1. Atualmente muitas pessoas usam as redes sociais para se informar sobre diversos assuntos, incluindo saúde. Como o farmacêutico pode utilizar esse meio de comunicação ética e eficazmente para promover o cuidado da saúde da população?

O acesso cada vez maior e mais facilitado a aparelhos celulares modernos e com boas conexões de internet é a grande motivação deste cenário, que tende apenas a se ampliar. Nesse contexto, o farmacêutico pode utilizar as redes sociais tanto para ampliar seu aprendizado quanto para orientar a população em relação ao uso racional de medicamentos.

As redes sociais aproximam os farmacêuticos de professores, tutores e profissionais experientes que podem compartilhar seus conhecimentos e experiências de maneira rápida, clara e objetiva. Pessoas estas que – sem os recursos digitais – poderiam ser de difícil acesso.

Contudo, o farmacêutico deve ter discernimento no sentido de escolher adequadamente as suas fontes de informação. Estar na internet ou nas redes sociais não faz de alguém uma autoridade ou referência em um dado assunto. Seus conhecimentos e experiência prática, sim.

Portanto, o farmacêutico pode e deve empregar as redes sociais como um veículo na busca de capacitação, desde que faça boas escolhas quanto à qualidade do conteúdo consumido. Aplicando este critério seletivo, eu realmente acredito que as redes sociais – e outros recursos digitais – contribuem para a aprendizagem contínua do farmacêutico, refletindo em maior qualidade do cuidado ofertado às pessoas.
Outro aspecto importante, é o de que nos últimos anos, cada vez mais pessoas recorrem à internet e, principalmente, às redes sociais para buscarem informações sobre saúde e autocuidado. Há, inclusive, quem recorra e aplique primeiro as informações obtidas nestes meios antes mesmo de consultar um profissional da saúde habilitado. Contudo, a qualidade das informações é o fator mais preocupante relacionado a este hábito moderno. A grande maioria das informações disponíveis em sites e redes sociais são incorretas, muitas vezes elaboradas ou redigidas por pessoas que não são profissionais da saúde comprometidos com a segurança das pessoas. São as conhecidas "fake news". Neste sentido, o posicionamento ético e profissional dos farmacêuticos faz toda a diferença.

Vale destacar que o papel fundamental do farmacêutico no cuidado à saúde é garantir o uso racional dos medicamentos, contribuindo para que as pessoas utilizem aqueles que realmente precisam de forma correta e segura. O uso equivocado de medicamentos é um dos principais fatores de problemas de saúde ou agravamento de doenças, e aqui o farmacêutico é o profissional preparado para ajudar e orientar as pessoas a obterem os melhores resultados possíveis com a farmacoterapia. Além disso, esses profissionais também contribuem em grande medida com a orientação em saúde e com o rastreamento de doenças, identificando condições clínicas ainda não diagnosticadas e, por conseguinte, encaminhando o paciente a um médico e auxiliando-o na sua jornada de cuidado. Neste contexto, tem se observado cada vez mais farmacêuticos se posicionando nas redes sociais com o intuito de orientar e educar outros colegas de profissão e a sociedade.
 
Todavia, eu chamo a atenção para a responsabilidade que este posicionamento impõe. Para ser um multiplicador de informações, o profissional deve estar preparado tecnicamente e comprometido com a qualidade das evidências científicas que sustentam essas informações. Não basta possuir uma boa presença nas redes sociais, é fundamental a responsabilidade primária em levar informação fidedigna e que realmente agregue valor à saúde e qualidade de vida das pessoas.
2. Qual é a importância do farmacêutico estabelecer uma boa comunicação com o paciente para auxiliá-lo no que precisa? E quais dicas você daria para que essa comunicação seja efetiva no atendimento na farmácia ou em hospitais?

A boa comunicação é um dos mais importantes instrumentos da prática e do cuidado farmacêutico. É através de uma boa comunicação que o farmacêutico aplica os seus conhecimentos na forma de soluções para o cuidado, orienta as pessoas e conquista a sua confiança.

