O transtorno de ansiedade é uma situação frequente na prática clínica. Estudos epidemiológicos em populações americanas descreveram prevalência do transtorno de ansiedade generalizada (TAG) ao longo da vida entre 5,1% e 11,9%.1-3 Levantamentos epidemiológicos feitos na Europa encontraram prevalência em um ano de 1,7% a 3,4% e prevalência ao longo da vida entre 4,3% e 5,9%.4,5 

O TAG, na grande maioria das vezes, está associado a fatores de risco demográficos, clínicos e ambientais.6 Um estudo prospectivo com 1.711 adultos de 65 anos de idade ou mais, sem antecedentes de transtorno de ansiedade na avaliação inicial, em que, após seguimento de 12 anos, 8,4% apresentaram pelo menos um episódio de TAG, encontrou como fatores preditores: sexo feminino, baixa renda, recentes eventos adversos na vida, doença física crônica (respiratória, cardiovascular, metabólica ou cognitiva), transtorno mental crônico (depressão, fobia e antecedentes de TAG), perda ou separação dos pais, baixo suporte afetivo durante a infância e história de problemas mentais dos pais.

Embora a preocupação excessiva e persistente constitua característica fundamental do TAG, a maioria dos pacientes apresenta sintomas relacionados a hiperatividade autonômica (taquicardia, vasoconstrição, sudorese, aumento do peristaltismo, taquipneia, piloereção), a tensão muscular (dores, contraturas e tremores), a cinestesias (parestesias, calafrios e adormecimentos) e a fenômenos psíquicos, tais como tensão, nervosismo, mal-estar indefinido, apreensão, insegurança e dificuldade de concentração.8 Frequentemente tais pacientes procuram os profissionais de saúde com esses sintomas, que, após exames clínicos e subsidiários, provam ser clinicamente inexplicáveis, diminuindo a qualidade de vida e gerando altos custos de saúde.9

Vale ressaltar que o quadro de ansiedade é frequente em pacientes com doenças cardiovasculares (DCVs), dentre elas a doença arterial coronariana (DAC).10,11

Estudos relataram que, após uma síndrome coronariana aguda (SCA), de 20% a 30% dos pacientes apresentam níveis elevados de ansiedade.10,11 Embora o quadro de ansiedade após uma SCA possa ser transitório, na metade dos casos a ansiedade persiste por até um ano, o que sugere que, em muitos pacientes com DCV, a ansiedade é uma condição crônica.10,11 

A relação entre ansiedade e saúde cardiovascular é complexa.11 A ansiedade pode ser uma resposta normal e benéfica a uma situação estressante, como um evento cardíaco agudo, envolvendo mais o paciente no tratamento, com a prática regular de atividade física e maior adesão ao tratamento medicamentoso.11 No entanto, quando presente em excesso ou por longos períodos, a ansiedade é considerada prejudicial para a saúde psiquiátrica e geral.11 

A ansiedade também tem sido associada à incidência e, em alguns casos, à progressão da DCV. Nesse sentido, em uma metanálise de 2010 que incluiu 20 estudos com quase 250.000 pacientes, Roest et al.12 descobriram que a ansiedade, controlando-se outras variáveis médicas quando possível, levou ao aumento de 26% do risco de DAC.12 Outras patologias cardíacas também são acompanhadas de estados ansiosos.13 Uma metanálise de 38 estudos estimou que 32% dos pacientes com insuficiência cardíaca (IC) experimentam níveis elevados de ansiedade, e 13% deles preenchem os critérios de transtorno de ansiedade.13 

Os portadores de ansiedade são menos propensos a desenvolver um estilo de vida saudável.14 Assim, os indivíduos ansiosos geralmente têm hábitos alimentares de maior ingestão de colesterol e gordura saturada na dieta, elevada ingestão de energia total e estilo de vida sedentário,14  o que é consistente com a descoberta de que os pacientes com síndrome do pânico (SP) e TAG têm aumento de chances de dislipidemia, obesidade e diabetes.15,16 
Entre os cardiopatas, a ansiedade está associada a menor possibilidade de adesão a uma série de recomendações de redução de risco após infarto do miocárdio, inclusive cessação do vício de fumar, utilização de suporte social e redução do estresse, o que aumenta a probabilidade de morbidade e mortalidade cardiovasculares.17

Vários são os mecanismos propostos que correlacionam a ansiedade com a DCV. Dentre eles se destacam fatores comportamentais e fisiológicos.11 

A ansiedade pode favorecer hábitos menos saudáveis, como a ingestão de alimentos ricos em gordura, o sedentarismo, a baixa adesão ao tratamento medicamentoso e o tabagismo.11 Quanto aos fatores fisiológicos, a disfunção autonômica, a inflamação, a agregação plaquetária e a disfunção endotelial desempenham papel importante tanto no desenvolvimento quanto na progressão da DCV.11 (Figura 1)
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Conclui-se que os transtornos de ansiedade são frequentes na prática clínica diária e muitas vezes se expressam com sintomas cardíacos. Conclui-se ainda que só se faz o diagnóstico de ansiedade como etiologia após exame clínico e subsidiário, o que pode corroborar o desenvolvimento e a progressão da DCV.