O nascimento de um bebê prematuro vem cercado de dúvidas e preocupações dos pais. No Brasil, são mais de 300 mil nascimentos desse tipo por ano, segundo dados de 2018 do Ministério da Saúde1. No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) contabiliza em torno de 15 milhões2. Os fatores que provocam a prematuridade ainda não são totalmente conhecidos, mas a OMS aponta gestações múltiplas, infecções e condições crônicas como algumas das causas comuns3. Os cuidados com a saúde geral desses bebês costuma ser a maior preocupação dos pais, mas a prevenção de doenças infectocontagiosas também é essencial, e conta com cuidados específicos para os prematuros. É aí que entram as vacinas, ponto que não pode ser deixado de lado, já que esses bebês nascem com o sistema imunológico ainda imaturo4.

No dia 17 de novembro, Dia Mundial da Prematuridade, o Estadão realizou o evento online Diálogos Estadão Think – Vacinação e os Cuidados Especiais com Prematuros, com produção do Media Lab Estadão e patrocínio da Sanofi Pasteur, para conscientizar sobre o tema.

 “A primeira grande dúvida que surge para os pais é: meu filho vai viver?”, relata Denise Suguitani, que é nutricionista, fundadora e diretora-executiva da Associação Brasileira da Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros (ONG Prematuridade.com). “Depois dos primeiros dias é que eles começam a se perguntar se essa prematuridade trará consequência.” Em torno dessas preocupações, vem o medo de vacinar um bebê ainda tão pequeno, na UTI neonatal, ou mesmo após alguns meses tirá-lo de casa durante uma pandemia. Um estudo da Universidade de Washington, por exemplo, constatou que mais da metade dos bebês prematuros observados não haviam recebido os complementos dos imunizantes recomendados quando completaram 19 meses de idade5.
 
Durante a pandemia do novo coronavírus, a taxa de vacinação caiu em geral, e a OMS alerta que ao menos 80 milhões de crianças no mundo estão sob risco de contrair uma doença evitável por conta da queda na taxa de imunização. Por isso, deixar de vaciná-los é ainda mais perigoso6. “É importante a gente deixar claro que o prematuro precisa ainda mais da vacina, já que a transmissão de anticorpos da mãe para o bebê se faz principalmente no último trimestre da gestação”, afirmou Paulo Pachi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e responsável pelo Ambulatório de Seguimento de Prematuros da instituição. Bebês que não nascem a termo, portanto, não têm acesso a toda a proteção necessária que vem da mãe.4 

Entre as principais prevenções estão aquelas ligadas a infecções do sistema respiratório, explicou Ana Lúcia Goulart, médica pediatra, professora associada da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, coordenadora do Ambulatório de Prematuros da Disciplina de Pediatria Neonatal da instituição. “A gente vive um dilema com as famílias. Não dá para negar que o prematuro é um indivíduo com alto risco de internação e de óbito. E a principal causa é a doença pulmonar. É aí que a vacina tem papel fundamental.”

O acompanhamento pediátrico nesse momento é essencial para organizar o calendário de vacinação desses recém-nascidos. Em geral, ele segue a idade cronológica, mas há algumas especificidades para os prematuros, como na administração da vacina BCG — nesse caso, ela só é aplicada em bebês com mais de 2 quilos4. “É uma questão física, porque essa é uma vacina intradérmica, então existe restrição por conta do tipo e local de aplicação”, esclarece Ana Lúcia. Lilian Sadeck, doutora em Pediatria pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e membro da Diretoria da Sociedade Paulista de Pediatria (SPSP), também cita a vacina contra o rotavírus, aplicada apenas depois que o bebê sai da UTI neonatal. “O perigo não é para ele, maspara os outros recém-nascidos na UTI, que talvez não possam estar em contato com o vírus atenuado dessa vacina.”

