:7,8
  • Estilo de vida (exercícios e dieta);
  • Genética;
  • Lesões pregressas.
A boa qualidade física mantém a homeostase da articulação, que assim é capaz de suportar o estresse fisiológico do treinamento.8

Fatores de risco

Os fatores de risco para a OA podem ser intrínsecos ou extrínsecos, como:7,8,11-13
  • Idade;
  • Flexibilidade;
  • Lesão prévia;
  • Desequilíbrio muscular;
  • Condição física.
Quando se pratica atividade física por lazer, o organismo encontra-se dentro da chamada zona de homeostase, que não provoca qualquer adaptação articular.14,15  A maioria dos treinamentos que são prescritos aos pacientes está dentro da zona de sobrecarga fisiológica, e a maioria dos atletas trabalha em uma zona de risco muito grande, denominada zona de falência estrutural.14,15 

Segundo a teoria de Scott Dye,15 o equilíbrio entre a faixa de carga aplicada em uma articulação dentro de um determinado período, sem sobrecarga suprafisiológica ou falha estrutural, pode ser denominado “envelope de função” ou “envelope fisiológico”. Essa faixa de carga homeostática pode ser representada graficamente com cargas crescentes no eixo vertical e a frequência, no eixo horizontal.15 (Figura 2) Essa teoria da função articular pode resultar em uma abordagem clínica mais racional no tratamento de pacientes com lesões no joelho e outras condições ortopédicas.15 
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/10/oa-e-atividade-fisica/Sanofi_1224_Art_850x870_Figura2.ashx?w=850&hash=CC62FD006128F4E4CE74D74743763E71
Fatores de prevenção

Analisando a literatura, observa-se uma mudança de tendência dos estudos de estratégias de prevenção de lesões.16 Atualmente, discute-se menos o equipamento e mais como treinar.16 (Figura 3)
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2020/10/oa-e-atividade-fisica/Sanofi_1224_Art_850x1190_Figura3.ashx?w=850&hash=C83D4ECB7E8F08CA5D82F0303D7F9498
A termografia é um exame bastante interessante que consegue detectar com antecedência alterações de comportamento metabólico.17 Medidas termográficas têm sido cada vez mais utilizadas como recurso preventivo e de controle de atletas no treinamento esportivo.17 

No futebol, os princípios de prevenção são clássicos, como aquecimento com mais ênfase no alongamento, reabilitação adequada, treinamento proprioceptivo, boas condições do campo, equipamento de proteção e adesão às regras existentes.18 A carga excêntrica também é importante, porque protege o atleta de lesões musculares.19

Existem vários níveis de prevenção de lesões:19
  • Prevenção primária: antes que aconteça a lesão (é o nível mais importante de ser trabalhado);
  • Prevenção secundária: quando acontece a lesão;
  • Prevenção terciária: após a lesão.
Atletas com história de lesão anterior apresentam maior probabilidade de nova lesão.19

A avaliação é um importante instrumento para a manutenção da saúde e para a segurança de atletas e praticantes de exercícios.20

Sobre programas de prevenção, objetiva-se treinar padrões seguros de controle neuromuscular, desenvolvendo a inteligência do movimento e a estabilidade do CORE.19

Ácido hialurônico e absorção de impacto


O ácido hialurônico atua como lubrificante para permitir que os ossos se movam suavemente uns sobre os outros e como amortecedor para cargas conjuntas.21 Pessoas com OA têm menor concentração e volume alterado de ácido hialurônico do que o normal em suas articulações.21  O ácido hialurônico de alto peso molecular, como o Synvisc, restaura no fluido sinovial as propriedades lubrificantes e viscoelásticas, proporcionando um sistema de defesa para o atleta, que precisa desenvolver uma cartilagem com grande capacidade de absorção de impacto.21,22

Ferramentas tecnológicas


Têm surgido diversos aplicativos móveis (apps) sobre saúde e esporte.23 Uma revisão da literatura identificou mais de 64 mil aplicativos de celular, mas apenas 18 são direcionados à prevenção e quatro são baseados em alguma evidência clínica.23
 
Conclusão

A melhor maneira de prevenir lesões é treinar melhor e, consequentemente, prevenir a osteoartrite.1,7,8

Têm surgido diversos aplicativos móveis (apps) sobre saúde e esporte.23