O sono normal varia ao longo do desenvolvimento humano em termos de duração, distribuição de estágios e ritmo circadiano.1 As variações da quantidade de sono são maiores durante a infância, decrescendo de 16 horas por dia, em média, nos primeiros dias de vida para 14 horas no final do primeiro mês e para 12 horas no sexto mês de vida. Depois dessa fase, o tempo de sono da criança diminui 30 minutos por ano até os 5 anos de idade. Já os adolescentes precisam de um período de 1 a 3 horas a mais de sono do que os adultos jovens. Com o avanço da idade, ocorrem perdas de duração, manutenção e qualidade do sono.2

O tempo total de sono (TTS) é calculado a partir do primeiro estágio de sono não REM até o despertar completo, excluindo-se possíveis despertares depois do início do sono, durante a madrugada. Quanto maior esse tempo, maior a quantidade de ciclos de sono.3
 

A figura 1 mostra a recomendação da National Sleep Foundation de TTS ideal, com margem aceitável por faixa etária.4
 
A cronobiologia do sono é outra questão bastante estudada e que está diretamente relacionada ao TTS, sendo inclusive o destaque do Prêmio Nobel de Medicina de 2017 por desvendar os aspectos moleculares e genéticos dos múltiplos relógios biológicos espalhados por todo o organismo. Existem variações genéticas relacionadas ao sono que determinam os indivíduos mais matutinos ou os mais vespertinos. Assim, esse TTS, que varia com a faixa etária, também adota um ritmo biológico, com horários preferenciais de sono e despertar individuais, mantendo, porém, regularidade nas 24 horas para que os órgãos e os sistemas funcionem adequadamente.5,6

Insônia é um dos distúrbios do sono mais frequentes no mundo.7 Trata-se de uma condição muito comum e associada a prejuízo acentuado na função e na qualidade de vida, representando um enorme desafio à saúde pública.8

A importância desse tema tem ganhado cada vez mais a atenção da sociedade, principalmente pelas mudanças drásticas do estilo de vida da população nas últimas décadas, já que estamos dormindo cada vez menos.9 Em um estudo realizado na cidade de São Paulo, a prevalência de insônia objetiva foi de 32%, enquanto a prevalência subjetiva de sintomas de insônia foi de 45%.10

Em outros casos, a privação do sono ocorre em consequência de estímulos ambientais, como temperaturas extremas, vizinhança com problemas de segurança ou barulho, filhos pequenos que necessitam de cuidados na madrugada, uso de substâncias que estimulam o sistema nervoso central ou compartilhamento do mesmo quarto com pessoas que têm transtornos do sono.11,12

CONSEQUÊNCIAS DA REDUÇÃO DO TTS

Efeitos cognitivos


São observados inúmeros efeitos cognitivos da privação crônica do sono noturno (tempo de sono menor que 7 horas), por exemplo 11-14:
  • Diminuição da vigilância;
  • Aumento do tempo de reação;
  • Distração;
  • Dificuldade de concentração;
  • Esquecimento de fatos;
  • Dificuldade de memorizar novas informações;
  • Erros por omissão;
  • Nível elevado de estresse;
  • Cansaço;
  • Sonolência;
  • Irritabilidade;
  • Pior desempenho no trabalho;
  • Menor motivação.
Alterações endócrinas

No médio e longo prazo, as alterações endócrinas relacionadas com à diminuição crônica do TTS são expressivas:15,17
  • Redução do hormônio do crescimento (growth hormone, GH);
  • Redução da tolerância à glicose;
  • Redução de hormônios tireoidianos;
  • Aumento do apetite promovido pela leptina;
  • Ganho de peso e obesidade;
  • Elevação do cortisol e da ativação simpática.
Alterações do sistema imune

A correlação entre a restrição crônica do TTS e as mudanças da resposta imune está bem estabelecida:18,19
  • Diminuição da produção de anticorpos pós-vacinação;
  • Modificação da atividade de células natural killer, interleucinas e TNF-alfa.
Alterações cardiovasculares

Existe uma associação entre doença cardiovascular e diminuição crônica do TTS (de menos de 7 horas pelo menos duas vezes por semana). O mecanismo proposto seria a ativação inflamatória, com aumento de proteína C reativa.16,20

Importância da investigação do TTS 

Em 2013, Vgontzas et al.21 definiram a existência de dois fenótipos principais de insones: um com TTS <6 horas, em que haveria um hiperalerta psicológico, a presença de comorbidades e um curso persistente; outro em que existiriam um estado de hiperalerta cognitivo emocional e uma percepção inadequada do sono, sem comorbidades, com períodos de remissão dos sintomas.

A figura 2 mostra as características dos dois fenótipos da insônia baseados no TTS.21
 
Figura 2. Características dos fenótipos da insônia baseados no tempo total de sono 
Adaptada de: Vgontzas AN, et al. Sleep Med Rev. 2013;17(4):241-54.21

Em ambos os fenótipos, se observaram vulnerabilidade psicológica, alerta cognitivo, emocional e cortical e aumento do risco de transtornos psiquiátricos associados. A importância de fazer essa diferenciação estaria no enfoque terapêutico. No caso dos indivíduos com TTS curto, o tratamento seria farmacoterápico, com a finalidade de diminuir principalmente o estímulo no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, enquanto nos indivíduos com TTS ≥6 horas o tratamento da insônia teria maior probabilidade de êxito se fosse cognitivo-comportamental (TCC-I).17,21

Considerações finais
A cronobiologia do sono está diretamente relacionada com ao TTS e à variabilidade genética de cada indivíduo. A privação do sono tem consequências negativas para o ritmo biológico, comprometendo a saúde e o bem-estar. Conhecer o fenótipo do insone e o TTS é de fundamental importância para o correto direcionamento do tratamento e obtenção de melhores resultados.5-21

O sono insuficiente é o principal transtorno atual do sono na humanidade. Nunca dormimos tão mal e tão pouco.