Introdução 

Já está bem estabelecida a relação entre algumas doenças musculoesqueléticas, como osteoartrite (OA) e osteoporose (OP), e o envelhecimento.1,2 São patologias extremamente frequentes na população idosa e raras em indivíduos mais jovens.1,2 Entretanto, o aumento da longevidade das gerações mais recentes não pode, por si só, explicar o grande crescimento do número de pessoas com osteoartrite, já que a prevalência de osteoartrite dobrou desde a metade do século passado.3 

Alguns autores sugerem que existe uma incompatibilidade entre a atual prevalência e a gravidade da OA em relação ao que se via anteriormente.3,4 A doença existe há muito tempo em baixas frequências, mas desde meados do século 20 sua prevalência dobrou.3

Estudos recentes contradizem a visão de que o aumento da osteoartrite de joelho ocorreu simplesmente porque as pessoas vivem mais e são mais comumente obesas.4 Esses autores consideram que a OA seria mais comum hoje do que no passado porque os genes herdados de gerações anteriores são inadequada ou imperfeitamente adaptados às condições ambientais modernas, que geram níveis cada vez mais elevados de estresse, obesidade e inflamação metabólica crônica (metainflamação), favorecida pela inatividade física e por dietas pobres em fibras, com grandes quantidades de alimentos processados, que são ricos em açúcar e gorduras saturadas.4,5 

Nesse contexto, várias fontes de dados apoiam a teoria de que a disbiose, uma alteração adversa da composição e da função da microbiota intestinal, é causadora da síndrome metabólica e está associada à inflamação de baixo grau, que são componentes importantes do aparecimento de doenças musculoesqueléticas.5 Até que ponto a microbiota intestinal e suas alterações podem representar o elo perdido entre as mudanças metabólicas associadas às condições ambientais modernas e a patogênese e as manifestações de osteoartrite e osteoporose permanece, porém, obscuro.5 

Disbiose, o elo que faltava entre inflamação e doenças osteometabólicas 

A OA é uma condição que gera inflamação sistêmica de baixo grau.6 Essa inflamação contribui para o desenvolvimento da OA e também aumenta sua expressão sintomática, particularmente a dor e a perda de função.7 Alguns fatores importantes que contribuem para a inflamação crônica de baixo grau são a obesidade, a síndrome metabólica e uma dieta rica em gorduras saturadas; o papel da microbiota intestinal parece ser o elo que faltava entre essas condições e a OA.

A diversidade e a funcionalidade das bactérias da microbiota intestinal são fortemente moduladas pela dieta do hospedeiro.5 A elevação pós-prandial de lipopolissacarídeos na circulação é aumentada pela disbiose induzida por uma dieta rica em gorduras.5 Em modelos animais, a obesidade induzida pela dieta resulta em um perfil inflamatório que promove o desenvolvimento da OA metabólica.5 Um estudo recente mostrou que uma dieta rica em gorduras e açúcares levou ao desenvolvimento de lesões articulares do joelho de ratos que foram associadas a mudanças do perfil metabólico desses animais.8 Isso foi evitado com suplementação de prebióticos (fibras) e exercícios aeróbicos.9 Em seres humanos, os dados da coorte de Framingham e da Osteoarthritis Initiative mostraram que a ingestão de fibras alimentares estava inversamente associada ao risco de OA sintomática.9

Outra análise longitudinal que usou o banco de dados da Osteoarthritis Initiative mostrou que a maior adesão à dieta mediterrânea foi associada a risco significativamente menor de piora da dor na OA sintomática de joelho.10 Os autores apresentaram a hipótese de que essa observação pode ser mediada pelas propriedades anti-inflamatórias típicas de uma dieta mediterrânea, que é particularmente rica em alguns nutrientes que podem ter efeito protetor nos desfechos de OA, como as fibras.10 As dietas ricas em fibras contribuem para a atenuação da inflamação sistêmica por meio da indução de células T reguladoras e do controle da remodelagem óssea.5 Ácidos graxos de cadeia curta também estão envolvidos em um eixo intestino-cérebro que pode contribuir para a modulação da dor.

Qual é a influência do uso de medicamentos na microbiota? 

Já existe bastante evidência na literatura de que a microbiota intestinal é um determinante crítico do metabolismo e da biodisponibilidade dos medicamentos.5 Isso ocorre porque a microbiota intestinal desempenha papel importante no metabolismo da droga durante a circulação êntero-hepática, antes da absorção da droga ou por meio de várias reações enzimáticas microbianas no intestino.11 Além disso, alguns medicamentos são metabolizados pela microbiota intestinal em metabólitos específicos que não podem ser formados no fígado.5,11 E, mais importante ainda, metabolizar drogas através da microbiota intestinal antes da absorção pode alterar a biodisponibilidade sistêmica de certas drogas, ou seja, a composição específica das bactérias intestinais pode influenciar na absorção e na resposta aos medicamentos utilizados na osteoartrite e também na osteoporose.5,11 

Os medicamentos usados na osteoartrite podem afetar positiva ou negativamente a microbiota intestinal.5 Os opioides, por exemplo, alteram negativamente a composição da microbiota intestinal e causam comprometimento da barreira intestinal, translocação bacteriana e inflamação sistêmica.12 Além disso, os usuários de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) geralmente tomam inibidores da bomba de prótons que induzem alterações da microbiota que podem resultar da remoção da barreira de baixo pH entre o trato gastrointestinal superior e inferior, também afetando negativamente a microbiota.5

Por outro lado, as drogas sintomáticas de ação lenta amplamente utilizadas na OA, como glucosamina e condroitina, têm absorção intestinal limitada e são predominantemente utilizadas pelas bactérias intestinais.5 Assim sendo, podem ter propriedades prebióticas e, portanto, exercer seus efeitos terapêuticos através das vias bacterianas intestinais.5