É comum que pacientes da terceira idade passem por alterações orgânicas em decorrência do envelhecimento, como, por exemplo, elevação da pressão arterial, diabetes, déficits visuais e auditivos, menor força muscular, diminuição da velocidade de execução das tarefas, dentre outros eventos esperados.1

MULTIMORBIDADE
Quando há coexistência de 2 ou mais condições crônicas de saúde, costuma-se dizer que o paciente apresenta multimorbidade, o que é muito frequente na população idosa.2 

A multimorbidade está associada a:2 
  • Aumento da complexidade do manejo terapêutico para profissionais de saúde;
  • Aumento da complexidade do manejo terapêutico para pacientes;
  • Piores desfechos de saúde;
  • Diminuição da qualidade de vida;
  • Diminuição da autoavaliação de saúde;
  • Diminuição da mobilidade e capacidade funcional;
  • Aumento das hospitalizações;
  • Aumento do uso de recursos de saúde;
  • Aumento de mortalidade;
  • Aumento de custos.
POLIFARMÁCIA
Como um ou mais medicamentos podem ser usados para tratar cada condição clínica, o uso de múltiplos medicamentos é comum na população idosa com multimorbidade. A prescrição de 5 ou mais medicamentos por dia é definida como polifarmácia.2

Em um estudo incluindo brasileiros com mais de 60 anos, foi observado que a polifarmácia está presente na vida de 18% dos indivíduos avaliados, sendo que os medicamentos mais utilizados foram anti-hipertensivos (em 63% das prescrições).3 
Em outro estudo com pacientes ambulatoriais idosos, foram relatadas em média cinco doenças crônicas por paciente e a utilização de aproximadamente 11 medicamentos por indivíduo. Além disso, foram observados em 81% dos casos:4
  • Prescrições consideradas inadequadas;
  • Adesão inadequada ao tratamento;
  • Uso de medicamentos com estreita margem de segurança.
Portanto, apesar de ser necessária na maioria das vezes, a polifarmácia está associada a resultados adversos, incluindo:2  
  • Mortalidade;
  • Incidentes envolvendo queda;
  • Reações adversas a medicamentos;
  • Maior tempo de permanência no hospital e readmissão ao hospital logo após a alta.
O risco de efeitos adversos e danos à saúde se eleva com o aumento do número de medicamentos utilizados. Esses danos podem ocorrer devido a uma série de fatores, incluindo as interações medicamentosas. Além disso, os pacientes idosos correm um risco ainda maior de efeitos adversos devido à diminuição da função renal e hepática, menor massa corporal magra, redução da audição, visão, cognição e mobilidade.2  

Embora em muitos casos o uso de múltiplos medicamentos ou polifarmácia possa ser clinicamente apropriado, é importante identificar os pacientes com polifarmácia inadequada, o que eleva o risco de eventos adversos e possíveis complicações clínicas. Assim, alguns estudos têm sugerido adotar o termo 'polifarmácia apropriada' para diferenciar da prescrição de 'muitos medicamentos’, que pode ter valor limitado para o paciente.2 

Figura 1. Ilustração resumindo o efeito da multimorbidade e consequente polifarmácia na terceira idade, com impacto em desfechos clínicos adversos e econômicos. A atenção farmacêutica tem importante papel contribuindo para a prevenção de desfechos adversos.2,5

O PAPEL DO FARMACÊUTICO NA ATENÇÃO À TERCEIRA IDADE E POLIFARMÁCIA
À medida que a população mundial envelhece, os sistemas de saúde enfrentam o aumento da prevalência de doenças crônicas e o uso de polifarmácia entre os idosos.5 E, dessa forma, encontrar o equilíbrio entre tratar as doenças intensivamente e evitar danos relacionados às medicações é um ponto crítico para os profissionais da saúde.6 

Nesse contexto, o papel do farmacêutico evoluiu das tarefas tradicionais de dispensação de medicamentos para o envolvimento ativo no atendimento direto ao paciente, assim como no atendimento colaborativo em equipes multidisciplinares.5 Dentro disso, o cuidado de pacientes idosos é uma missão especial para os farmacêuticos, com seu amplo treinamento em farmacoterapia e farmacocinética.5 
 
Além disso, já foi demonstrado que conforme o número de médicos prescritores aumenta, aumenta também o número de eventos adversos relacionados a medicamentos relatados por idosos. Assim, um especialista em medicamentos que entenda os planos terapêuticos e prescrições que são dadas pelos diferentes médicos pode ser importante no cuidado desses pacientes. Os farmacêuticos certamente podem desempenhar o papel deste especialista e podem promover sugestões de regimes terapêuticos mais seguros e eficazes para a crescente população de idosos.5