A constante queda na cobertura vacinal no Brasil nos últimos cinco anos1 tem preocupado especialistas, que temem o reaparecimento de doenças que até então estavam erradicadas ou controladas, entre elas o sarampo e a poliomielite. O sarampo, por exemplo, foi declarado eliminado do País e das Américas em 2016 pela Organização Panamericana de Saúde/Organização Mundial da Saúde (Opas/OMS)2, mas voltou a registrar surtos no Brasil em 20183, acendendo o sinal de alerta. O último registro de pólio no Brasil foi em 19894.

“A queda na cobertura vacinal já vinha acontecendo e se acirrou muito durante a pandemia do coronavírus. O principal exemplo é o sarampo, que tem uma elevada transmissibilidade e voltou a registrar surtos”, afirmou Helena Sato, médica pediatra e diretora técnica da Divisão de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo durante a transmissão do webinar Diálogos Estadão Think – Cobertura Vacinal e Gestão da Saúde, no dia 19 de outubro. Até setembro deste ano, foram registrados 7.939 casos e 7 mortes por sarampo, segundo dados do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde.5

Segundo Renato Kfouri, pediatra e presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), no ano passado o Brasil não atingiu a meta para nenhuma das vacinas indicadas para crianças até 1 ano de idade. De acordo com ele, o pano de fundo para justificar essa constante queda é a falta da percepção real dos riscos dessas doenças que deixaram de existir, provocando uma falsa sensação de segurança, principalmente entre os mais jovens.

Kfouri explica que além do sarampo e da pólio, ainda há o risco do ressurgimento de rubéola congênita, difteria, coqueluche, meningite, tétano, entre outras. “As vacinas revolucionaram as doenças infecciosas e derrubaram a mortalidade infantil. Essa nova geração de pais não conheceu essas doenças, então a percepção do risco desapareceu. Não acho que a população se recuse a vacinar seus filhos”, afirma o médico.

Segundo Guido Levi, infectologista e secretário da Sociedade Brasileira de Imunizações, o fato de as crianças estarem em casa por conta da pandemia até promove uma proteção, mas, assim que elas voltarem a circular e a frequentar às aulas, por exemplo, o risco de pegar uma dessas doenças aumenta. “O convívio com outras crianças vai voltar a acontecer, e se elas não estiverem adequadamente vacinadas isso pode se tornar um problema.”

No mês de outubro o Ministério da Saúde lançou a Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite e Multivacinação, com foco na atualização das cadernetas de crianças e adolescentes. O Dia D da campanha foi no sábado, dia 17 de outubro, e, apesar da convocação da população por meio da imprensa, o comparecimento ficou muito aquém do desejado no Estado de São Paulo, o mais populoso do País.6

Segundo levantamento preliminar da Secretaria de Estado da Saúde, apenas 268 mil crianças com até 5 anos foram se vacinar contra a pólio, o que corresponde a apenas 12,1% do público-alvo esperado, que é de 95% das crianças nessa faixa etária.7 “O nosso calendário é muito intenso, fizemos chamadas com divulgações na imprensa, mas ainda a adesão é baixa. É uma realidade que infelizmente temos observado”, afirma Sato. 
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Os riscos da falta de informação

O estudante Pedro Arthur Diniz, hoje com 17 anos, é um sobrevivente da meningite tipo C, mas convive com as sequelas da doença: é tetraplégico e depende de um marcapasso que foi colocado em seu diafragma para conseguir respirar. O menino, que virou símbolo nacional na luta contra a meningite C, adoeceu em 2004, quando tinha apenas 1 ano e meio de idade. À época, Pedro Arthur não tinha tomado a vacina porque ela ainda não estava disponível na rede pública de saúde, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Para Rodrigo Diniz, pai do adolescente, faltou informação para que a família se conscientizasse da importância da vacina.

“Nós fomos surpreendidos pela falta de informação. Naquela época [em 2004] não havia registro de surtos de meningite no País, e a vacina só estava disponível na rede particular. Como a caderneta de vacinação do Pedro estava em dia, o pediatra disse que não tinha necessidade de dar essa vacina”, conta Diniz.

Diante da tragédia familiar, Diniz juntou forças para criar o Instituto Pedro Arthur . “Queremos criar multiplicadores de informação. O Pedro tem hoje 17 anos, são anos de luta para conscientizar a população sobre a importância da vacinação. A vacina é o melhor remédio que temos hoje para nos proteger.”
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Luta contra a epidemia de desinformação e fake news

A disseminação de notícias falsas em torno das vacinas é uma das principais preocupações dos médicos envolvidos com o assunto, já que uma informação errada pode ter impacto direto na queda na adesão à vacinação. Uma pesquisa Ibope feita a pedido da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) em parceria com a Avaaz mostra que 13% das pessoas já deixaram de vacinar seus filhos em algum momento da vida (cerca de 21,24 milhões de brasileiros); 48% relataram usar as redes sociais e WhatsApp para se informar sobre vacinas; 67% acreditaram em pelo menos uma notícia falsa sobre vacina.8
 
Segundo Juarez Cunha, presidente da SBIm, esse movimento antivacina e a disseminação de notícias falsas ganharam força em 1998, quando o médico britânico Andrew Wakefield publicou um estudo em uma renomada revista científica internacional em que relacionava a vacina tríplice viral, que previne contra a caxumba, o sarampo e a rubéola, ao desenvolvimento de autismo nas crianças.
 
“Esse estudo foi despublicado, o médico teve o registro cassado, se mudou do Reino Unido para o Texas, mas ele continua sendo uma das principais vozes antivacina do mundo”, afirma. Ainda segundo Cunha, apesar de uma série de estudos demonstrarem que não há relação nenhuma entre a vacina tríplice viral e o autismo, a queda na cobertura vacinal começou a acontecer, inclusive na Europa e nos Estados Unidos.
 
Guido Levi, secretário da SBIm, diz que a sociedade convive até hoje com os reflexos e prejuízos causados por essa publicação. Ele destaca que neste ano em especial o Brasil está passando por uma situação semelhante em relação às possíveis vacinas contra o coronavírus. “Estamos vendo um número enorme de publicações absolutamente sem nenhum fundamento científico, trazendo descrédito em relação àquilo que nem está disponível ainda”, disse, reforçando que todos precisam ser difusores da informação correta, sejam profissionais de saúde ou não.
 
Combater as fakes news em torno das vacinas também é um dos objetivos do Instituto Pedro Arthur, que tem como objetivo difundir a importância da vacinação não apenas contra meningite, mas sim todas as doenças. “Não plante fake news. Isso mata. Dê a mão para o seu filho hoje e o leve para ser vacinado”, diz Rodrigo Diniz, pai do adolescente Pedro Arthur, de 17 anos, que teve meningite tipo C na infância e ficou tetraplégico.
 
O pediatra Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), também fala da preocupação com as notícias falsas. “A epidemia da desinformação é uma doença digitalmente transmissível, que mata mais do que as doenças causadas pelos agentes a que nós estamos acostumados. O grande desafio é o da comunicação.”
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