No Brasil, a vacinação rotineira de crianças com a obtenção de excelentes taxas de coberturas vacinais permitiu a erradicação da varíola, a eliminação da poliomielite, do sarampo, da rubéola, da síndrome da rubéola congênita e do tétano materno e neonatal; e também a redução substancial da incidência de casos, hospitalizações e óbitos relacionados a tantas outras infecções imunopreveníveis (difteria, meningite meningocócica e pneumocócica, entre outras).1

Essas conquistas contribuíram para o envelhecimento relativamente rápido de nossa população: a expectativa de vida ao nascer apresentou ganhos de cerca de 30 anos entre 1940 e 1998 como resultado, principalmente, da queda da mortalidade infantil.2 

No entanto, parece que o sucesso das imunizações contribuiu para a baixa das coberturas vacinais que temos assistido desde 2015 no país.3 Em 2019, segundo dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SIPNI), entre as crianças menores de 1 ano e aquelas com idade de 1 ano, nenhuma meta de cobertura vacinal (o mínimo desejado é de 95%) foi atingida, conforme mostrado na tabela 1.4
Sabemos que os motivos para essa baixa são multifatoriais, mas fica claro, na maioria (ou quase totalidade) das pesquisas que buscaram entender os fatores que contribuem para esse cenário, que a falta de informação (ou desinformação) tem papel fundamental para a não adesão de nossa população à vacinação

Levantamento da ONG Avaaz, em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), mostrou que 7 em cada 10 brasileiros acreditam em ao menos uma afirmação imprecisa sobre vacinas (a maioria sobre falta de segurança das vacinas). Segundo a pesquisa, a maioria de nossa população ainda acredita na importância e segurança das vacinas: 87% dizem que nunca deixaram de se vacinar ou de vacinar uma criança sob seus cuidados, enquanto 13% dos entrevistados afirmam ter deixado de se vacinar ou de vacinar uma criança sob seus cuidados. Isso pode parecer pequeno, mas representa aproximadamente 21.249.073 brasileiros com 16 anos ou mais.5 

Os resultados ainda mostram que a pouca circulação de informação confiável sobre vacinas está sendo parcialmente preenchida por conteúdo antivacinação e desinformação postados e compartilhados nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, o que resulta em dúvidas sobre a segurança das vacinas e consequente hesitação da população em se vacinar.5 Ver gráfico 1.
Os motivos elencados pelos entrevistados que responderam à pesquisa conduzida pelo IBOPE e que afirmaram ter deixado de vacinar (13% da amostra) estão apresentados no gráfico 2.5 
As baixas coberturas vacinais registradas no país são extremamente preocupantes. Infelizmente, já perdemos o status de eliminação do sarampo e vivemos o risco de retorno da poliomielite, entre outras doenças preveníveis por vacina.

Hoje, as atenções do Ministério da Saúde, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e de organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e as sociedades médicas, voltam-se não somente para a retomada dos resultados alcançados entre crianças, mas também para a ampliação dos benefícios da vacinação para outras faixas etárias, como para adolescentes, adultos e idosos. 

A VACINAÇÃO ALÉM DA INFÂNCIA

Em geral, a procura por cuidados médicos diminui após os 2 anos de idade e, principalmente, após o primeiro ano de vida. Isso se reflete em coberturas ainda mais baixas entre crianças de 1 a 5 anos e adolescentes. A manutenção da saúde da criança depende de seus responsáveis que, muitas vezes, não conhecem as recomendações ou não sabem da sua importância e não raramente deixam de procurar o atendimento médico de rotina e se limitam à busca das emergências. 

As vacinas HPV, hepatite B, tríplice viral (SCR), meningocócica ACWY, febre amarela e dupla do tipo adulto constituem o rol de recomendações rotineiras do PNI para o adolescente.6 Outras como hepatite A, varicela (catapora), influenza, pneumocócicas e meningocócica conjugada quadrivalente (ACWY), por meio dos Centros de Referência em Imunobiológicos (CRIE), estão disponíveis para os indivíduos em situações especiais de risco, como aqueles que vivem com diabetes, HIV, câncer, doenças pulmonares ou cardiovasculares crônicas, entre outras doenças crônicas.7 

