A realidade da profilaxia no mundo foi retratada pelo estudo ENDORSE, que mostrou que somente cerca de 50% dos pacientes internados em hospitais, em várias partes do mundo, recebiam profilaxia adequada para TEV.2 

Infelizmente a realidade nos hospitais brasileiros é semelhante à de outros países: mundialmente, 49% dos pacientes clínicos e 59% dos cirúrgicos recebem profilaxia para TEV de acordo com as recomendações, enquanto no Brasil são 59% e 46%, respectivamente.2 (Figura 1)
Especificamente nas unidades de terapia intensiva (UTIs) essa realidade parece ser um pouco melhor, contudo estamos distantes de uma taxa de profilaxia ideal. Além dos fatores de risco de TEV habituais de uma internação hospitalar, a população de pacientes internados em UTI apresenta fatores de risco específicos, tais como ventilação mecânica, presença de cateteres, procedimentos invasivos, sepse, falência cardiopulmonar, uso de vasopressores e trauma.1,3-5

Após a publicação do trabalho de Vincent (2005),6 em que se propôs que a profilaxia do TEV fizesse parte do checklist das UTIs, houve maior atenção relacionada a essa parte dos cuidados com o paciente nas unidades de tratamento intensivo. Trabalhos recentes mostram dois fatos bastante interessantes: a omissão da profilaxia de TEV por razões óbvias ou contraindicação nas primeiras 24 horas de internação em UTI e o uso de profilaxia mecânica ou a não profilaxia, em detrimento da farmacológica (nos casos em que esta é indicada), aumentaram a morbidade e a mortalidade dos pacientes adultos internados em terapia intensiva.1,5,7

As principais causas da não utilização da profilaxia correta de TEV nas nossas UTIs são: a omissão desse cuidado devido a procedimentos ou à possibilidade de ocorrência de sangramento, a falta de uma adequada estratificação de risco e o desconhecimento das diretrizes publicadas pelas diversas sociedades. A complexidade dos pacientes em situações como politraumatismo, acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico ou hemorrágico, distúrbio de coagulação, período pós-operatório complexo e falência de múltiplos órgãos traz dúvidas e frequentemente causa erros na realização da profilaxia adequada.2

Diante disso, parece claro que existirão dificuldades de decisão no que se refere à profilaxia de TEV em diversas situações na UTI. Na verdade, o que precisamos fazer é discutir diariamente esses casos complexos e adequar a profilaxia de TEV ao quadro atual do paciente, baseando as decisões nas recomendações das diretrizes, nos trabalhos relacionados a cada caso, bem como nas orientações da bula do produto. Com isso, poderemos evitar omissões e suspensões desnecessárias, bem como o uso excessivo de profilaxia em pacientes com contraindicação, diminuindo o risco e melhorando a qualidade da assistência. 

As diretrizes do American College of Chest Physicians (ACCP) de 2012 recomendam que a profilaxia de TEV em pacientes em terapia intensiva pode ser feita com heparina não fracionada (HNF) ou heparina de baixo peso molecular (HBPM).1 Desde a publicação dessas diretrizes, diversos trabalhos e metanálises relacionados ao tema concluíram que a HBPM é a droga de escolha para profilaxia de TEV em UTI por apresentar menor incidência de embolia pulmonar e menor tendência a sangramento.2,4-6,8 

O uso dos anticoagulantes orais diretos (DOACs) não foi testado especificamente em pacientes de terapia intensiva, há somente análises de subgrupos. Não pode, portanto, ser recomendado nessa população específica. O fondaparinux não é recomendado para uso em terapia intensiva pelas diretrizes de 2012 do ACCP. (Figura 2)
Recomenda-se o uso da profilaxia mecânica somente quando houver contraindicação formal à farmacológica, contudo o uso de profilaxia conjunta (mecânica mais farmacológica) pode ser indicado em alguns pacientes.1,5,7 (Figura 3)
A realização correta da profilaxia de TEV nas nossas UTIs é imprescindível e deverá ser meta de todas as unidades de cuidados intensivos, demonstrando, assim, qualidade de assistência e diminuindo a incidência de eventos adversos preveníveis.