A imunização é reconhecida como uma das intervenções mais bem-sucedidas e custo-efetivas, resultando na erradicação e no controle de diversas doenças em todo o mundo.1

A vacinação de rotina consiste no estabelecimento de um calendário nacional de vacinações que deve ser aplicado a cada indivíduo a partir de seu nascimento, visando garantir, no âmbito individual, a prevenção específica das doenças imunopreveníveis e, no âmbito coletivo, a indução da imunidade de massa, responsável pela interrupção da transmissão. Para que o primeiro efeito se observe, basta que cada criança vacinada se torne uma criança imunizada; isto é, que a vacina seja aplicada em condições que preservem sua eficácia e que a criança reúna as condições de saúde para desenvolver a imunidade assim induzida. Já para a obtenção do segundo efeito, será necessário que, além das condições anteriormente mencionadas, a cobertura vacinal seja alta e homogênea; isto é, que pelo menos 95% ou mais dos suscetíveis desenvolvam imunidade.2 

O termo cobertura vacinal refere-se ao percentual da população que está vacinada. Quanto mais pessoas receberem determinada vacina, maior será a cobertura vacinal. A eliminação ou controle de qualquer doença imunoprevenível depende da obtenção desse índice de sucesso. Mas para a erradicação ou controle não basta apenas atingir altas coberturas vacinais, é preciso mantê-las até que o agente causador da doença esteja eliminado. Mesmo que em determinado momento ocorram apenas poucos casos de alguma doença graças à vacinação, se a população parar de se vacinar, cada vez mais pessoas ficarão desprotegidas e outras tantas serão infectadas, voltando a espalhar a doença, e assim, em pouco tempo, todo o progresso obtido ao longo dos anos estará perdido3

No Brasil, o Programa Nacional de Imunização (PNI) teve um aumento expressivo nas taxas de vacinação entre 1980 e 1995, ano a partir do qual as taxas ficaram estáveis em patamares elevados, e, em alguns casos, superiores a 100%. O recuo teve início em 2015, e, antes da pandemia, já pesavam fatores como horários de funcionamento das unidades de saúde, a circulação de informações falsas sobre a segurança das vacinas e até mesmo a impressão de que as doenças imunopreveníveis já deixaram de existir. Porém, de acordo com uma reportagem de 16 de outubro de 2020 da Agência Brasil, as coberturas vacinais no Brasil estão em queda há 5 anos, não atingindo nenhuma meta do calendário infantil desde 20184

A vacina de influenza é uma das 43 vacinas ofertadas aos grupos de risco pelo PNI desde 1999. Até 2017, a meta da cobertura vacinal estabelecida pelo Ministério da Saúde era de 80% e, a partir desse ano, passou a ser de 90%.5;6. E, a exemplo das demais vacinas avaliadas no Brasil, tem sofrido queda de cobertura vacinal desde 2017, não conseguindo ultrapassar a faixa de 80% (Tabela 1) e o ano de 2020 não foi diferente (Figura 1), considerando-se também o impacto do isolamento social devido à COVID-19 como um dos fatores responsáveis.

Tabela 1 - Cobertura vacinal das campanhas de vacinação contra influenza na população pediátrica dos últimos 6 anos
 
Fonte: sipni.datasus.gov.br – dados relativos ao ano de 2020 são preliminares, acessados em 13.10.2020.7

Figura 1 - Cobertura vacinal em Crianças na campanha de vacinação contra Influenza, por estado. Brasil, 2020
 
Fonte: sipni.datasus.gov.br – dados preliminares acessados em  15.10.2020, às 14h008

A influenza é uma doença grave e imprevisível e precisa ser prevenida a cada ano. O impacto da gripe pode ser evidenciado com 3 a 5 milhões de casos graves por ano e com um número de óbito expressivo variando de 290.000 a 650.000 mortes por ano no mundo11 e na população pediátrica a influenza resulta em 374.000 hospitalizações em menores de um ano e aproximadamente um milhão em menores de cinco anos de idade10

É importante ressaltar que quanto maior o número de crianças vacinadas menos o vírus circula, diminuindo a sua transmissão e o número de casos de gripe e complicações associadas. As coberturas vacinais têm desempenhado um papel importante para ajudar os países a monitorar o progresso dos programas de vacinação e a OMS ressalta que a vacinação é a melhor forma de prevenção contra a gripe11, 12 e 13.