A.S.D., paciente de 45 anos de idade, advogada, separada há 11 anos, dois filhos (de 12 e 16 anos), “sem vontade para nada”, há mais de três meses “nem consigo me concentrar no trabalho”. Católica praticante, os pais moram no interior, veio para São Paulo para fazer faculdade, conheceu o ex-marido durante o curso, e se separaram quando descobriu uma traição dele com uma estagiária do escritório que haviam montado. Mal se falam desde então. “Nem a pensão ele paga direito, já que fui mais bem-sucedida profissionalmente e consigo me bancar.” 

“Não posso contar com ninguém para me ajudar.” Desde a separação passou a montar uma estrutura com funcionários para poder cuidar dos filhos: “Sempre fui muito forte”. Vem abusando de álcool todas as noites. 

Caçula de três irmãos, a paciente faz parte de uma família muito simples, mas com “muitos valores e dignidade”. Passou em universidade pública, sempre foi ótima aluna, conseguiu estágio no escritório de um “superprofessor” até montar o próprio. 

Veio procurar tratamento: “Não estou aguentando a pessoa em que me tornei, estou chata, aflita o tempo todo, com muitos sintomas físicos, tipo aperto no peito, taquicardia, acordo à noite com sensação de que estaria tendo uma crise cardíaca”. 

Inicialmente foi procurar seu ginecologista por achar que o que estava sentindo era a “chegada da menopausa”, já que teria “ondas de calor”, principalmente durante a noite. Ele introduziu um antidepressivo (AD) ISRS (escitalopram 10 mg/dia) após realizar todos os exames e “nada constatar”. Manteve a medicação por um mês, sem melhoras significativas. 

Depois desses 30 dias, veio nos procurar, após a dose de sua medicação ter sido alterada para 15 mg, porém só aumentaram os efeitos adversos, como mal-estar, sudorese noturna, boca seca, além de ela começar a ganhar peso. “Aí já era demais, sem vontade de nada, libido zero e ainda ganhando peso?!” 

Fiz a hipótese diagnóstica de depressão moderada com ansiedade.1

Passei a considerar várias opções na abordagem medicamentosa: 
a) Aumentar a dose do AD para 20 mg e introduzir uma medicação benzodiazepínica (BDZ) para controlar melhor a ansiedade. 
b) Trocar por outro AD ISRS. 
c) Trocar de classe, para um dual de ação mais incisiva por atuar em serotonina (5-HT) e norepinefrina (NE). 
d) Associar outro antidepressivo de classe diferente. 

Optei pela introdução de venlafaxina, 75 mg/dia, passando a 150 mg após seis dias,2 associada a alprazolam3 ao deitar-se. Essa opção levou em conta a ação em 5-HT e NE da venlafaxina, rápida, incisiva e de ação dual, sendo a associação com alprazolam muito interessante para controlar os quadros de ansiedade noturna que a paciente vinha apresentando.2,4 

A paciente não é hipertensa, condição que deve ser avaliada com cautela e devem ser tomadas precauções se for usar venlafaxina, está em uma idade que falaria a favor de já se encontrar na perimenopausa, com pequenas alterações vasomotoras que respondem bem à venlafaxina,5 que é aprovada para uso em depressão associada a sintomas de ansiedade2
Na evolução de seu acompanhamento, eu a encaminhei à psicoterapia, além de a uma nutricionista e uma personal trainer

Apresentou completa remissão do quadro após duas semanas de acompanhamento. 

Transcorridos três meses de tratamento, continuamos a manter a dosagem, já que a paciente diz ter-se adaptado muito bem, sem sintomas adversos nem colaterais, e não quer “correr o risco de voltar a não ficar bem”. Não tem usado álcool, nem mesmo em pequenas doses. 

No planejamento de seu tratamento, estamos prevendo a diminuição lenta da medicação quando se completarem seis meses de tratamento.4