Matthew Kayser 
Departamento de Psiquiatria e Neurociência
Instituto do Sono e Cronobiologia
Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia


Philip Gehrman
Departamento de Psiquiatria
Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia


Existe um entendimento crescente de que a variação genética durante períodos sensíveis do desenvolvimento cerebral tenha consequências a longo prazo na função cerebral, que variam desde dificuldades de aprendizado até distúrbios psiquiátricos complexos. O desenvolvimento do cérebro se estende por mais de duas décadas nos seres humanos, desde o embrião até a adolescência.1 (Figura 1)
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Novas descobertas forçaram extensas modificações nos conceitos tradicionais de sono. Desde a demonstração de que existem duas fases distintas do sono, percebemos que é necessário mais do que um simples paralelismo entre descanso e sono para elucidar o papel do sono em nossa biologia. Há uma hipótese de que o mecanismo do sono REM (do inglês, rapid eye movement) sirva como fonte endógena de estímulo, que seria particularmente crucial durante o período uterino e logo após o nascimento, antes que a estimulação exógena estivesse disponível para o sistema nervoso central.2 

O sono pode ajudar na maturação estrutural e diferenciação das principais áreas sensoriais e motoras do sistema nervoso central, preparando-as parcialmente para lidar com a enorme onda de estímulo proporcionada pelo ambiente pós-parto, além de contribuir para seu crescimento posterior, após o nascimento.2
A maioria dos animais dorme mais cedo durante o início da vida do que na idade adulta. Usando moscas drosófilas, descobriu-se que o aumento do sono em moscas jovens estava associado a um limiar de excitação elevado e resistência à privação de sono. O excesso de sono resulta da diminuição da inibição de uma região promotora do sono por um circuito dopaminérgico específico. A hiperativação experimental desse circuito em moscas jovens resulta em perda de sono e déficits duradouros nos comportamentos de adultos. Esses resultados demonstram que o sono promove o desenvolvimento normal do cérebro que dá origem a um comportamento adulto crítico para a propagação de espécies e sugere que regiões do cérebro em rápido crescimento são mais suscetíveis a perturbações do sono no início da vida.3

Os determinantes moleculares do sono ainda são desconhecidos. Por meio de uma triagem baseada em RNAi (ou RNA de interferência), foi identificado o gene PDM3, necessário para a maturação do sono em drosófilas. Estudos indicam que o PDM3 controla a ontogenia do sono. Ele coordena um programa de desenvolvimento de um circuito que prepara o cérebro para o sono e controla a rede dopaminérgica promotora de vigília. Esses estudos definem as pistas moleculares que governam o desenvolvimento comportamental e do circuito do sono e sugerem que os distúrbios do sono podem ter origem no desenvolvimento neurológico.4

As influências genéticas da insônia se sobrepõem substancialmente às da depressão e da ansiedade. O que não surpreende, dada a considerável sobreposição fenotípica desses distúrbios. Pouco se sabe sobre o papel dos fatores genéticos na fisiopatologia da insônia. Um estudo avaliou as contribuições de fatores genéticos e ambientais na explicação da variabilidade dos sintomas de insônia, em 1.412 pares de gêmeos com idades entre 8 e 16 anos, e observou que os sintomas de insônia foram prevalentes nessa amostra, com base nos relatórios dos pais (6,6%) e da juventude (19,5%). A herdabilidade geral dos sintomas de insônia foi modesta (30,7%), com a variação restante atribuída a efeitos ambientais. Não houve evidência de diferenças entre os sexos na prevalência de sintomas de insônia ou na contribuição de efeitos genéticos e ambientais. 
 
O estudo mostrou que os fatores genéticos desempenharam um papel modesto na etiologia dos sintomas de insônia.5

Vários aspectos do comportamento do sono, como o tempo, a duração e a qualidade, demonstraram serem hereditários. 

Para identificar variantes comuns que influenciam as características do sono, foi realizado um estudo de genoma de 6 fenótipos do sono em uma amostra de gêmeos australianos. Os investigadores testaram a associação de polimorfismos comuns em todo o genoma e identificaram várias associações genéticas, mais notavelmente, do gene CACNA1C, classificado como o mais significativo na análise de latência do sono.6

É importante destacar que fenótipos do sono, particularmente os sintomas de insônia, compartilham etiologia genética com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Foram encontradas correlações genéticas significativas entre sintomas de insônia e TEPT. Muitos pacientes com TEPT têm dificuldade em adormecer e, no geral, os problemas do sono têm um impacto no desenvolvimento e na gravidade dos sintomas de TEPT e na qualidade de vida desses pacientes.7,8