INTRODUÇÃO

Em 2020, a pandemia da COVID-19 causada pelo coronavírus 2 responsável pela síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2), criou uma crise sem precedentes em todo o mundo. Dada sua rápida transmissão e a grande proporção de casos graves que requerem cuidados médicos intensivos, essa infecção colocou uma grande pressão no sistema global de saúde e no público em geral.1 

Nesse mesmo contexto, distúrbios psiquiátricos, como depressão, ansiedade e transtornos relacionados ao estresse, têm sido associados a um risco elevado de várias doenças somáticas, incluindo doenças autoimunes, doenças respiratórias e infecções graves, possivelmente devido a respostas imunes alteradas. Portanto, é plausível que um transtorno psiquiátrico pré-existente, diagnosticado antes da pandemia, também possa alterar a suscetibilidade individual à COVID-19.1 

Comportamentos subótimos (por exemplo, fumar) e a condição socioeconômica entre os indivíduos com transtornos psiquiátricos também podem contribuir para uma maior vulnerabilidade à COVID-19. De fato, vários estudos mostraram que estilos de vida pouco saudáveis, fatores psicossociais (incluindo sofrimento psicológico auto-relatado) e certos transtornos psiquiátricos (ou seja, depressão, abuso de substâncias ilícitas e esquizofrenia) podem aumentar o risco de COVID-19.1

Desse modo, o objetivo da pesquisa foi avaliar a associação entre transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos e o risco subsequente de infecção, hospitalização e morte pela COVID-19 usando o UK Biobank.1

METODOLOGIA

O UK Biobank é um estudo de coorte prospectivo de 502.507 participantes de meia-idade (40-69 anos) da Inglaterra, Escócia e País de Gales que foram recrutados entre 2006 e 2010. No recrutamento, foram coletadas informações sobre características sociodemográficas, estilo de vida e fatores relacionados à saúde. Os resultados relacionados à saúde dos participantes foram obtidos pela análise de diferentes bancos de dados nacionais, com o consentimento dos mesmos. Para a análise, foram incluídos participantes do UK Biobank registrados na Inglaterra e excluídos indivíduos que morreram antes de 31 de janeiro de 2020 (início do surto de COVID-19 no Reino Unido) ou que haviam se retirado do estudo. Os participantes com diagnóstico de transtorno psiquiátrico antes de 31 de janeiro foram incluídos no grupo de indivíduos com transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos, enquanto os participantes sem diagnóstico antes do surto foram incluídos no grupo de indivíduos sem transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos.1

Os dados sobre os casos de COVID-19, foram obtidos do conjunto de dados da Public Health England, do UK Biobank hospital e dos registros de óbitos. Para examinar a relação entre transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos e suscetibilidade à COVID-19, foram usados modelos de regressão logística para estimar a razão de probabilidade (OR, do inglês odds ratio), controlados para múltiplos confundidores (ano de nascimento, sexo, raça ou etnia, índice de privação de Townsend, escolaridade, renda familiar anual, índice de massa corporal, tabagismo e histórico de doença cardíaca crônica, diabetes, doença pulmonar crônica, doença renal crônica e asma) e comorbidades somáticas. Os principais resultados foram analisados em 3 subgrupos:1
  • Todos os infectados pela COVID-19,
  • Pacientes hospitalizados pela COVID-19,
  • Mortes relacionadas à COVID-19.

RESULTADOS


Foram incluídos 421.014 participantes na análise, sendo 370.205 indivíduos sem e 50.809 indivíduos com distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos (Figura 1).1 
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Figura 1. Características dos pacientes incluídos no estudo. (Adaptado de Yang H et al. The Lancet Healthy Longevity. 2020; 1(2): e69-e79.1)

Foi observado um risco elevado para COVID-19 entre indivíduos com transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos em comparação com indivíduos sem tais condições (Figura 2). De 50.809 indivíduos com transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos, 442 (0,9%) foram diagnosticados com COVID-19, dos quais:1 
  • 0,7% (338/50.809) eram casos de hospitalização por COVID-19,
  • 0,2% (120/50.809) tiveram morte por COVID-19.
Por outro lado, de 370.205 indivíduos sem transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos, 1.509 (0,4%) foram identificados com infecção por COVID-19:1
  • 0,3% (1.012/370.205) eram casos de hospitalização por COVID-19,
  • 0,1% (256/370.205) tiveram morte por COVID-19.
No grupo de pessoas com transtornos psiquiátricos, a razão de risco ou odds ratio (OR) ajustado (ao ano de nascimento, sexo, outros fatores de confusão e comorbidades) foi de 1,44 (IC95%: 1,28–1,62). O OR ajustado (considerando todos os fatores de confusão) foi de 1,55 (IC95%: 1,34–1,78) para hospitalizados por COVID-19 e 2,03 (IC 95% 1,59–2,59) para mortes por COVID-19 (Figura 2).1 

Os ORs observados foram semelhantes entre todos os subtipos estudados de transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos, com as estimativas pontuais mais altas observadas para depressão, transtorno psicótico e ansiedade (Figura 2). Padrões semelhantes de resultados foram observados para hospitalização por outras infecções (Figura 2).1
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Figura 2. Risco de COVID-19 e outras infecções entre indivíduos com um ou mais distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos comparado com indivíduos sem distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos. OR: razão de probabilidade (do inglês, odds ratio). IC: intervalo de confiança. (Adaptado de Yang H et al. The Lancet Healthy Longevity. 2020; 1(2): e69-e79.1)