Mas a boa comunicação não é algo material que se adquire unicamente por meio de uma ou outra técnica aplicada, é resultado de um processo de construção pessoal e profissional. Minha primeira dica é ler. Ler muito!! A eloquência é um desempenho que requer matérias-primas que facilitem a reflexão e a retórica. Portanto, leitura constante e de boa qualidade abastecem a mente com argumentos, vocabulário e informação. O farmacêutico deve ler muito sobre assuntos relacionados diretamente à sua área, mas também sobre a natureza humana e o seu modo de pensar. Sugiro algumas leituras básicas sobre saúde pública e até mesmo filosofia.

E minha segunda dica é ouvir. Ouvir pessoas e profissionais que possam ser espelhados. Ouvir aulas, palestras, explicações e reflexões de profissionais que são considerados referência em farmácia e saúde. A internet, mais do que nunca, nos propicia incríveis oportunidades disto. Mas, antes de tudo, ouvir as pessoas atendidas pelos nossos serviços. A boa comunicação se inicia ao se permitir ouvir com atenção e empatia.
3. Erros na medicação podem ter um impacto significativo na morbimortalidade dos pacientes. Como o farmacêutico pode atuar na prevenção desses erros e suas consequências?

Erros no uso de medicamentos são muito mais comuns do que se possa imaginar, sendo diversas as causas que levam ao uso equivocado dos remédios, no dia a dia. A começar pelos erros de prescrição. Sim!! Erros de prescrição acontecem com bastante frequência. A principal razão para esses casos é o fato de que os médicos – que são a maioria dos profissionais prescritores – também são seres humanos e também estão sujeitos a equívocos.

Neste sentido, o papel do farmacêutico é fundamental para o rastreamento de erros de prescrição e de uso dos medicamentos. É o farmacêutico o profissional da saúde responsável pelos medicamentos e sua dispensação às pessoas que os utilizam, uma vez que está devidamente habilitado e capacitado para orientá-las em tudo o que é necessário para seu uso correto e racional. Também é o profissional mais disponível e acessível para identificar e resolver problemas relacionados ao uso dos medicamentos, à falta de adesão ao tratamento, às reações adversas e às interações medicamentosas. Isto é feito por meio da revisão da medicação e também do acompanhamento farmacoterapêutico. Dessa forma, os farmacêuticos em geral já contribuem, em grande medida, com a prevenção e o rastreamento de erros de farmacoterapia, seja em farmácias comunitárias, farmácias públicas ou hospitais. Entretanto, eu acredito que podemos fazer muito mais.

Infelizmente, um grande número de farmacêuticos ainda não se sente capaz de resolver problemas de farmacoterapia como o rastreamento e o manejo de reações adversas e, principalmente, interações medicamentosas. Isto sem falar em diversos outros problemas relacionados ao uso dos medicamentos. Contudo, eu acredito que o conhecimento de qualidade – ofertado de uma maneira moderna e prática – é o único tônico capaz de estimular o farmacêutico a desempenhar um papel mais relevante e de referência no cuidado das pessoas.

Além disso, cada vez mais tem aumentado a prática da chamada "farmácia clínica" nos estabelecimentos farmacêuticos (farmácias e drogarias) de todo o país. Isto é uma tendência que só vem aumentando desde 2013, quando a prática clínica farmacêutica foi devidamente regulamentada pelo Conselho Federal de Farmácia. Hoje não é raro encontrarmos farmacêuticos disponíveis nas farmácias para o atendimento clínico, realizando desde o rastreamento e o acompanhamento em saúde, até a identificação de possíveis problemas relacionados ao uso dos medicamentos. O resultado deste empenho é uma notável melhora na maneira como as pessoas utilizam seus medicamentos e, consequentemente, melhoras expressivas nos resultados terapêuticos obtidos, na saúde e na qualidade de vida. 

Acredito que a participação mais ativa do farmacêutico no processo de autocuidado das pessoas vai se ampliar progressivamente nos próximos anos. A triste situação desta pandemia em que vivemos despertou ainda mais o fundamental e indispensável papel da farmácia e do farmacêutico no cuidado à saúde, dada a proximidade e o fácil acesso, além da qualidade dos serviços prestados.