Problemas cardiovasculares representam a principal causa de morte dos pacientes com doença de Fabry.1-3 Para a obtenção de maior benefício terapêutico, recomenda-se o início precoce da terapia de reposição enzimática (TRE), que pode levar à maior redução da massa ventricular esquerda quando utilizada em maior dose.4,5 Tão importante quanto o diagnóstico precoce da doença de Fabry é evitar o diagnóstico errôneo, prevenindo, assim, uma indicação inadequada de TRE.2

A doença de Fabry é uma condição genética rara, ligada ao cromossomo X, na qual ocorre o depósito lisossomal de glicoesfingolipídeos devido a mutações do gene GLA, que codifica a enzima a-galactosidase do tipo A.6,7 As manifestações cardíacas da doença de Fabry incluem hipertrofia ventricular esquerda (HVE), hipertrofia septal, arritmias e fibrose miocárdica, dentre outras.1,7 Além disso, a principal causa de morte dos pacientes com doença de Fabry é a cardiovascular.1

Desde o início da triagem de recém-nascidos e de populações de alto risco observa-se aumento do diagnóstico da doença de Fabry.2 Os estudos de triagem reportam a prevalência elevada de doença de Fabry em indivíduos com HVE, que chega a até 12%.2 No entanto, muitos desses pacientes apresentam uma mutação ou variante do gene GLA de significado incerto e, como fator complicador adicional do diagnóstico, eles não são portadores da forma clássica da doença.2,8 Apresentam sintomas restritos a um único órgão, como a própria HVE, comuns a outras doenças mais prevalentes.2

A dosagem da atividade enzimática e a genotipagem nem sempre definem o diagnóstico dos pacientes com fenótipo tardio.2 Nesses casos, o exame padrão-ouro do diagnóstico da doença de Fabry é a biópsia endomiocárdica para demonstrar, através da microscopia eletrônica, as características de inclusões lisossomais lamelares.2,3 Vale ressaltar que se deve descartar o uso de medicações que possam causar depósitos similares, como a amiodarona, a cloroquina e o tamoxifeno.2

Várias características da miocardiopatia de Fabry podem ser identificadas por meio de eletrocardiograma (ECG) e de exames de imagem.7 Nenhuma delas pode ser considerada como critério diagnóstico, devido à baixa especificidade (<90%).2 Dois achados foram identificados como critérios de exclusão: (i) a presença de voltagens anormalmente baixas (<1,5 mV) ao ECG e (ii) a presença de HVE grave em jovens (espessura média da parede >15 mm em pacientes com menos de 20 anos de idade).2 

Todavia, na maioria dos casos de fenótipo tardio ou de variante de significado incerto, a biópsia endomiocárdica pode ser requerida, pois é o padrão-ouro para o diagnóstico.2 Devido ao risco de eventos adversos sérios, cuja taxa reportada é de 0,12% a 2%, esse procedimento deve ser realizado somente por médicos com grande experiência e em pacientes sintomáticos após tentativas diagnósticas malsucedidas realizadas por outros métodos.2,3 O acometimento de outros órgãos-alvo, como rins e sistema cerebrovascular, além da presença de outros sinais e sintomas clássicos da doença de Fabry, como acroparestesias, sintomas gastrointestinais, intolerância ao calor, hipoidrose, angioqueratomas e córnea verticilata, pode contribuir para a conclusão do diagnóstico.

Há alguns achados de ECG, ecocardiograma e ressonância magnética nuclear (RMN) cardíaca que servem como sinal de alerta para levantar suspeita clínica sobre a doença de Fabry, conforme apresentado na Tabela 1 e Figura 1.2
 
Tabela 1 − Sinais de alerta de suspeita de doença de Fabry
Figura 1 − Fluxograma diagnóstico

Embora a sensibilidade diagnóstica do nível plasmático do liso-GB3 nos pacientes com doença de Fabry clássica possa ser considerada elevada, na opinião dos autores sua aplicabilidade no diagnóstico dos pacientes com Fabry não clássico ainda requer validação.2 

O início precoce da TRE é considerado ideal para a obtenção de maior benefício terapêutico.4 Adicionalmente, a maior dose de TRE, oferecida através de b-agalsidase (1,0 mg/kg/ a cada 15 dias por via intravenosa), tem potencial para levar à maior redução da massa ventricular esquerda.5 Dessa forma, se por um lado o diagnóstico precoce da doença de Fabry é de grande importância, por outro lado evitar o diagnóstico errôneo tem igual importância para prevenir-se contra estresse familiar e indicação inadequada de TRE.2