INTRODUÇÃO

Embora dados de base populacional sobre a COVID-19 sejam amplamente requisitados, poucas pesquisas nacionais estão disponíveis.1

As políticas de distanciamento físico variam amplamente em todo o Brasil e sua implementação depende principalmente dos governos municipais e estaduais. Os testes são limitados a pacientes com doenças graves e as evidências sugerem que as mortes por COVID-19 são subestimadas. Portanto, dados periódicos de base populacional sobre a pandemia são necessários.1

O objetivo deste estudo foi investigar a prevalência de anticorpos por cidades do Brasil de acordo com sexo, idade, grupo étnico e nível socioeconômico, além de comparar as estimativas de soroprevalência com estatísticas oficiais de casos confirmados e óbitos.1

METODOLOGIA

Este estudo transversal realizou dois inquéritos de soroprevalência em 133 cidades sentinelas de todos os estados brasileiros. Os domicílios foram selecionados aleatoriamente, bem como um indivíduo dentre os membros residentes, excluindo crianças menores de 1 ano. A presença de anticorpos contra SARS-CoV-2 foi avaliada no local de atendimento através de um teste rápido que detecta isotipos IgG e IgM específicos para o domínio de ligação da proteína spike do vírus SARS-Cov-2 (ensaio de fluxo lateral - WONDFO SARS-CoV-2 Antibody Test - Wondfo Biotech, Guangzhou, China).1  

Os participantes também responderam a questionários curtos sobre informações sociodemográficas (sexo, idade, educação, etnia, tamanho da família e bens da família) e conformidade com medidas de distanciamento físico.1

RESULTADOS

Foram entrevistados 25.025 participantes em 132 cidades na primeira pesquisa (14 a 21 de maio) e 31.165 na segunda (4 a 7 de junho). 

Detecção de sorologia positiva contra SARS-CoV-2 em todas as cidades:1
  • Primeira pesquisa: 1,39% (347 dos 24.995 testes válidos).
  • Segunda pesquisa: 2,40% (746 dos 31.128 testes válidos).
Já para as 83 (62%) cidades com tamanhos de amostra de mais de 200 participantes em ambas as pesquisas, a soroprevalência combinada aumentou de 1,9% (IC95%: 1,7–2,1) para 3,1% (2,8 – 3,4); p < 0,0001 (Figura 1). Porém, houve grande diferença entre as cidades, com a prevalência variando de 0% a 25,4%, incluindo as duas pesquisas.1  

Quando um participante testou positivo, outros membros da família também foram testados. 21,6% dos participantes positivos tinham pelo menos um outro membro positivo na família na primeira pesquisa e 33,0% na segunda pesquisa.1  

Primeira pesquisa (14 a 21 de maio) - análise dos dados de cidades com mais 200 exames realizados

A soroprevalência combinada nas cidades com mais de 200 participantes em ambas as pesquisas foi de 1,9% (IC95%: 1,7–2,1).1
  • Dentre as 90 cidades com mais de 200 exames realizados (Figura 1):1
    - 18% (16/90) tiveram prevalência acima de 2,0%, sendo 11 na Região Norte (ao longo de 2.000 km do rio Amazonas), 3 no Nordeste e 2 na Região Sudeste.
    - As 6 cidades com maior prevalência estavam todas localizadas ao longo de um trecho de 2.000 km do rio Amazonas. - 60% (54/90) não tiveram testes positivos.
    - 14% (13/90) tiveram apenas 1 teste positivo.
    - A taxa de cidades com nenhum caso positivo por região foi: na Região Centro-Oeste, todas as 9 cidades tiveram zero casos; na Região Sul, 80% (16/20); na Região Sudeste, 55% (11/20); na Região Nordeste, 55% (12/22); e na Região Norte, apenas 32% (6/19).

Segunda pesquisa (4 a 7 de junho) - análise dos dados de cidades com mais 200 exames realizados

A soroprevalência combinada nas cidades com mais de 200 participantes em ambas as pesquisas foi de 3,1% (2,8 – 3,4).1
  • Dentre as 120 cidades com mais de 200 exames realizados:1
    - 41% (49/120) tiveram nenhum caso.
    - 15% (18/120) tiveram apenas um resultado positivo.
    - 28% (34/120) tiveram prevalência de testes positivos de 2% ou mais, sendo 11 na Região Norte, 14 no Nordeste e 3 no Sudeste (Rio de Janeiro com 7,5%, Vitória com 3,2%, e São Paulo com 2,3%).
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Figura 1. Resultados observados em cidades em que mais de 200 exames foram realizados, na primeira pesquisa (14 a 21 de maio) e na segunda pesquisa (4 a 7 de junho). (Adaptado de Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1)

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Figura 2. Comparação da prevalência de anticorpos contra SARS-CoV-2 em cidades brasileiras nas duas pesquisas realizadas. Os dados representam 83 cidades com pelo menos 200 participantes em ambas as pesquisas. A linha tracejada mostra a inclinação da regressão linear (p < 0,0001). (Adaptado de Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1

Na Região Norte e Nordeste foi observado um aumento significativo na prevalência de indivíduos com anticorpos positivos contra o SARS-CoV-2 (p < 0,0001). Já nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, alterações nas taxas de soroprevalência ao longo do tempo não foi significativas (Figura 3).1

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Figura 3. Soroprevalência nas regiões do Brasil na primeira pesquisa (14 a 21 de maio) e na segunda pesquisa (4 a 7 de junho, por mil habitantes. (Adaptado de Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1)

