A mucopolissacaridose tipo I (MPS I) é uma doença de depósito lisossômico causada pela deficiência da enzima α-L-iduronidase, que leva ao acúmulo de glicosaminoglicanas (GAGs) parcialmente degradadas dentro das células.1 O acúmulo progressivo de GAGs deflagra uma complexa cascata de eventos intracelulares que resultam em dano tecidual e disfunção multissistêmica.1 

Historicamente, a MPS I era dividida em 3 fenótipos clínicos: Hurler (grave), Hurler-Scheie (intermediário) e Scheie (leve).2 Atualmente, considera-se que a MPS I represente um continuum, com importante variabilidade quanto à idade de início e à velocidade de progressão dos sintomas.2 Os fenótipos clínicos hoje são classificados como graves ou atenuados, na dependência de os pacientes apresentarem ou não comprometimento cognitivo.3,4

As manifestações clínicas da MPS I envolvem os sistemas esquelético, cardíaco, respiratório e nervoso e os pacientes apresentam expectativa de vida reduzida.2,4 Sem tratamento, os pacientes que apresentam a forma grave da doença sobrevivem só até a primeira década de vida, enquanto muitos pacientes com a forma atenuada resistem até a idade adulta, mas com significativa morbidade.2,4 

A maioria dos casos de MPS I compreende a forma grave da doença, com aparecimento de sinais e sintomas ainda no primeiro ano de vida.5 O comprometimento cognitivo progressivo é um marco na forma grave da MPS I.2,4 Embora o desenvolvimento inicial pareça normal, o atraso se torna evidente entre os 12-24 meses de idade.2,4 A maioria dos pacientes atinge o platô no seu desenvolvimento antes de começar a neurodegeneração, que deixará esses indivíduos gravemente incapacitados após alguns anos de evolução da doença.2,4 Devido à combinação de déficit cognitivo, aumento da língua e perda auditiva, os pacientes com a forma grave da MPS I desenvolvem pouca habilidade verbal, mas a maioria consegue aprimorar alguma habilidade social.2,4 

A hidrocefalia comunicante é comum nas formas graves da doença e progride lentamente ao longo de meses/anos.2 O aumento crônico da pressão intracraniana pode contribuir para o atraso do desenvolvimento neuropsicomotor e para os problemas visuais/oculares.2 A derivação ventriculoperitoneal consegue reduzir a pressão liquórica, mas não reverte significativamente a doença.2 

Todos os pacientes com MPS I, principalmente os portadores da forma grave, podem desenvolver insuficiência respiratória como resultado da combinação de doença pulmonar restritiva, apneia obstrutiva do sono e/ou asma.2 A doença das vias aéreas superiores resulta da infiltração de GAGs na língua, nas amígdalas e nas adenoides, do estreitamento da traqueia, da redundância de tecidos nas vias aéreas e do espessamento das cordas vocais.2 A maioria dos pacientes com MPS I grave desenvolve doença obstrutiva das vias aéreas superiores e apneia obstrutiva do sono (AOS) aos 2-3 anos de idade.2 A doença pulmonar restritiva também está presente; é causada predominantemente por restrição extrínseca do pulmão, devido à combinação de alterações esqueléticas do tórax e da coluna vertebral e hepatoesplenomegalia, o que limita a excursão diafragmática.2 A doença pulmonar restritiva grave ainda pode agravar a AOS.2 Infecções das vias aéreas, tanto superiores quanto inferiores, são bastante frequentes e podem ser um dos primeiros sintomas apresentados pelo paciente com MPS.2,4,6 Broncoaspirações podem ocorrer devido a envolvimento e distorção anatômica, distúrbio funcional do processo de deglutição e da capacidade cognitiva.2,4,6

Manifestações cardíacas são comuns em todo o espectro da MPS I e progridem com o passar do tempo.2 As alterações cardiovasculares resultam geralmente da infiltração progressiva de GAGs nos tecidos cardíacos, embora também possam ser causadas por hipoxemia crônica.4,7 Os pacientes apresentam espessamento progressivo dos folhetos valvares, o que resulta em insuficiência e/ou estenose valvar.3,4 As valvas mitral e aórtica são as mais comumente afetadas, mas as valvas tricúspide e aórtica podem ser acometidas também.4 Outras manifestações incluem hipertrofia do ventrículo esquerdo, miocardiopatia dilatada, hipertensão aterial sistêmica e pulmonar e dilatação da raiz da aorta.2,4 Os pacientes com MPS I grave apresentam menor capacidade cardiorrespiratória, maior risco de congestão venocapilar pulmonar e maior instabilidade elétrica atrial e ventricular.3,4,7

As manifestações esqueléticas na MPS I são coletivamente chamadas de disostose múltipla.2,4 Elas estão presentes desde o nascimento e são progressivas.2 Entre os principais achados estão encurtamento dos ossos longos, alargamento das costelas, hipoplasia do processo odontoide, platispondilia, cifose toracolombar, falanges encurtadas, displasia das cabeças femorais, coxa valga e genu valgum.2,4 Por volta dos 2 anos de idade, os pacientes com a forma grave da MPS I apresentam rigidez articular e artropatia de todas as articulações.2 A instabilidade atlantoaxial (IAA) é uma das manifestações mais graves da doença, tendo em vista o potencial risco de compressão medular e mielopatia cervical.4 A limitação funcional, decorrente da disostose múltipla associada ao déficit cognitivo, contribui para a dependência parcial ou completa nas atividades de vida diária.2,4

Os pacientes com MPS I grave geralmente apresentam surdez condutiva e neurossensorial.2 A perda auditiva pode ser atribuída a infecções frequentes, ossificação defeituosa do ouvido médio, cicatrizes na membrana timpânica e danos ao nervo auditivo.2 Mesmo na ausência de infecções, os pacientes apresentam rinorreia abundante e rinite crônica recorrente.2

O acúmulo de GAGs e a desorganização das fibrilas de colágeno no epitélio da córnea resultam em opacidade corneana na maioria dos pacientes, o que leva à baixa acuidade visual que pode ser agravada pela presença de atrofia do disco óptico, glaucoma, retinopatia e erros de refração.3

Um dos grandes desafios do manejo dos pacientes com MPS I continua sendo o diagnóstico precoce. As abordagens terapêuticas atualmente disponíveis transformam a história natural da doença, mas algumas manifestações são irreversíveis depois de instaladas. A combinação de diagnóstico precoce e terapias eficazes ainda é a melhor perspectiva para os pacientes.