Os imunizantes estão disponíveis nos hospitais, nas redes públicas e privadas, e os prematuros contam ainda com os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Cries) para vacinas especiais para esse grupo nos 27 Estados e no Distrito Federal. É essencial que os pais fiquem atentos às datas de aplicação e às doses para manter o calendário em dia.4,8
A importância dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais
 
Cries oferecem imunização especial, inclusive para prematuros, em todo o País8
 
Depois de compreender a importância da vacinação para o bebê nascido prematuramente, muitos pais ainda se veem com dúvidas, principalmente ao sair do hospital, em relação ao calendário específico para o prematuro, constata Denise Suguitani, que é nutricionista, fundadora e diretora-executiva da Associação Brasileira da Pais, Familiares, Amigos e Cuidadores de Bebês Prematuros (ONG Prematuridade.com). Familiarizar-se com a carteirinha de vacinação e esclarecer todas as dúvidas com o pediatra são as dicas de Denise para tranquilizar os pais.
 
Os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Cries) são um dos elos mais importantes no sistema de saúde para esses bebês. Criados em 1993 e hoje com 51 unidades no País7, eles são o local onde os pequenos são imunizados de acordo com suas necessidades especiais. Lá, há a disponibilização de vacinas que eles normalmente não encontrariam no serviço público.
 
Ana Paula Burian, pediatra e infectologista, coordenadora do Crie de Vitória (ES) e membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Regional Espírito Santo, explica a ideia dos Cries: “O objetivo é trazer equidade, ou seja, dar mais para quem precisa de mais”. Isso significa atender populações com quadros clínicos especiais — como prematuros, pessoas com contraindicação à utilização dos imunobiológicos disponíveis na rede pública, indivíduos imunocompetentes e imunodeprimidos, aqueles que apresentam outras condições de risco e outros grupos especiais. Sobre o dia a dia, a médica completa: “É muito legal quando a gente vê um bebê no Crie e percebe que todo o esforço na UTI deu frutos. Os bebês prematuros são muito guerreiros”.

Menos picadas para uma maior adesão 

Evitando idas ao posto médico e picadas nos recém-nascidos

 A cobertura imunológica dos recém-nascidos ainda deixa a desejar, mas a boa notícia é que há tecnologias disponíveis que otimizam o calendário, ajudando na sua adesão. Lilian Sadeck, doutora em Pediatria pela FMUSP e membro da diretoria da SPSP, explica que há vacinas combinadas, que permitem diminuir o número de injeções. Esse esquema é, inclusive, recomendado pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) para a vacinação rotineira.9
 
Ela lembra que os pais sentem, eles próprios, a dor de ver seu bebê sendo picado para receber a vacina, o que é compreensível, mas que não pode ser motivo para deixar de vacinar os pequenos. “Esse desconforto faz com que a gente acabe muitas vezes dividindo a aplicação das vacinas com alguns dias de distância, tentando aplicar o mínimo de picadas em cada ida. Só que aí vem um problema: o risco de eles não voltarem”, explica Lilian. Com a concentração em uma só aplicação, fica mais fácil garantir a cobertura.

Para se ter ideia, em 2019 foi a primeira vez em 20 anos que o Brasil não atingiu a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas para crianças com menos de um ano, segundo o Programa Nacional de Imunizações (PNI). E em 2020 os números parecem ser ainda mais baixos. Apesar de ainda não concluído, o levantamento deste ano aponta queda, provavelmente acentuada por conta da pandemia de covid-19.10

E não são só os pequenos que precisam ser vacinados. “Eu sempre oriento pais, tios, avós, babás que refaçam suas vacinas [com a chegada de um bebê prematuro]”, diz Ana Lúcia Goulart, médica pediatra, professora associada da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, coordenadora do Ambulatório de Prematuros da Disciplina de Pediatria Neonatal da instituição. “A defesa da vacinação tem que ser estimulada entre os pediatras, mas também entre os médicos que cuidam dos adultos e dos idosos no entorno.”