Os médicos são expostos a altos níveis de estresse no curso de sua profissão e são particularmente suscetíveis a sofrer transtornos mentais, como depressão e burnout.1,2 

A depressão tem sido tradicionalmente atribuída a uma combinação de fatores pessoais e relacionados ao trabalho, enquanto o burnout foi conceitualizado como um fenômeno de estresse relacionado ao trabalho.
As três características do burnout são exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal, e estas parecem ser mais prevalentes entre os profissionais de saúde.3 Além disso, o burnout parece estar associado ao aumento da probabilidade de ideação suicida, sendo a morte por suicídio um grande risco ocupacional para os médicos, que pode começar durante a faculdade.4,5
Um estudo de coorte prospectivo realizado com 2.865 médicos estagiários observou que houve sobreposição substancial entre os fatores associados aos sintomas depressivos e os fatores associados a exaustão emocional e despersonalização, e mostrou que os fatores pessoais tinham grande impacto nesse resultado.1

Os esforços para combater o burnout se concentram predominantemente na alteração do relacionamento dos médicos com seu ambiente de trabalho e esse estudo demonstrou que os fatores individuais desempenham um papel igualmente significativo na determinação do burnout, assim como na depressão, e sugerem que estratégias de prevenção e tratamento no nível individual devam ser exploradas.1

O burnout tem implicações de longo alcance para os médicos, pacientes e sistema de saúde. Os estudos relatam que os médicos que sofrem burnout correm maior risco de tomar más decisões, exibir atitude hostil em relação aos pacientes, cometer mais erros médicos e ter relações difíceis com colegas de trabalho.2

Com relação aos estressores relacionados ao trabalho, podem ser citados carga horária excessiva, más condições de trabalho, tarefas estressantes de plantão, processos e registros médicos, decisões complexas relacionadas ao paciente, ambiente de trabalho hostil, fatores organizacionais e interações sociais ruins.3 O esgotamento pode levar a consequências adversas, como depressão, uso de substâncias como álcool e drogas, e ideação suicida em médicos e residentes.3

Com a pandemia da COVID-19, houve um aumento de estresse e exaustão dos profissionais de saúde. Um dos principais desafios da pandemia da COVID-19 é cuidar de pacientes infectados, o que determina um sério risco para os trabalhadores de unidades de terapia intensiva devido à necessidade de contato constante com pacientes infectados por longos períodos de tempo, aumentando a pressão mental e social, bem como o sentimento de medo e ansiedade. Além disso, foi demonstrado que os profissionais de saúde tendem a continuar sofrendo os sintomas de esgotamento no trabalho, pressão mental, ansiedade e depressão, mesmo com a redução do surto.6

Pensa-se que vários aspectos positivos do ambiente de trabalho diminuem os níveis de estresse para os funcionários. Os atributos de um ambiente de trabalho positivo incluem a funcionalidade organizacional (por exemplo, sistemas de comunicação interna capazes de fornecer as informações corretas às pessoas certas, na hora certa); satisfação individual (por exemplo, se os profissionais se sentem apoiados pela gerência e se sentem apreciados pelos pacientes), equilíbrio entre família e trabalho, oportunidades de desenvolvimento profissional e liderança competente.2

Treinamento profissional abrangente, como terapia cognitivo-comportamental, atividades de redução do estresse, como atividades em grupo, e limitações de horas de trabalho recomendadas pela ACGME (do inglês, Accreditation Council for Graduate Medical Education) também são importantes fatores para redução do estresse no ambiente de trabalho.3 
Programas profissionais de treinamento e redução de estresse, que demonstraram ser eficazes em empresas, poderiam ser implementados no setor de saúde, como a cooperação entre os membros da equipe, que leva a menor carga individual na execução de tarefas, e a implementação de protocolos hospitalares para a divisão de tarefas no trabalho e funções estruturadas.3

A construção de resiliência é frequentemente sugerida como uma estratégia preventiva contra o desgaste entre os médicos.2 

O conceito de “resiliência médica” está surgindo em resposta à crescente evidência de estresse médico.
Após uma extensa revisão da literatura sobre o estresse do médico e pesquisas sobre resiliência, um estudo que explorou as dimensões da resiliência do médico por meio de entrevistas identificou quatro aspectos principais, mostrando que a resiliência é um processo dinâmico e em evolução de atitudes positivas e estratégias eficazes:7 

1. Atitudes e perspectivas, que incluem valorizar o papel do médico, manter o interesse, desenvolver a autoconsciência e aceitar limitações pessoais.7
2. Equilíbrio e priorização, que incluem estabelecer limites, adotar abordagens eficazes para o desenvolvimento profissional contínuo e honrar a si mesmo.7
3. Praticar o estilo de gestão, que inclui uma boa gestão de negócios, ter boa equipe e usar práticas eficazes.7
4. Relações de apoio, que incluem relacionamentos pessoais positivos, relacionamentos profissionais eficazes e boa comunicação.