Tópico 1 – Imunologia

A Imunologia é a ciência que se dedica ao estudo do sistema imunitário: como é seu funcionamento fisiológico, em especial na defesa contra infecções, e suas ações regulatórias, como o reconhecimento do que é próprio do organismo e a sinalização de diferentes atribuições homeostáticas.1 O desempenho incompetente em alguma das funções desse sistema ocasionará doenças autoimunes, reações de hipersensibilidade, aumento da suscetibilidade às neoplasias, além de rejeição pós-enxerto.1 Conceitos básicos, como os de antígeno e anticorpo, são fundamentais para a construção do conhecimento e o entendimento de diversas doenças.1 Antígenos podem ser conceituados como qualquer substância que estimula resposta imunológica.1 O antígeno passa a ser chamado de alérgeno quando ocasiona uma reação alérgica.1 Anticorpos ou imunoglobulinas (Igs) são glicoproteínas cuja função primordial é neutralizar patógenos.1 Quatro tipos de Igs devem ser recordadas: a IgA, responsável pela imunidade de mucosas; a IgM, importante na resposta imediata ao antígeno; a IgE, associada às alergias; e a IgG, a imunoglobulina da memória imunológica e da tolerância ao antígeno.1

As doenças lisossômicas são erros inatos do metabolismo e se caracterizam pelo acúmulo de macromoléculas.2 A doença de Pompe caracteriza-se pelo acúmulo de glicogênio no lisossomo de diferentes células, particularmente as musculares, e apresenta duas evoluções distintas: a de início precoce (early-onset, com evolução grave desde os primeiros dias de vida e implicação cardiológica) e a de início tardio [late-onset (LOPD), com sintomas heterogêneos e início mais tardio geralmente após a primeira década de vida, com comprometimento muscular evolutivo e respiratório].3,4

A doença de Pompe pode apresentar dois tipos de status imunológico CRIM (de cross reactive immunological material): o positivo, com atividade residual da enzima alglucosidase alfa (GAA), e o negativo, com completa ausência de GAA endógena.3,5,6 O status CRIM tem especial relevância nos pacientes com início precoce, pois o conhecimento do status tem implicação direta no tratamento.6 Nos casos de pacientes com CRIM negativo em tratamento com a enzima recombinante alglucosidase alfa (rhGAA), existe a possibilidade de formação de anticorpos neutralizantes (IgG antienzima recombinante), o que prejudica de maneira drástica a eficácia do tratamento.6 A avaliação do CRIM é feita por meio da técnica western blot, não disponível em todos os países.3,5 Entretanto, é possível relacionar muitas das variantes do gene GAA com o status CRIM, o que contribui para o manejo do paciente.5,7

Dessa maneira, além do reconhecimento do status CRIM, a dosagem da IgG antienzima se faz necessária para avaliação da resposta ao tratamento.O paciente é o próprio controle.5 Títulos maiores que 12.000 representam a neutralização da enzima.5 (Figura 1) O protocolo de imunomodulação (indução de imunotolerância, ITI) é indicado nos casos de CRIM negativo ou nos pacientes com status CRIM positivo, mas com manifestações clínicas graves.(Figura 2)