Todos os anos, as epidemias de influenza determinam maior impacto entre idosos e crianças menores de cinco anos. Estas, possuem resposta imune adaptativa ainda em desenvolvimento e dependem da resposta imune inata menos específica, o que contribui para a sua vulnerabilidade à infecção. Além disso, crianças nesta faixa etária apresentam as mais elevadas taxas de infecção por influenza e são as principais transmissoras do vírus para seus contatos na família e na escola. Nos Estados Unidos, o número de óbitos a cada ano em crianças previamente saudáveis é quase igual ao número de óbitos em crianças com condições crônicas, como asma e prematuridade.1,2 Esta observação epidemiológica está provavelmente relacionada às mudanças na resposta imune e inata que são adquiridas progressivamente com a idade. Consequentemente, a infecção por influenza se manifesta por dificuldade de eliminação viral, inflamação excessiva, aumento da susceptibilidade à infecção secundária, ou à combinação de todos estes fatores.2

A influenza resulta em 374.000 hospitalizações em menores de um ano e aproximadamente um milhão em menores de cinco anos de idade. Por outro lado, os pesquisadores concluíram que o número de hospitalizações por influenza em menores de cinco anos foi três vezes maior nos países com recursos limitados do que nos países industrializados.3

Influenza B é uma importante causa de morbimortalidade durante os períodos interpandêmicos e sua prevenção representa uma prioridade de saúde pública globalmente. Este vírus se dividiu em duas linhagens filogenéticas antigenicamente distintas: B/Victoria e B/Yamagata no início dos anos 1980, com cocirculação global no início do século 21.4

Sabe-se que a influenza B determina em média um quarto do total das infecções por influenza a cada estação epidêmica. Sua predominância durante o período sazonal é imprevisível e pode chegar até a 30% das cepas circulantes. Embora possa causar infecções em todas as faixas etárias, o vírus B determina uma carga de doença maior em crianças quando comparada à carga de influenza A. Os sinais e sintomas da influenza A e B são clinicamente indistinguíveis, entretanto, a influenza B parece estar mais associada à presença de miosite e de quadros neurológicos.5,6 (tabela 1)
No Brasil, a circulação de cepa B tem distribuição heterogênea, com expressão significativa no período sazonal de influenza A (abril a setembro), mas também com evidência nos meses de janeiro a março e outubro a dezembro. 
Distribuição sazonal de cepa B no Brasil – 2019.7

Em 2019, dos 5423 casos de SRAG, 756 (13,9%) foram causados por influenza B e destes, 42,3% foram na faixa etária de 0 a 5 anos de idade, resultando em desfechos de hospitalização e necessidade de UIT significativos.7 Estes dados são corroborados por uma publicação prévia na população pediátrica do Canadá na qual, durante 8 estações não pandêmicas influenza B somou 15,5% das 58,3% internações devido à influenza por estação, sendo significativamente maior nas estações de não-concordância vacinal, que nas de concordância, também evidenciou-se que a proporção de óbitos atribuídos a influenza foi significativamente maior por influenza B que por A concluindo que a morbidade entre influenza A e B foi semelhante mas a taxa de mortalidade foi maior nos pacientes pediátricos infectados por cepa B.8 
Características de evolução clínica de pacientes com COVID-19 e Influenza.9

Com a circulação de um novo vírus respiratório com potencial pandêmico, SARS-CoV-2, uma comparação imediata com influenza pandêmica foi feita, devido as características semelhantes entre os 2 vírus: facilidade de transmissão pessoa a pessoa por via respiratória. A doença causada pelos 2 também apresenta semelhanças na apresentação clínica. Por isso uma população pediátrica do Hospital Nacional de Washington diagnosticada com COVID-19 e Influenza foi comparada. No geral, pacientes com COVID-19 ou influenza sazonal não apresentaram diferença estatística nas taxas de hospitalização, admissão em UTI e uso de ventilação mecânica. Os pacientes hospitalizados com COVID tenderam a ser mais velhos que os hospitalizados devido à influenza. Outro ponto destacado foi que a taxa de detecção de influenza diminuiu em 22%, o que provavelmente está correlacionado à interrupção das aulas.9 Reconhecendo que a próxima estação de influenza no hemisfério norte poderá acontecer com a cocirculação de COVID, as autoridades em saúde têm recomendado atenção à vacinação contra influenza.9,10

A vacina contra a influenza é a forma mais eficiente de prevenir a doença e suas consequências.11 Recentemente, com base no contexto epidemiológico da influenza no Brasil durante o período de 2011-2017, um modelo dinâmico para avaliar a substituição de TIV para QIV para proteger crianças de 6 meses a 5 anos foi avaliado, identificando que para essa população pode haver um forte impacto na saúde pública, sendo uma estratégia custo-efetiva do ponto de vista do pagador público e de uma perspectiva social.12