O risco elevado de COVID-19 em indivíduos com transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos não diferiu por sexo, renda familiar anual, IMC, tabagismo ou número de comorbidades somáticas (Figura 3). No entanto, os riscos foram um pouco maiores entre os indivíduos com mais de 64 anos para infecção (p de interação <0,0001), hospitalização (p de interação <0,0001) e morte por COVID-19 (p de interação = 0,011; Figura 3).1
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Figura 3. Taxas de risco observadas para (A) infecção, (B) hospitalização e (C) morte por COVID-19 em pacientes com diagnóstico de distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos comparados com indivíduos sem esse diagnóstico pré-pandêmicos, segundo diferentes variáveis. (Adaptado de Yang H et al. The Lancet Healthy Longevity. 2020; 1(2): e69-e79.1)

Não foi encontrada nenhuma diferença nas ORs para o tempo desde o primeiro diagnóstico de um transtorno psiquiátrico pré-pandêmico. No entanto, foi observado um risco excessivo para COVID-19 quando o indivíduo apresentava um maior número de transtornos psiquiátricos pré-pandêmicos (p tendência <0,0001; Figura 4).1
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Figura 4. Taxas de risco observadas para (A) infecção, (B) hospitalização e (C) morte por COVID-19 em pacientes com diagnóstico de distúrbios psiquiátricos pré-pandemico comparados com indivíduos sem esse diagnóstico pré-pandêmicos, segundo o tempo desde o primeiro diagnóstico de distúrbios psiquiátricos e o número de distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos. (Adaptado de Yang H et al. The Lancet Healthy Longevity. 2020; 1(2): e69-e79).1

DISCUSSÃO

Embora existam poucos dados comparáveis no contexto da COVID-19, a associação entre transtornos psiquiátricos e infecções subsequentes foi consistentemente demonstrada em estudos anteriores. Inúmeras pesquisas experimentais sugerem uma associação dependente entre a gravidade do estresse psicológico e doença respiratória infecciosa aguda. Estudos recentes examinaram essas associações no contexto da pandemia COVID-19, indicando que uma série de fatores psicossociais, incluindo sintomas auto-relatados de sofrimento psicológico e certos transtornos psiquiátricos estavam associados com um risco aumentado de COVID-19. No entanto, o efeito de vários tipos de transtornos psiquiátricos na COVID-19 não foi abordado nesses estudos.1 

Os resultados apresentados são consequência de uma associação entre transtornos psiquiátricos clinicamente confirmados e um risco aumentado de COVID-19, especialmente COVID-19 grave e fatal, ressaltando a necessidade de vigilância e cuidado para as populações com histórico de transtornos psiquiátricos durante o surto de COVID-19.1
Embora os mecanismos subjacentes para a associação observada ainda permaneçam desconhecidos, a ativação do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal entre indivíduos com transtornos psiquiátricos tem sido amplamente relatada. Essa ativação pode levar a uma alteração de glicocorticóides circulantes e, subsequentemente, supressão da resposta imune celular e humoral. Com o sistema imunológico enfraquecido, há aumento do risco de uma pessoa ser infectada pelo SARS-CoV-2 quando exposta ao vírus. Além disso, a superprodução de citocinas inflamatórias induzida por uma resistência do receptor de glicocorticóide pode interferir na progressão de infecções graves. De fato, foi relatado que níveis aumentados de citocinas estão relacionados à deterioração da doença e COVID-19 fatal. Independente das condições imunes, indivíduos com transtornos psiquiátricos possuem maior risco de apresentar várias comorbidades, e os achados aqui apresentados indicam que a presença de tais comorbidades podem contribuir para a associação observada com desfechos graves da COVID-19.1

●  Distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos foram associados ao maior risco de infecção, hospitalização e morte por COVID-19.1 
●  Pacientes com maior número de distúrbios psiquiátricos apresentaram maior risco de infecção, hospitalização e morte por COVID-19.1 
●  Indivíduos com distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos também apresentaram maior risco de hospitalização por outras infecções, o que traz embasamento para que haja uma condição subjacente nos pacientes com estes tipos de transtornos que aumente a suscetibilidade às infecções, inclusive de COVID-19.1 

O uso de um controle positivo (ou seja, hospitalização por outras infecções) fornece embasamento adicional para a hipótese de que há uma explicação para a suscetibilidade aumentada às infecções em pacientes com transtornos psiquiátricos.1

Limitações do estudo

O UK Biobank tem algumas limitações inerentes. Por exemplo, recrutou apenas 5,5% da população convidada e os participantes eram predominantemente brancos (94,6%). Como tal, o Biobank do Reino Unido não é representativo da população em geral e, portanto, a generalização de seus dados pode ser limitada. Além disso, a validação dos diagnósticos de alguns transtornos psiquiátricos era insatisfatória e, desta forma, os achados podem não ser generalizados diretamente para pessoas com sintomas psiquiátricos mais leves ou subclínicos.1

CONCLUSÃO

Distúrbios psiquiátricos pré-pandêmicos foram associados a um risco elevado de COVID-19, especialmente hospitalização e mortalidade relacionadas à COVID-19. Embora pesquisas prospectivas sejam necessárias para confirmar os achados, o risco semelhante observado para hospitalização devido a outras infecções sugere mecanismos subjacentes compartilhados, incluindo vias imunológicas alteradas. O aumento da suscetibilidade à COVID-19 entre os indivíduos com transtornos psiquiátricos pré-existentes exige uma melhor consciência clínica e cuidados entre os profissionais de saúde para este grupo vulnerável durante a pandemia da COVID-19.1