As alterações lipídicas são o principal fator de risco de desenvolvimento de doença coronariana.1 Por outro lado, a redução de LDL-colesterol (LDL-c) está associada à redução do risco, e as estatinas permanecem como peça central no tratamento das dislipidemias e na terapêutica de redução do risco cardiovascular.2-5

Há consenso de que a meta lipídica deva ser individualizada conforme o risco cardiovascular, e aqueles de mais alto risco irão se beneficiar de redução lipídica mais agressiva, em geral obtida com uma estatina potente.

A rosuvastatina é a estatina mais potente disponível no mercado; dados do estudo STELLAR suportam essa informação.6 Nesse estudo, o efeito hipolipemiante de quatro diferentes estatinas (pravastatina, sinvastatina, atorvastatina e rosuvastatina), em suas diversas doses, foi avaliado em um estudo aberto que envolveu 2.431 indivíduos dislipidêmicos.6

Mesmo com o uso de estatina potente na maior dose tolerável, muitos pacientes permanecerão fora das metas lipídicas preconizadas. Nesse caso, a associação com ezetimiba, droga que reduz a absorção intestinal de colesterol atuando sinergicamente com a estatina, torna-se a primeira escolha para o atingimento de metas.7

O estudo IMPROVE-IT,7 realizado com pacientes pós-síndrome coronariana aguda, demonstrou que essa redução adicional de LDL-c obtida, em comparação ao uso isolado de estatina, se traduz em diminuição de desfechos cardiovasculares.7

Neste fascículo, trazemos o resumo de um estudo que fornece informações relevantes na prática clínica. O estudo aborda a evidência de que a redução lipídica mais agressiva obtida com a associação de rosuvastatina com ezetimiba pode reduzir a carga aterosclerótica, avaliada por ultrassom intracoronariano.

EFEITOS DA COMBINAÇÃO DE EZETIMIBA E ROSUVASTATINA NA PLACA DA ARTÉRIA CORONÁRIA EM PACIENTES COM DOENÇA ARTERIAL CORONARIANA

OBJETIVO

Avaliar o impacto do tratamento com a rosuvastatina associada à ezetimiba em comparação à rosuvastatina isolada no perfil lipídico e inflamatório, nos eventos cardiovasculares e na anatomia da placa aterosclerótica em portadores de doença arterial coronariana.8

MÉTODO

O estudo foi realizado com 106 pacientes portadores de doença coronariana aterosclerótica e hiperlipidemia.8 Os pacientes foram randomizados aleatoriamente para um dos dois grupos:8 

1) 55 pacientes que receberam ezetimiba 10 mg uma vez por noite mais rosuvastatina 10 mg uma vez por noite;

2) 51 pacientes que receberam rosuvastatina 10 mg isolada uma vez por noite.

O desfecho primário do estudo foi a ocorrência de novo ou recorrente quadro de infarto do miocárdio, angina instável, morte de origem cardíaca ou acidente vascular cerebral.8

Foram também analisados perfil lipídico, proteína C reativa de alta sensibilidade (PCRas), interleucina-6 (IL-6) e matriz da metaloproteinase-9 (MMP-9) antes do tratamento e 1, 6 e 12 meses após o tratamento.8 O tamanho da placa aterosclerótica coronariana e suas alterações composicionais foram determinados por ultrassonografia intravascular.8

RESULTADOS


A associação de ezetimiba e rosuvastatina diminuiu de forma significativa o colesterol total, o LDL-c, os níveis de PCRas, a IL-6 e a MMP-9 aos 6 e 12 meses após o início do tratamento em comparação ao grupo de rosuvastatina isolada.8

A carga aterosclerótica da placa, a área da seção transversal da placa e o percentual de composição necrótica da placa aos 12 meses de tratamento foram significativamente menores no grupo da combinação do que no grupo de rosuvastatina isolada (p<0,05).8

Em comparação com o grupo de rosuvastatina isolada, o desfecho primário diminuiu significativamente no grupo da combinação de rosuvastatina e ezetimiba (houve um paciente com infarto do miocárdio e cinco com sintomas de angina instável no grupo de rosuvastatina; no grupo da combinação não ocorreu infarto do miocárdio, e apenas dois pacientes apresentaram sintomas de angina do peito instável [p<0,05]).8

CONCLUSÃO

Os autores concluíram que a combinação de ezetimiba e rosuvastatina melhora significativamente o perfil lipídico, diminui a carga aterosclerótica da placa e melhora a estabilidade da placa, o que pode estar associado aos potentes efeitos inibitórios da ezetimiba e da rosuvastatina nas citocinas inflamatórias.8

COMENTÁRIOS FINAIS


A agressiva redução lipídica é o pilar da redução do risco cardiovascular.9 A Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 201710 estabeleceu novas metas lipídicas, ainda mais agressivas, o que está em acordo com outras diretrizes internacionais que propõem o tratamento agressivo dos pacientes de mais alto risco cardiovascular.11-13

Embora a total intolerância à estatina seja rara, os sintomas musculares podem ser um limitante na titulação.14