A avaliação do impacto de influenza pode ser realizada de diferentes formas. A taxa de ataque anual é de 5% - 10% em adultos e de 20% a 30% em crianças, resultando em um número significante de visitas a serviços de emergência e hospitalização 8

Na América Latina, em 35 países da região da PAHO, estima-se um número de 40.800 a 160.270 mortes anuais por influenza 9, 10. Um estudo incluindo países dos hemisférios norte, sul e região intertropical com alguns países da América Latina inclusive o Brasil, demonstrou que a média de casos por influenza B era de 22,6% e com maior predomínio da linhagem B Victoria (64%).1 Na América Latina, a análise isolada das cepas de 2004 a 2012 teve influenza B como responsável por 21% dos casos 11. No Brasil, uma proporção semelhante de casos de B foi identificada no período de 2004 a 2014, de 26,9%1.

No ano de 2020, considerando-se dados de hospitais sentinelas para vigilância epidemiológica, observou-se em São Paulo a circulação de cepa B no início da pandemia de COVID-19, inclusive com coinfecção com influenza, mesmo com a redução significativa na circulação dos vírus respiratórios12. Em geral, não há diferença clínica na gravidade entre as infecções por influenza A ou B13. Existem dados consistentes que associam influenza B com miocardite grave em pacientes jovens.14 Se compararmos as hospitalizações por cepa B, observa-se diferenças clínicas significativas quando ajustados para a idade, fator de risco e tratamento, porém sem diferença na proporção de óbitos por ambas as cepas15

Apesar de ocorre em todas as faixas etárias, crianças infectadas por influenza têm maior taxa de infecção por cepa B e maior risco de hospitalização. Relato do CDC no período de 2004 a 2011 demonstram cepa B como responsável por 34% (22% a 44%) dos óbitos relacionados à influenza na população de 0 a 18 anos29. No Brasil, a circulação de cepa B tem distribuição heterogênea, com expressão significativa no período sazonal de influenza A (abril a setembro), mas também com evidência nos meses de janeiro a março e outubro a dezembro (Figura 1). Em 2019, dos 5423 casos de SRAG, 756 (13,9%) foram causados por influenza B e destes, 42,3% foram na faixa etária de 0 a 5 anos de idade, resultando em desfechos de hospitalização e necessidade de UIT significativos16.

A vacina contra a gripe tem sua evolução desenhada de acordo com a identificação de diferentes cepas de influenza com impacto em saúde, a cocirculação de diferentes cepas e a identificação de novas linhagens virais,  desde 1933 como monovalente, e chegando a formulação QIV em 2013, devido a importância dos vírus influenza A (H1N1 e H3N2) e influenza B (B/Victoria e B/Yamagata)17. Como a influenza B é imprevisível, selecionar as cepas que serão recomendadas a cada temporada é uma tarefa complicada, especialmente se a vacina trivalente for utilizada. Em estudo realizado em 2010-2017, ao longo de 63 temporadas em 19 países da América Latina e Caribe, a linhagem da influenza B incluída na vacina não teve concordância em 32% das temporadas analisadas15. No Brasil, um estudo conduzido no período de 2010 a 2016, a concordância entre a cepa incluída na vacina e a circulante ocorreu em 50% das estações18

A efetividade da vacina contra a gripe em relação às cepas B relacionadas é alta. Em geral, há pouca ou nenhuma reatividade cruzada entre cepas B Yamagata e Victoria. Alguns artigos sugerem proteção cruzada entre diferentes cepas em torno de 20 a 25%. No entanto, ao comparar a eficácia relativa entre a cepa contida vs. a cepa não contida na vacina, verificou-se que a eficácia para a cepa contida pode ser tão alta quanto 67% a 70%19, 20. Há baixa proteção cruzada entre as cepas B e não é esperada boa proteção quando não há concordância entre as cepas circulantes e as cepas da vacina. Em contraste, observou-se boa eficácia da vacina quando a concordância é adequada.21 Mesmo em um estudo em que se assumiu 70% de proteção cruzada para a eficácia da vacina (VE), o modelo previu que uma vacina contra gripe quadrivalente evitaria 16% de casos de linhagem B a mais22.
Figura 1 - Distribuição sazonal de cepa B no Brasil – 201916.
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Recentemente no Brasil, um modelo dinâmico para avaliar a substituição de vacina trivalente para vacina quadrivalente para proteger crianças de 6 meses a 5 anos foi avaliado, demostrando que a substituição para a vacina contra gripe quadrivalente evitaria cerca de 406.600 casos de influenza B sintomáticos e de 400 mortes anuais. Quanto aos custos, as perdas de produtividade evitadas representam quase a metade do custo da vacinação. Ou seja, identificando que para essa população pode haver um forte impacto na saúde pública, sendo uma estratégia custo-efetiva do ponto de vista do pagador público e de uma perspectiva social7.

A vacina quadrivalente aumenta a eficácia relativa contra a linhagem B não incluída na formulação trivalente, reduzindo número de casos, hospitalizações e mortes por influenza, devido à cepa não incluída (29), o que pode modificar a percepção da eficácia das vacinas contra influenza e aumentar sua aceitação e adesão. 

As vacinas contra gripe quadrivalente são seguras, a adição de um antígeno não reduz a eficácia da resposta a outros, demonstraram sua superioridade imunogênica para a cepa B adicionada e mostraram sua eficácia clínica23-28.