Antes de falarmos sobre anti-histamínicos, vale lembrar por que são medicações tão frequentemente prescritas por pediatras.1 Graças ao estudo epidemiológico ISAAC (International Study of Asthma and Allergy in Childhood), sabemos que até 25% das crianças brasileiras apresentam rinite alérgica (RA) e outras tantas têm dermatite atópica.2 Nessas duas doenças, um dos sintomas mais frequentes durante as crises é o prurido e, nesse contexto, os anti-histamínicos auxiliam bastante no controle dos sintomas.1 Ainda que não se trate somente de uma doença alérgica, muitas das crianças de quem cuidamos também apresentam quadros de urticária.1

Não temos estudos nacionais de prevalência de urticária, mas uma coorte alemã estimou que, a cada ano, 1% das crianças apresenta um episódio de urticária e, aos 10 anos, 14,5% dos meninos e 16,2% das meninas haviam apresentado um episódio de urticária.3 Certamente temos que estar preparados para cuidar desses pacientes.3 Para todas essas doenças e algumas mais, os anti-histamínicos são estratégias terapêuticas bastante utilizadas.1

 

O que aprendemos sobre os anti-histamínicos nos últimos anos? Muitas coisas. Primeiro, vale recordar uma importante particularidade dessa classe de medicamentos.1 Na verdade, os anti-histamínicos funcionam como agonistas inversos, pois ao invés de bloquear a ação da histamina alteram o status do receptor, que passa a ser insensível à presença da histamina.1 Depois, é sempre bom lembrar a evolução farmacológica dessa classe de medicamentos, pois há importantíssimas informações relacionadas ao perfil de segurança.1

 

Os primeiros anti-histamínicos descritos, os denominados anti-histamínicos de primeira geração, apresentam propriedades farmacológicas que permitem seu amplo espalhamento e ação em vários órgãos, que vão além dos efeitos esperados de controle de espirros ou de coceira na pele. Agem no sistema nervoso central, levando a um efeito adverso bastante indesejável: a sonolência.1 De fato, as consequências dessa ação no SNC podem ir além do sono excessivo.1

 

O uso de anti-histamínicos de primeira geração pode interferir no aprendizado e na concentração das crianças.1 Os efeitos antimuscarínicos desses anti-histamínicos incluem: xerostomia (boca seca), retenção urinária e taquicardia sinusal.1 Pela ação nos receptores serotoninérgicos, pode-se esperar aumento do apetite.1 Tudo isso compromete o uso dessas medicações, pois, mesmo eficientes, seus efeitos adversos são variados e frequentes.1

 

Quando se consideram os anti-histamínicos de segunda geração, há indubitavelmente maior tranquilidade em seu uso.1 São medicações lipofóbicas, apresentam maior peso molecular e são substratos de uma enzima denominada de gP.1 Essa enzima minimiza o poder de ação dos anti-histamínicos de segunda geração no SNC.1 Mesmo entre os anti-histamínicos de segunda geração, observou-se evolução ao longo dos anos.1

 

Atualmente, alguns dos medicamentos são versões mais avançadas de seus precursores, com destaque à fexofenadina, à levocetirizina e à desloratadina.1 De fato, essas medicações, por necessitarem de menor metabolização para iniciar sua ação, apresentam mecanismo de ação rápido e perfil de segurança adequado, com menos consequências caso haja interações medicamentosas.1 Com todos esses avanços, os anti-histamínicos de segunda geração foram se tornando as medicações de escolha presentes nos guias de tratamento de rinite alérgica e urticária para adultos e crianças.1 Em alguns casos, como da fexofenadina, a bula do medicamento informa a liberação a partir dos 6 meses de idade para controle da urticária.4

 

Há uma série de anti-histamínicos de segunda geração, destacando-se entre eles a fexofenadina.1 A fexofenadina é um anti-histamínico de segunda geração amplamente estudado, liberado para crianças com urticária a partir dos 6 meses de idade e para pacientes com rinite alérgica a partir dos 2 anos.4,5 A indicação de anti-histamínicos está presente nos guias de tratamento de rinite alérgica nacionais e internacionais.6,7

 

A rinite alérgica apresenta sintomas cardinais (espirros, prurido nasal e coriza) fortemente relacionados à liberação de histamina, mas uma revisão, que considerou os anti-histamínicos de segunda geração e incluiu fexofenadina, desloratadina e levocetirizina, também revelou que seu uso minimiza a congestão nasal, um dos sintomas que mais comprometem a qualidade de vida dos pacientes com rinite alérgica.8 Em outro estudo, agora duplo-cego e controlado com placebo, que comparou a eficácia da loratadina com a da fexofenadina em pacientes com rinite alérgica, a fexofenadina se mostrou mais eficaz no alívio dos sintomas oculares e na congestão nasal.9

 

No contexto das urticárias, alguns avanços terapêuticos também demandam uma breve discussão sobre os anti-histamínicos de segunda geração.10 Ainda que em pediatria a urticária crônica (urticárias recorrentes por mais de duas semanas) não seja um evento tão frequente, quando acontece, há um enorme comprometimento da qualidade de vida.10 O anti-histamínico de segunda geração é a droga de escolha nos dois passos iniciais do cuidado da urticária.10

 

No primeiro deles, utilizam-se as doses habituais, e no segundo passo, essas doses podem ser duplicadas ou quadruplicadas.10 Considerando-se a possibilidade de quadruplicar as doses de tratamento, um estudo que avaliou a segurança da administração de fexofenadina mostrou ausência de efeitos adversos e de comprometimento da condução cardíaca quando a dose chegou a 690 mg/dia em pacientes adultos.11 Considerando-se ainda algumas particularidades da fexofenadina, vale destacar que, nos estudos que incluíram as revisões das publicações, a fexofenadina se mostrou uma medicação segura para os pacientes com comprometimento renal leve, sendo classificada como a mais segura.10 Tendo em conta sua não metabolização através de citocromos hepáticos (CYP3A4), também se mostrou segura em pacientes com comprometimento renal leve.10

 

Para encerrar nossa rápida conversa, eu os convido para uma análise leve, mas precisa, de nosso posicionamento com relação ao uso de anti-histamínicos. É fortemente recomendado que usemos anti-histamínicos de segunda geração, que apresentam adequada eficácia e perfil de segurança muito superior ao dos anti-histamínicos de primeira geração e são as medicações de escolha no cuidado da rinite alérgica e da urticária.