A experiência no Brasil permitiu a publicação de dois consensos, um publicado em 2009 e outro em 2016, reunindo diversos especialistas para recomendações em doença de Pompe.1,2

A doença de Pompe é uma doença potencialmente letal, crônica, muito grave e com evolução bastante rápida. Os pacientes são classificados em doença de Pompe infantil (ou IOPD, do inglês infantile-onset Pompe Disease), em que os sintomas aparecem já nos primeiros dias ou durante o primeiro ano de vida, ou em doença de Pompe de início tardio (comumente chamada de LOPD, do inglês late-onset Pompe disease), com o início dos sintomas durante a infância (após 12 meses de idade) ou na idade adulta.2,3 Conforme a literatura vem documentando a história da doença de Pompe, as expectativas tornam-se mais realistas, e nesse sentido é importante informar de forma clara as expectativas aos familiares, determinando metas a curto, médio e longo prazos.

Na doença de Pompe infantil, a cardiomiopatia hipertrófica pode resultar em arritmias e morte súbita, e esses pacientes reagem muito mal aos anestésicos, principalmente os que não são voláteis. Um estudo de história natural publicado em 2006 listou os principais sinais e sintomas da doença de Pompe. A partir dessa lista, é possível monitorar as crianças, antes e após o tratamento, avaliando a musculatura, a respiração, as dificuldades de alimentação, o emagrecimento, a perda de energia e o refluxo.4

Os resultados de um estudo realizado em Taiwan em 2009 mostraram que o tratamento precoce pode beneficiar lactentes com doença de Pompe e destacaram as vantagens do diagnóstico precoce, que pode ser alcançado por meio da triagem neonatal. Todos os pacientes tratados estavam vivos e com independência motora e nenhum necessitava de ventilação.5 Quando esse estudo foi publicado, a terapia de reposição enzimática (TRE) tinha um propósito muito bem estabelecido, mas, como a doença de Pompe é progressiva e muito agressiva, é natural que novos medicamentos continuem sendo investigados.

Nesse sentido, o grupo de Taiwan começa a estudar e documentar a história natural de seus pacientes, utilizando ressonância magnética para avaliar a evolução da miopatia, investigando também a linguagem dos pacientes, pois, como se sabe, a surdez tem sido cada vez mais documentada devido à disfunção neurossensorial do ouvido médio, bem como a ocorrência de voz anasalada das crianças, o que mostra claramente a incompetência da musculatura bulbar. Na doença de Pompe infantil, também são observadas alterações de substância branca, portanto as competências acadêmicas e cognitivas são prejudicadas. As crianças com doença de Pompe precisam de ajuda escolar, não apenas em virtude de sua mobilidade e questões respiratórias, mas principalmente devido à capacidade de cognição e à capacidade acadêmica.6-9

Voltando à questão da expectativa da evolução da doença de Pompe, na maior coorte já publicada com 113 pacientes com doença de Pompe, 87 infantil e 26 tardios com menos de 18 anos de idade, foram documentados todos os sinais e sintomas que a história natural da doença mostrou, como, por exemplo, que 73% dos pacientes necessitaram de gastrostomia.10 Um estudo recentemente realizado no Brasil mostrou a evolução de 10 pacientes com doença de Pompe infantil, tratados com TRE. Dos 10 pacientes, três faleceram, um estava hospitalizado, três em home care, apenas um em ambulatório, oito com gastrostomia e a maioria em ventilação mecânica.11

E como avaliar os benefícios da TRE? Não existe um parâmetro-padrão para isso. Podem ser realizadas avaliações musculares, como flexão ou contração, avaliações por imagens e por biomarcadores, como a quantificação de tetraglicosídeo.12 Para avaliar o efeito da TRE em adultos com doença de Pompe, um trabalho propôs uma série de escalas clínicas, como força muscular, dinamometria manual, função muscular (teste da caminhada 6MWT e avaliação motora simplificada), escalas de Pompe para as atividades da vida diária (como o parâmetro Rasch-Built) e função pulmonar (capacidade vital forçada sentado e capacidade vital forçada supino).13
 
Em 2017, uma revisão sistemática e metanálise de protocolos clínicos e diretrizes de tratamento da doença de Pompe mostrou melhora da capacidade vital forçada e do teste de caminhada dos pacientes tratados com TRE.14 Em estudo mais recente, com 396 pacientes, a TRE mostrou estabilizar a função respiratória dos pacientes com doença de Pompe.15
 

Os resultados de um estudo realizado em Taiwan em 2009 mostraram que o tratamento precoce pode beneficiar lactentes com doença de Pompe e destacaram as vantagens do diagnóstico precoce, que pode ser alcançado por meio da triagem neonatal.


A disfunção e a insuficiência dos músculos respiratórios são fatores significativos de morbidade e de mortalidade na doença de Pompe, e a TRE mostrou estabilizar a função respiratória e melhorar os desfechos respiratórios em pacientes com doença de Pompe, o que foi evidenciado por melhores resultados nos testes de capacidade vital forçada e teste de caminhada.14,15


Confira o vídeo completo do Dr. Juan C. Llerena Junior