A distribuição da prevalência de anticorpos contra SARS-CoV-2 na segunda pesquisa é mostrada abaixo (Figura 4).1
 
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Figura 4. Prevalência de anticorpos contra SARS-CoV-2 em 133 cidades do Brasil. (Adaptado de Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1)

Na segunda pesquisa, a prevalência foi semelhante em homens e mulheres, mas um aumento na prevalência foi observado em participantes com idades entre 20-59 anos e aqueles que vivem em condições de aglomeração (4,4% [3,5-5,6] para aqueles que vivem em famílias com seis ou mais pessoas).1 

Soroprevalência de acordo com gênero, faixa etária, tamanho da família, índice econômico

A prevalência foi semelhante entre homens e mulheres. Não houve diferença significativa de acordo com a idade na primeira pesquisa, mas na segunda pesquisa a prevalência foi maior nos indivíduos de 20 a 59 anos, o que foi associado a um aumento na proporção de indivíduos que saíam de casa diariamente (de 27,2% para 31,6%; p <0,0001). Crianças e adolescentes apresentaram prevalências semelhantes nas duas pesquisas (Figura 5).1
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Figura 5. Soroprevalência do SARS-CoV-2 de acordo com a faixa etária. (Adaptado de  Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1)

Diferenças marcantes na prevalência de acordo com o grupo étnico foram observadas (Figura 6).1 

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Figura 6. Soroprevalência de acordo com etnia. (Adaptado de Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1

A prevalência foi diretamente associada ao tamanho da família em ambas as pesquisas (Figura 7).1 
 
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Figura 7. Soroprevalência do SARS-CoV-2 de acordo com o tamanho da família. (Adaptado de  Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1

Os resultados para o status socioeconômico mostram a prevalência duas vezes maior no quintil mais pobre do que no quintil mais rico, em ambas as pesquisas. Não foram encontradas evidências de aumentos maiores em um quintil específico (Figura 8).1
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Figura 8. Soroprevalência do SARS-CoV-2 de acordo com o IEN. (IEN = Índice Econômico Nacional, este foi o parâmetro de riqueza avaliado neste estudo por meio de um índice de ativos baseado em 8 variáveis de ativos. Internet em casa e TV a cabo, computador / notebook, TV, ar condicionado e carro e o número de quartos e banheiros na residência) (Adaptado de  Hallal PC, et al. The Lancet. 2020.1)

DISCUSSÃO

A prevalência de anticorpos aumentou mais de 50% no período de 2-3 semanas entre as duas pesquisas, com elevação na maioria das cidades estudadas. Apenas duas cidades (Breves e Castanhal) apresentaram uma redução superior a 2 pontos percentuais.1

Os títulos séricos em indivíduos previamente positivos podem ter caído abaixo do limite de detecção para o teste entre a primeira e a segunda pesquisas. De fato, um estudo mostrou evidências de declínios rápidos nos títulos de IgG sérica entre os pacientes infectados com COVID-19 ao longo do tempo, levando à diminuição de resultados positivos  no teste ELISA. Este declínio foi especialmente prevalente entre indivíduos soropositivos que eram assintomáticos, 40% dos quais se tornaram soronegativos após um período de 8 semanas. Um declínio de 14% nos resultados positivos também foi observado nas pesquisas espanholas entre a primeira e a terceira pesquisa (aproximadamente 40 dias). Esses achados podem ter implicações importantes para a interpretação dos estudos de soroprevalência, que provavelmente subestimam a prevalência real, uma vez que indivíduos previamente positivos tornam-se negativos em um curto período de tempo. Estudos longitudinais são necessários para confirmar esses achados.1

Crianças apresentaram prevalência semelhante à observada em grupos de idade mais avançada na primeira pesquisa, mas, na segunda, a prevalência foi mais baixa naqueles com idade até 19 anos, em comparação com adultos com 20-59 anos.1
 
Os resultados deste estudo mostraram:1
  • uma alta correlação com as taxas de mortalidade relatadas,
  • um aumento ao longo do tempo conforme a pandemia progredia,
  • uma distribuição por idade, nível socioeconômico e tamanho da família conforme esperado.
A comparação com os casos e mortes oficialmente relatados mostrou que apenas 1 em cada 10 infecções foram relatadas, e a estimativa da taxa de mortalidade por infecção foi menor do que o número oficial para letalidade.1

A soroprevalência para SARS-CoV-2 aumentou de 1,9% para 3,1% (p < 0,0001). Esse aumento foi maior em indivíduos de 20 a 59 anos, famílias mais numerosas, indivíduos com baixo nível socioeconômico e com ancestralidade indígena. Além disso, ⅓ dos participantes que testaram positivo também tinham pelo menos um outro membro da família soropositivo. Os dados deste estudo sugerem que apenas 1 em cada 10 infecções haviam sido notificadas.1  


CONCLUSÕES

  • A prevalência de anticorpos foi altamente heterogênea por região do país, com rápido aumento no Norte e Nordeste do Brasil.1
  • Um terço dos participantes que testaram positivo também tinham pelo menos um outro membro da família soropositivo.1
  • Na segunda pesquisa, a prevalência foi maior nos indivíduos de 20 a 59 anos, o que foi associado a um aumento na proporção de indivíduos que saíam de casa diariamente.1
  • A prevalência também foi maior em famílias mais numerosas, indivíduos com ancestralidade indígena e com baixo nível socioeconômico.1
Novas ondas de pesquisas sorológicas permitirão o monitoramento da progressão da pandemia e ajudarão a avaliar a eficácia das estratégias de contenção da COVID-19 no Brasil.1