A vacinação de adolescentes, além de importante para a sua saúde, colabora com a proteção de crianças e outras faixas etárias. É o caso, por exemplo, da vacinação contra a doença meningocócica (meningite): o adolescente é considerado grupo de risco para a doença e tem também importante papel na transmissão da bactéria (mesmo que não apresente sintomas) para outras faixas etárias.8
(Figura 1)
Se as coberturas vacinais entre crianças estão aquém do necessário, entre adolescentes o cenário ainda é pior, não apenas para a vacina HPV, mas inclusive para a vacina meningocócica C conjugada. Ver gráficos 3 e 4.
Fica claro que a imunização na adolescência enfrenta grandes desafios. E isso ocorre em todos os níveis: individual, familiar e social. Assim como existe dificuldade de adesão a tratamentos longos, esquemas vacinais compostos de várias doses podem facilitar o descumprimento do calendário vacinal, tornando um jovem saudável suscetível a uma doença imunoprevenível, assim como um potencial portador e disseminador de doenças.9

Embora a maioria dos adolescentes responda de maneira satisfatória à recomendação de vacinação, desde que devidamente informados e abordados de forma adequada, diferentes fatores influenciam negativamente nos resultados de cobertura vacinal nessa faixa etária, tais como comportamentais, sociais, de acesso, além da possibilidade de haver manifestações clínicas e psicológicas que podem atingir não apenas o jovem, mas também o grupo social a que pertence, no caso de vacinações em massa.

ESTRATÉGIAS PARA MELHORES COBERTURAS

A Educação é a maior aliada da saúde.

A percepção da importância do cuidado com a saúde, bem como a formação do hábito da prevenção são ampliados quando antecedidos por trabalho de conscientização realizado por educadores.10 Estudos e experiências nacionais e internacionais confirmam que a escola é um dos ambientes mais propícios para a disseminação de informações sobre saúde e a promoção de maior adesão às ações de prevenção de danos, dentre elas a vacinação.10 Ações extensionistas e educativas apresentam impacto positivo na ampliação da cobertura vacinal, ou seja, a educação para adolescentes é uma estratégia importante para melhoria das coberturas vacinais.11 

O sucesso de um programa escolar de vacinação envolve os educadores e os profissionais da saúde, em trabalho que abrange educação para a saúde, criação de ambientes e entornos saudáveis, projeto e entrega de serviços de saúde e alimentação.9 Para sua implementação, é fundamental o uso de uma linguagem acessível aos diferentes públicos e também tecnologias educacionais que chamem atenção da população, como vídeos, materiais impressos e outros dispositivos, que facilitem a comunicação e provoquem mudanças.12 As ações promotoras de saúde podem tornar os adolescentes empoderados e aptos a serem replicadores do saber adquirido.13

Além disso, é interessante determinar-se vacinação obrigatória para frequência escolar e melhor documentação da vacinação dos adolescentes.8

Outro problema são as fake news. Essas mensagens tornaram-se uma grande amea­ça política e pessoal em todo o mundo e, geralmente, as notícias esclarecedoras não são reverberadas da mesma forma que as fake news.5,14 Há uma prioridade desequilibrada entre notícias ruins e negativas, juntamente com a reverberação de mensagens passadas nas redes sociais como se fossem ‘atuais’, ajudando a manter um efeito negativo contínuo sobre a população, o que afeta a cobertura vacinal.14

Com a disponibilidade de novas vacinas e a necessidade da intensificação de estratégias para aumentar as coberturas para antigas vacinas recomendadas para crianças mais velhas e adolescentes (por exemplo, reforço da DTP, 2ª dose da tríplice viral; hepatite B para não vacinados na infância e febre amarela), há um crescente interesse em incluir as escolas na plataforma de imunização. 

Vacinar na escola é, sem dúvida, um facilitador para a adesão.

Vacinação, muito mais do que vacinar.

O PAPEL DO EDUCADOR E DA ESCOLA

O direito à vacinação está estabelecido no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Portanto, a vacinação de crianças e adolescentes é obrigatória (artigo 14 do ECA) e o Brasil dispõe de instrumentos legais para proteger as crianças, embora não haja previsão de infração penal ou administrativa específica para os pais que deixarem de vacinar os filhos.15

A criança e o adolescente são os adultos de amanhã; muitos serão pais/mães com responsabilidade direta sobre uma nova geração; e a maioria formará o contingente de seniores que, em algumas décadas, responderá pela maior parcela da população brasileira. 

Incluir conceitos sobre prevenção e abordar cuidados com a saúde com os alunos e suas famílias é essencial para formarmos pessoas mais conscientes sobre a importância da vacinação para a qualidade de vida. 

A escola parece o cenário ideal para a comunicação, educação, acesso de adolescentes à vacinação e à adesão aos esquemas vacinais.