Se já era importante vacinar as crianças contra gripe antes da pandemia de COVID-19, agora isso ficou ainda mais relevante! Vamos conversar abaixo sobre o porquê disso.

A influenza (gripe) é sabidamente uma doença que pode cursar com um amplo leque de manifestações, variando de quadros bem leves a muito graves, sendo que nesse último caso, pode resultar em hospitalização e até morte. Alguns grupos, como crianças pequenas, idosos e pessoas com certas condições de saúde, correm maior risco de desenvolver essas complicações graves. Para esses grupos de risco, é especialmente importante ser vacinado, pois esta é a melhor maneira de se prevenir contra a gripe e suas complicações.1 Com a vacinação, há redução não apenas na chance de desenvolver a doença, mas também diminuição das consultas médicas, faltas ao trabalho e à escola, assim como nas hospitalizações e mortes relacionadas à gripe.2 

Com relação à COVID-19, apesar da maioria das crianças apresentar uma forma mais leve da doença, elas representam cerca de 10% dos casos e podem funcionar como agentes transmissores para outras pessoas. Além disso, algumas crianças e adolescentes podem apresentar formas bem graves da COVID-19.3,4

Porém, os estudos recentemente apresentados sobre a vacina contra COVID-19 e que permitiram a sua aprovação para uso na população não incluíram crianças e adolescentes. Desta forma, as aprovações da vacina não valem para essa faixa etária.3-5

Uma pergunta que já havia sido feita por alguns cientistas é se a vacina da gripe poderia favorecer alguma proteção contra a COVID-19. Essa suspeita foi feita com base em estudos que mostram que as vacinas são capazes de proteger os indivíduos contra o microorganismo específico para o qual foram desenvolvidas, mas também podem reduzir o risco de outras infecções. Possíveis explicações para esse efeito incluem a estimulação geral do sistema imunológico (o sistema de defesa do nosso organismo) e/ou por uma possível proteção cruzada, que seria a indução de uma resposta de defesa contra outros vírus ou bactérias que não compõem a vacina. Dessa forma, a vacina contra influenza poderia estimular uma resposta imune e, potencialmente, reduzir o risco e a gravidade da COVID-19.6
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2021/02/importancia-da-vacina-contra-gripe-em-criancas-em-tempos-de-COVID-19/Flu-06_Graf01-(1).ashx?w=692&hash=C36F66480213528D4D9D1B5A83DF2F76
Levando em conta essa teoria, alguns pesquisadores avaliaram se a vacinação contra influenza ou contra pneumonia (antipneumocócica) poderia diminuir a chance de infecção pelo novo coronavírus, comparando indivíduos vacinados e não vacinados.6

A vacina antipneumocócica diminuiu a chance de infecção pelo coronavírus em:6
  • 44% nos participantes com idade ≥ 65 anos.
  • 39% nos participantes com idade < 65 anos.
Já a vacina contra influenza diminuiu em 15% a chance de infecção pelo coronavírus nos indivíduos abaixo de 65 anos.6

Um outro estudo realizado aqui no Brasil, pelo Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP, avaliou mais de 50 mil pacientes hospitalizados com COVID-19 e observou que, entre os pacientes vacinados contra influenza, a mortalidade foi consistentemente mais baixa em todas as faixas etárias quando comparado com os não vacinados, como mostrado na figura abaixo.7
-/media/Sanofi/Conecta/Artigos/2021/02/importancia-da-vacina-contra-gripe-em-criancas-em-tempos-de-COVID-19/Flu-06_Graf02-(1).ashx?w=857&hash=784EA3F5B7CF2ED89DE12B7B6D259117
Figura 1. Mortalidade por COVID-19 por faixas etárias e estado de vacinação (vacinados e não vacinados). Foram incluídos 40.394 casos nesta análise. (Adaptado de Fink G, OrlovaFink N, Schindler T, et al. BMJ Evid Based Med.)7
Os pesquisadores deste mesmo estudo observaram que a vacinação contra influenza mesmo quando realizada no início dos sintomas da COVID-19 também estava associada a melhores resultados clínicos, ou seja, os pacientes vacinados precisaram de menos tratamento intensivo (nas unidades de terapia intensiva) e menos suporte respiratório (uso de aparelhos para auxiliar na respiração). Desta forma, os médicos e cientistas responsáveis pelo estudo sugeriram que a resposta imune induzida pela vacinação contra influenza possa resultar em:7
  • eliminação mais rápida e eficiente do novo coronavírus, impedindo sua propagação nos tecidos pulmonares, e/ou
  • melhor controle da resposta inflamatória dos pacientes com COVID-19 em estágios mais avançados da doença.
Assim, os autores sugerem que na ausência de um medicamento e de uma vacina contra a COVID-19, estimular a imunidade através de outras vacinas pode ser um caminho para obter-se melhores resultados em pacientes com COVID-19.7

Considerações finais

Além de uma possível proteção dada pela vacina da influenza contra a COVID-19, a promoção da vacinação contra influenza é ainda mais importante e relevante durante o cenário atual para reduzir a incidência de casos de gripe. A diminuição de infecções virais respiratórias durante a temporada de influenza ajudará a aliviar o sistema de saúde já sobrecarregado devido à pandemia da COVID-19, preservando a capacidade de atendimento aos pacientes com maior necessidade, além de reduzir a transmissão do novo coronavírus pela menor circulação de pessoas nas instituições de saúde.7,8
No Brasil, há uma campanha anual de vacinação contra a gripe para grupos elegíveis, incluindo idosos, crianças de 6 meses a 5 anos de idade e outros grupos de risco.9,10
  • No momento, as vacinas contra COVID-19 não são recomendadas para crianças e adolescentes.4
  • Porém, existem suposições de que a vacina contra influenza poderia estimular o sistema imune e, potencialmente, reduzir o risco e a gravidade da COVID-19.6
  • Um estudo brasileiro mostrou que a vacina contra influenza diminuiu a taxa de óbitos de pacientes hospitalizados com COVID-19 em 12% no grupo de 10 a 19 anos.7
  • Além disso, a vacinação contra influenza é importante para diminuir a incidência de gripe e, consequentemente, a sobrecarga no sistema de saúde.7,8