Introdução

Estima-se que anualmente a bactéria Bordetella pertussis seja responsável por até 16 milhões de casos de coqueluche e aproximadamente 195.000 mortes de crianças em todo o mundo. Vacinas eficazes contra a doença foram disponibilizadas na década de 1930 e, com a grande cobertura vacinal na década de 1970, a taxa de incidência da coqueluche mundial (por 100.000 habitantes) foi reduzida de 157 para menos de 1.1

As primeiras vacinas eram compostas por células inteiras da bactéria (wP) em combinação com os toxóides diftérico e tetânico (DTPw) e, apesar de eficazes, apresentavam altas taxas de reações adversas, especialmente devido ao componente de células inteiras. Isso levou ao desenvolvimento de uma vacina menos reatogênica, a vacina acelular (aP). Paralelamente, o aumento na complexidade do cronograma de vacinação infantil fez com que formulações mais elaboradas fossem desenvolvidas para combinar em uma única injeção as vacinas DTpa, hepatite B (HB), Haemophilus influenzae tipo b (Hib) e vacina inativada contra a poliomielite (VIP).1

Em 2018, o Chile introduziu em seu Programa Nacional Expandido de Imunização a vacina pediátrica hexavalente HEXAXIM®. Esse imunizante não contém timerosal (conservante contendo mercúrio), é totalmente líquido e composto pela DTpa, VIP, antígeno recombinante de superfície do vírus da HB e polissacarídeo de Hib conjugado ao toxóide tetânico.1

Com isso, houve uma importante simplificação e maior praticidade no calendário vacinal e, para avaliar a aceitação, satisfação e impacto na vida diária dos pais após a vacina com hexavalente HEXAXIM®, foi realizado um estudo comparativo com um grupo de pais de crianças que recebeu vacina pentavalente mais vacina oral poliomielite (VOP).1 

Metodologia

Esse estudo observacional recrutou dois grupos sequenciais de pais de bebês vacinados aos 6 meses de idade em seis Centros de Saúde Familiar da região metropolitana de Santiago, no Chile. O primeiro grupo correspondeu aos pais de crianças que receberam a vacina pentavalente de células inteiras mais a vacina oral poliomielite (pentavalente + VOP), enquanto o segundo grupo foi composto por pais de crianças que receberam a vacina hexavalente acelular (HEXAXIM®). Foram fornecidos dois questionários eletrônicos aos pais: o questionário 1 no momento da vacinação (+ 0–2 dias) e o questionário 2 uma semana depois da vacinação (± 2 dias). As respostas foram analisadas e as diferenças foram consideradas estatisticamente significativas quando p<0,05.1
 

Resultados

A satisfação com o processo de vacinação foi maior entre os pais de crianças que receberam HEXAXIM® em relação aos pais de crianças que receberam a vacina pentavalente + VOP (97% vs. 93%; P=0,03). Da mesma forma, um maior número de pais do grupo HEXAXIM® relatou planejar retornar para a próxima dose (94% vs. 85%; P=0,002) (Figura 1). Entre os motivos para trazer o(a) filho(a) de volta para a próxima dose, o resultado positivo foi significativamente maior no grupo HEXAXIM® por duas razões:
  • Para seguir as recomendações dos profissionais de saúde (P = 0,001).
  • Porque estavam confiantes de que a vacina não interromperá a rotina diária (P = 0,008).
Figura 1: Satisfação dos pais e intenção de vacinar em um futuro próximo. 
(Adaptado de: O'Ryan et al. Vaccine. 2020 Oct 7;38(43):6704-6713.1)


Além disso, mais pais no grupo HEXAXIM® acharam a vacinação excelente com relação a não gerar qualquer estresse (37% vs. 23%; P=0,01) e ser muito rápida (62% vs. 51%; P=0,02) (Figura 2).1
 
Figura 2: Percepção dos pais sobre o processo da vacinação.
 (Adaptado de: O'Ryan et al. Vaccine. 2020 Oct 7;38(43):6704-6713.1)


Também foram avaliadas as alterações nas atividades diárias dos pais, da criança vacinada e de outras crianças da família após a vacinação, sendo observado que:1
  • Em comparação com o grupo pentavalente + VOP, significativamente mais pais no grupo HEXAXIM® não relataram mudanças em seu apetite, sono, humor, atividades sociais ou de lazer, rotina diária e presença no trabalho (Figura 3). 
  • Um número significativamente menor de pais no grupo HEXAXIM® notou alterações no estado geral da criança (sono, estado de alerta e humor) após a vacinação (Figura 4). 
  • Significativamente mais pais no grupo HEXAXIM® relataram a ausência de interrupções no sono de outras crianças da casa (99% vs. 94%; P = 0,001).
 
Figura 3: Efeito da Vacinação na rotina diária dos pais. 
(Adaptado de: O'Ryan et al. Vaccine. 2020 Oct 7;38(43):6704-6713.1)
Figura 4: Efeito da Vacinação na rotina diária das crianças. 
(Adaptado de: O'Ryan et al. Vaccine. 2020 Oct 7;38(43):6704-6713.1)


Outras análises identificaram que os pais do grupo HEXAXIM® (em relação ao grupo pentavalente + VOP) tinham duas vezes mais probabilidade de:1
  • ficar mais satisfeitos com a vacinação (OR 2,82; IC 95%, 1,22-7,07; P = 0,02); 
  • retornar para outra dose de vacina (OR 2,62; IC 95%, 1,45–4,84; P = 0,002); 
  • seguir as recomendações do profissional de saúde para vacinação (OR 2,24; IC 95%, 1,57-3,21; P <0,001); 
  • ter certeza de que a vacina não interromperá a rotina diária da família (OR 1,89; IC 95%, 1,32–2,71; P = 0,001).

Discussão

Segundo informações coletadas dos pais, a vacinação com HEXAXIM® aos 6 meses de idade foi mais favorável do que a vacinação com o protocolo mais antigo, utilizando a vacina pentavalente mais VOP.

Outra consideração que pode ser feita é que, devido à alteração do programa nacional do Chile, os pais receberam informações adicionais no momento da vacinação e isso pode ter impactado na sua intenção em retornar à próxima rodada de vacinação.1

Esses resultados podem ter implicações para a saúde pública, já que pais de bebês vacinados com a vacina hexavalente acelular relataram maior satisfação, confiança e intenção de voltar para futuras vacinações, embora seja importante mencionar que em ambos os grupos essas proporções eram altas (>80%). Com isso, podemos supor que a mudança para a vacina hexavalente acelular pode ajudar no aumento da taxa de cobertura vacinal, pontualidade de administração, além de ter um impacto positivo em outras vacinas, especialmente em países ou regiões que enfrentam problemas com taxas de cobertura vacinal abaixo do ideal.1

Conclusões

Os pais das crianças do grupo HEXAXIM® relataram que haviam recebido informações adequadas para que se sentissem seguros sobre a vacinação. Além disso, os pais desse grupo mostraram-se mais satisfeitos do que o grupo da vacina pentavalente de células inteiras + vacina oral contra poliomielite, relatando também impacto significativamente menor em suas atividades diárias.1 

Mais uma vez, foi constatado o importante papel dos profissionais de saúde no fornecimento de informações sobre o assunto, funcionando como um estímulo para a vacinação infantil.1 

A melhor experiência na vacinação que esses dois fatores trazem para os pais e suas famílias pode contribuir para que altas taxas de cobertura vacinal sejam alcançadas e mantidas, o que favorece o controle das doenças infecciosas na infância.1