Introdução 

Com a continuidade da pandemia da COVID-19, uma questão que se torna relevante é o impacto que essa doença terá durante a temporada de gripe.1

A COVID-19 e a influenza são infecções do trato respiratório que apresentam manifestações clínicas semelhantes, incluindo tosse, dispneia, dor de garganta, cefaleia e febre.2 Além disso, essas doenças também possuem alguns grupos de risco em comum, incluindo:3
● Condições crônicas (doenças cardíacas, hipertensão e doenças cardiovasculares);
● Condições pulmonares crônicas (asma ou DPOC);
● Diabetes;
● Obesidade;
● Doença renal crônica;
● Distúrbios neurológicos (acidente vascular cerebral);
● Algumas condições de imunossupressão (por exemplo, câncer);
● Pessoas mais velhas.

No caso da influenza, crianças menores de 59 meses também são incluídas no grupo de risco,3 além de poderem ser agentes transmissores da doença para outras pessoas.

Além disso, a infecção pelo vírus influenza isoladamente já apresentava grande número de complicações, internações e óbitos na população. Portanto, a questão do prognóstico de uma coinfecção entre COVID-19 e influenza merece atenção.1

Casos de coinfecção por SARS-CoV-2 e influenza

Um estudo realizado em um hospital em Wuhan, China, testou 307 pacientes com diagnóstico confirmado de COVID-19 para a presença de anticorpos IgM de vírus influenza, ou seja, para avaliar se esses pacientes podiam ter também uma infecção aguda pelo vírus influenza. Observou-se que 57,3% dos pacientes apresentavam coinfecção de ambas viroses (Figura 1).5

Embora todos os pacientes tenham recebido tratamento semelhante durante a hospitalização, aqueles que foram coinfectados com o vírus da influenza B apresentaram maior taxa de prognóstico ruim (30,4%) em comparação com pacientes positivos apenas para SARS-CoV-2 (7,6%) ou pacientes coinfectados com o vírus influenza A (5,9%) (Figura 1B).5
 
Figura 1. Coinfecção de SARS-CoV-2 e vírus influenza entre 307 pacientes em um hospital de Wuhan, China, durante o surto de COVID-19. (A) Número de casos e porcentagem de cada grupo. (B) Desfechos da doença (favoráveis ou desfavoráveis) para pacientes nos três grupos. Favorável significa doença leve ou recuperada; Desfavorável significa doença grave e casos de morte. A coinfecção de SARS-CoV-2 e influenza B levou a mais desfechos desfavoráveis. (Adaptado de Yue et al 2020 doi: 10.1002/jmv.26163s5)

No entanto, os casos de coinfecção por SARS-CoV-2 e influenza ainda foram pouco relatados na literatura. Medidas de controle da COVID‐19, como o distanciamento social, podem estar relacionadas a um declínio na carga global de gripe, explicando os baixos números de relatos.

Influenza em crianças 

As crianças estão entre os grupos de risco para complicações da influenza,3 visto que grande parte dos casos de síndrome respiratória aguda (SRAG) por influenza hospitalizados no Brasil ocorre na faixa etária entre 1 e 5 anos de idade. A distribuição dos casos de SRAG por faixa etária no Brasil está demonstrada abaixo na Figura 2.6
Figura 2. Distribuição dos casos de síndrome respiratória aguda por influenza hospitalizados no Brasil, segundo a faixa etária. (Adaptada de: Boletim Epidemiológico 43. Semana Epidemiológica 52, 2020.6)

Além disso, a influenza é a causa de grande parte das faltas escolares. Um estudo com mais de 1.000 crianças dos Estados Unidos mostrou que o vírus influenza foi responsável por:7
● 39% dos episódios de síndrome respiratória aguda.
● 47% dos dias perdidos na escola devido a atendimento médico.
● Crianças com infecção pelo vírus B mostraram-se mais propensas a relatar ausência prolongada do que crianças com infecção pelo vírus A. 

Influenza B em crianças

Em crianças menores de 16 anos, os sintomas mais associados à influenza B, em comparação com a influenza A (H1N1 e H3N2), foram:8
● Cefaleia;
● Dores abdominais;
● Mialgia.

Embora a influenza B frequentemente se desenvolva como um quadro clínico mais leve que a influenza A, dados recentes sugerem que a influenza B tem impacto significativo em todo o mundo:8
● A influenza B resultou em maior mortalidade entre crianças hospitalizadas do que a influenza A. 
● Crianças saudáveis (≥ 10 anos) apresentam risco aumentado de desenvolver doença grave causada por infecção de influenza B.

Vacina influenza quadrivalente (QIV)

Por muitos anos, as vacinas contra a gripe apresentaram proteção contra três cepas diferentes do vírus influenza (trivalentes). Nos últimos anos, para uma proteção mais ampla contra o vírus da gripe, foi adicionado outra cepa B do vírus. As novas vacinas quadrivalentes (QIV), licenciadas a partir de 2015, contém as seguintes cepas:9,10
● A/H1N1;
● A/H3N2;
● B (linhagem Yamagata);
● B (linhagem Victoria).

Um estudo realizado no Brasil avaliou os benefícios da mudança de vacina trivalente para quadrivalente na imunização de crianças entre 6 meses e 5 anos, cujos resultados demonstraram que esta troca traria benefícios significativos sociais e econômicos.11
Importância da vacinação contra influenza

A infecção por influenza em crianças apresenta:
Alta taxa de transmissão durante a estação de influenza.
Papel importante na transmissão familiar e de contatos próximos.
Sobrecarga aos sistemas de saúde por causa das complicações, que podem ser graves.

Dessa forma, a vacinação contra influenza continua sendo uma intervenção essencial para prevenir a doença e reduzir sua gravidade em grupos de alto risco, além da carga geral sobre a sociedade e os sistemas de saúde, já tão afetados pela pandemia de COVID-19.2-4