A fertilização in vitro (FIV) é um processo em que as células ovarianas são fertilizadas pelo espermatozoide fora do corpo. Atualmente, essa é a principal técnica utilizada em reprodução humana como tratamento para casais inférteis. A infertilidade afeta mais de 10% dos casais em todo o mundo.
Desde o nascimento, em 25 de julho de 1978, de Louise Joy Brown, o primeiro “bebê de proveta”,2 a FIV tem sido cada vez mais utilizada como alternativa para gerar filhos de casais inférteis. Atualmente, mais de 4 milhões de crianças nasceram por FIV.3,4
O tromboembolismo venoso (TEV) é uma complicação rara, mas potencialmente letal, em pacientes submetidas à FIV e ocorre em cerca de 0,1% a 2,5% de cada ciclo de fertilização.5-8
O risco de TEV anteparto pós-FIV dobra (OR=2,18; IC de 95%: 1,63-2,92) em comparação com o risco basal das outras gestantes. Isso se deve ao aumento de 5 a 10 vezes do risco de TEV no 1o trimestre de gestações pós-FIV, em parte em decorrência do risco muito alto de TEV na presença de síndrome de hiperestimulação ovariana (SHO), isto é, aumento de 100 vezes do risco de TEV, ou risco absoluto de 1,7%. O intervalo entre a transferência do embrião e o TEV é de 3 a 112 dias e o intervalo entre a transferência do embrião e a trombose arterial é de 3 a 28 dias.9
Além da SHO, outras intercorrências obstétricas relacionadas a maior risco de TEV têm mais incidência em pacientes submetidas à FIV, como gestação múltipla, prematuridade, óbito fetal, pré-eclampsia e hemorragia ante e pós-parto, entre outras. (Tabela 1)
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A SHO é uma complicação iatrogênica e potencialmente fatal da FIV que ocorre em 33% de todos os ciclos gerados por FIV, observando-se que de 3% a 8% dos ciclos bem-sucedidos apresentam SHO na forma moderada ou grave.21,22 A incidência de TEV após FIV ocorre em 0,1% dos ciclos sem SHO e em cerca de 0,8% a 2,5% com SHO.5-8
Entre os sintomas da forma leve, estão distensão abdominal, ovários maiores que 12 cm de diâmetro, náuseas, vômitos e diarreia, enquanto a forma moderada apresenta ascite e derrame pleural e a forma grave cursa com ganho abrupto de peso, dor abdominal severa e choque hipovolêmico.23

A administração de gonadotrofina coriônica humana (hCG) para induzir a ovulação após a estimulação ovariana, ou o aumento dos níveis de hCG endógeno em gestações concebidas, são causas envolvidas no desenvolvimento da SHO.23
Com a rápida elevação dos níveis de estradiol (E2), o hCG pode desencadear a SHO em mulheres predisponentes. Como consequência, há transposição de líquido para o terceiro espaço, causando hemoconcentração e disfunção de múltiplos órgãos. Ambos os mecanismos podem contribuir para agravar o estado de hipercoagulabilidade, com aumento do risco de TEV.22,24-26 (Figura 1)
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O TEV associado à FIV tem a propensão incomum de localizar-se nas extremidades superiores e no pescoço, em vez de ocorrer na perna esquerda, em gestações espontâneas.25,28 A razão para isso é desconhecida, mas uma possível explicação é que o aumento do fluido peritoneal – com propriedades inflamatórias – é drenado através do duto torácico para as veias subclávias.29 Outra hipótese é a compressão causada por cistos branquiais próximos às veias jugulares ou subclávias. Na SHO, esses cistos são preenchidos com excesso de fluido, com a consequente compressão venosa e estase.30
A FIV aumenta também o risco de trombose arterial, que ocorre em média no 10o dia pós-transferência do embrião, muito antes do TEV, que se manifesta em média entre o 40o e o 42o dia pós-transferência.25,31 As mulheres que engravidam por FIV têm 10 vezes maior risco de TEV no 1o trimestre, em comparação com aquelas que engravidam espontaneamente, enquanto as que apresentam SHO têm 100 vezes maior risco de TEV.22
Em mulheres com SHO severa, a tromboprofilaxia reduz 26 casos de TEV para cada mil mulheres tratadas [número necessário para tratar – NNT de 39 (dado um risco basal de TEV de 4%)], sem aumento significativo de sangramento.32  Para mulheres submetidas à reprodução assistida que desenvolvem a forma grave de SHO, sugere-se tromboprofilaxia com heparina de baixo peso molecular (HBPM) por 3 meses após a resolução da SHO (grau 2C).32 


O escore de redução do risco de TEV durante a gravidez e o puerpério, preconizado pelo Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG), de 2015, baseia-se em fatores de risco preexistentes (Tabela 2a) e fatores de risco obstétricos. (Tabela 2b)
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Esse escore preconiza também os fatores de risco transitórios. (Tabela 2c) Nesse escore são contempladas as intercorrências da gestante submetida à FIV, sendo um método efetivo para a redução da mortalidade materna quando utilizado para direcionar a tromboprofilaxia.33 (Tabela 3)
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