Introdução

Em dezembro de 2019, o primeiro surto de infecção respiratória grave pela COVID-19 foi inicialmente relatado em Wuhan, província de Hubei, na China.1 Menos de um ano depois, o mundo contabiliza mais de 40 milhões de casos e 1,1 milhão de mortes, de acordo com dados de 20 de outubro do último ano do Center for Systems Science and Engineering, da Johns Hopkins University.1,2

O período médio de incubação da doença é de 5,1 dias, e 97,5% dos indivíduos infectados desenvolverão sintomas dentro de até 11,5 dias após a infecção.1 Febre, tosse, mialgia ou fadiga, expectoração e dispneia são os mais comuns sintomas relatados.1 Naqueles pacientes que desenvolvem pneumonia, a opacidade em vidro fosco e as lesões múltiplas são descritas em tomografia computadorizada de tórax.1 Em 10% a 20% de pacientes graves, a lesão respiratória evoluirá para síndrome de dificuldade respiratória aguda que cursa com alta morbidade e mortalidade.1 Em relação ao mecanismo patogênico que produz a pneumonia, os dados disponíveis sugerem que o vírus da COVID-19 é capaz de produzir uma reação imunológica excessiva no hospedeiro (tempestade de citocinas) e extensos danos aos tecidos, especialmente nos pulmões.1,3 

O papel da vitamina D no sistema imune 

Estudos in vitro e experimentais mostram que a vitamina D aumenta a imunidade celular inata parcialmente através da indução da síntese de peptídeos antimicrobianos, como a catelicidina humana (LL-37) e as betadefensinas.1,4 A vitamina D também está envolvida na imunidade celular, reduzindo parcialmente a tempestade de citocinas induzida pelo sistema imunológico inato.1,4 O calcitriol, a forma ativa da vitamina D, suprime respostas mediadas pela célula T auxiliar tipo 1 (Th1), reduzindo a produção de citocinas inflamatórias IL-2 e interferon-gama (INFγ).1 Além disso, o calcitriol promove a produção de citocinas por células T auxiliares tipo 2 (Th2), que também ajudam a aumentar a supressão indireta de células Th1.1,5

A vitamina d e a resposta imune contra infecções respiratórias: principais resultados de estudos clínicos 

Jolliffe et al. publicaram uma revisão sistemática de estudos clínicos (39 estudos) que avaliou a associação entre deficiência de vitamina D e a suscetibilidade a infecção respiratória aguda em humanos.6 Os estudos observacionais demonstraram associações estatisticamente significativas entre baixo status de vitamina D e aumento do risco de infecções do trato respiratório superior e inferior.1,6

Recentemente, Ilie et al. observaram uma correlação negativa entre os níveis médios de 25(OH)D da população de 20 países europeus e a mortalidade por COVID-19, conforme o número de pessoas infectadas.7 Os idosos são o grupo mais vulnerável da infecção por COVID-19, além daqueles que têm as concentrações mais baixas de vitamina D.1,7

Uma recente metanálise de Martineau et al. (25 estudos controlados e randomizados [RCTs], 11.321 participantes com idade entre 0 e 95 anos) mostrou que a suplementação de vitamina D reduziu o risco de infecções respiratórias agudas em 12%.1,8 Esses efeitos protetores foram mais evidentes em indivíduos que tomavam doses diárias ou semanais; e também naqueles com concentração basal de 25(OH)D <10 ng/mL, mas não naqueles com valores basais >10 ng/mL.1,8 No entanto, os autores alertaram para o fato de que as causas das infecções no estudo foram diversas, e a confirmação radiológica foi realizada na minoria dos eventos.1,8 Ressalta-se ainda que esses dados se referem a informações anteriores ao início da pandemia de COVID-19.

Até o momento, não há dados robustos de estudos prospectivos que avaliem os benefícios da administração de vitamina D em pacientes infectados com COVID-19.1

Por que não usar altas doses de vitamina D 

Por outro lado, a suplementação com doses extremamente altas de vitamina D pode ser prejudicial, especialmente para idosos, e pode potencialmente levar a quedas e fraturas.1,9 A hipervitaminose D [25(OH)D >100 ng/mL] aumenta a absorção intestinal, a reabsorção tubular renal de cálcio e a reabsorção óssea, o que leva a hipercalcemia e sintomas relacionados, como náuseas, vômitos, fraqueza, anorexia, polidipsia, poliúria, desidratação, insuficiência renal aguda, apatia, confusão e, a longo prazo, cálculos renais.1

Doses recomendadas de manutenção

A dose usual recomendada para a correção de deficiência de vitamina D [25(OH)D <20 ng/mL] é de 50.000 UI/semana ou 7.000 UI/dia por 6 a 8 semanas.1,10 Para manutenção, a dose varia de 400 a 2.000 UI/dia, dependendo da idade e da condição clínica do indivíduo.1,10 (Tabela 1)


Tabela 1. Doses de manutenção de acordo com o perfil clínico
 
Adaptada de: Maeda SS, et al. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2014;58(5):411-33.10


Conclusão

Esta revisão conclui que a deficiência de vitamina D pode aumentar o risco de infecções respiratórias agudas, e sua suplementação traz benefícios à saúde pulmonar e à resposta do sistema imune contra microrganismos, principalmente em indivíduos deficientes.1 Embora o efeito protetor da vitamina D contra COVID-19 grave permaneça especulativo, há razões para recomendar fortemente a suplementação dessa vitamina para evitar a deficiência grave, especialmente durante esta pandemia, em que há orientação para o isolamento social e o próprio inverno como fatores que diminuem a exposição solar e, consequentemente, as concentrações de vitamina D.1 O exame laboratorial somente é necessário para pacientes dentro do grupo de risco, e a suplementação entre 400 e 2.000 UI/dia, a depender do perfil clínico do paciente, é recomendada sem necessidade de mensuração laboratorial.1 Essas doses são suficientes para prevenir deficiências severas e são muito seguras, sem oferecer risco de intoxicação.1