Dr. Douglas L. Noordy

Professor e Diretor do Departamento de Estilo de Vida em Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Stanford


A medicina do estilo de vida estuda os hábitos e práticas diárias que afetam tanto a prevenção quanto o tratamento de doenças metabólicas crônicas e psicológicas, geralmente em conjunto com terapia farmacêutica ou cirúrgica, para fornecer um complemento importante para a saúde geral.1

À medida que a interface entre saúde física e mental se torna mais amplamente reconhecida, o papel dos "fatores do estilo de vida" (ou seja, comportamentos de saúde, como atividade física, dieta e sono) na prevenção e no tratamento de transtornos psiquiátricos também está ganhando interesse crescente.2

Atividade física, boa alimentação e qualidade do sono são amplamente consideradas como aspectos fundamentais da saúde humana, tanto para o corpo quanto para a mente.2 

O papel da atividade física na psiquiatria é particularmente bem pesquisado, com várias metanálises recentes mostrando que a atividade física pode auxiliar na prevenção e no tratamento de múltiplos sintomas de doença mental.

A atividade física induz a transcrição de genes responsáveis por quase todos os aspectos da neuroplasticidade, importante para as funções cerebrais de neurogênese e neuroproteção.3 O fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF, do inglês brain-derived neurotrophic factor) é uma das neurotrofinas mais estudadas. Como resultado, existe um grande conjunto de evidências que associam o BDNF a manutenção neuronal, sobrevivência neuronal, plasticidade e regulação de neurotransmissores.4 

Pacientes com distúrbios psiquiátricos e neurodegenerativos geralmente apresentam concentrações reduzidas de BDNF no sangue e no cérebro. Uma hipótese atual sugere que esses níveis anormais de BDNF podem ocorrer devido ao estado inflamatório crônico do cérebro em certos distúrbios, uma vez que a neuroinflamação afeta vários caminhos de sinalização relacionados ao BDNF. A ativação das células da glia pode induzir um aumento nos níveis de citocinas pró e anti-inflamatórias e espécies reativas de oxigênio, o que pode levar à modulação da função neuronal e à neurotoxicidade observada em várias patologias cerebrais.

Muitas evidências mostraram a ação do exercício na melhora da função cognitiva.

A ação do exercício sobre a regulação epigenética da expressão gênica parece central na construção de uma "memória epigenética" para influenciar a função e o comportamento do cérebro a longo prazo.5 

Uma metanálise de 49 estudos prospectivos com 266.939 participantes observou que, comparadas com pessoas com baixos níveis de atividade física, aquelas com altos níveis apresentaram menor chance de desenvolver depressão. Além disso, a atividade física teve um efeito protetor contra o surgimento de depressão em jovens, em adultos e em idosos.6 

Em pacientes com transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), um estudo com 182 participantes mostrou que o exercício físico reduziu os sintomas do TEPT, principalmente com a prática de exercícios de maior intensidade.

Em pacientes com esquizofrenia, o exercício físico melhora a função cognitiva, como memória e raciocínio, além de estabilizar o volume hipocampal e aumentar a conectividade hipocampo-occipital, melhorando a memória verbal, a memória visual e a função social.8,9 

Assim como a atividade física, a dieta alimentar é um determinante essencial da saúde. O impacto potencial da nutrição na saúde mental também está ganhando crescente reconhecimento devido às metanálises em larga escala de estudos clínicos randomizados mostrando que tanto as intervenções na dieta quanto o uso de alguns suplementos nutricionais podem reduzir significativamente os sintomas de vários distúrbios psiquiátricos.
Embora os fatores determinantes da saúde mental sejam complexos, evidências crescentes indicam uma forte associação entre uma dieta pobre em nutrientes e a exacerbação de transtornos do humor, incluindo ansiedade e depressão, além de outras condições neuropsiquiátricas.10 

Estudos que investigam o eixo intestino-cérebro demonstram um papel crítico para a microbiota intestinal na regulação do desenvolvimento e comportamento do cérebro, e o sistema imunológico está emergindo como um importante regulador dessas interações.11 

Os microrganismos intestinais modulam a maturação e a função das células imunes residentes no tecido no sistema nervoso central e influenciam a ativação das células imunes periféricas, que regulam as respostas a neuroinflamação, lesão cerebral, autoimunidade e neurogênese. A microbiota intestinal e o sistema imunológico estão implicados na etiopatogenia ou manifestação de doenças neurológicas e psiquiátricas, como depressão e doença de Alzheimer.11

Da mesma forma, os distúrbios do sono também possuem associações bidirecionais com doenças mentais, ocorrendo tanto como fator causal quanto como consequência de problemas de saúde mental.2

As evidências científicas confirmam a eficácia de intervenções no estilo de vida. Um estilo de vida saudável deve ser considerado como prática complementar para o tratamento de distúrbios psiquiátricos.12