A rinite alérgica (RA) é reconhecida como um problema de saúde pública com impacto direto na vida social, causando modificações de humor, ansiedade, depressão e, especialmente, limitação na capacidade cognitiva e na qualidade de vida.3 A prevalência e o impacto das doenças alérgicas estão associados a mudanças ambientais e estilo de vida, que acompanham os processos contínuos de urbanização, migração e globalização.4 Alterações em fatores ambientais podem explicar as tendências de aumento na prevalência mundial da rinite, por exemplo.4

As comparações entre os centros de estudo do ISAAC ao longo de um período de sete anos mostraram que a prevalência e, portanto, a saúde e utilização de recursos com cuidados associados à rinoconjuntivite estão aumentando.5 Entre os países, a prevalência de rinoconjuntivite foi associada negativamente a níveis de ozônio e PM2.5 na atmosfera.6 Essa última associação tornou-se menos negativa após o ajuste para o tabagismo dos pais e cozinhar em fogo de lenha.6

O aquecimento global está diretamente relacionado à poluição atmosférica, especialmente o aumento das concentrações de dióxido de carbono, a força motriz do aquecimento da Terra por meio do efeito estufa.

Efeitos da poluição na rinite alérgica


Poluentes provêm de várias fontes, e cada um tem características diferentes dependendo da composição e das condições sob as quais foram produzidos.8 Gases comuns incluem os óxidos de enxofre (principalmente dióxido de enxofre [SO2]), óxidos de nitrogênio (principalmente óxido nítrico e dióxido de nitrogênio [NO2]), hidrocarbonetos reativos (compostos orgânicos voláteis) e monóxido de carbono (CO).

Material particulado (PM) e partículas de exaustão de diesel (DEP), ozônio, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre podem agravar o efeito inflamatório nas vias aéreas de indivíduos suscetíveis, causando aumento da permeabilidade, penetração mais fácil de alérgenos nas membranas mucosas e interação mais fácil com células do sistema imunológico.9-11 Em câmaras de exposição controlada a alérgenos, a exposição combinada de DEP e alérgeno exacerba os sintomas de RA em relação à exposição isolada ao alérgeno.12

A poluição e as mudanças climáticas podem influenciar negativamente as alergias sazonais por várias razões: o crescimento das plantas pode ser maior, mais acelerado, produzindo mais polens; o conteúdo do material alergênico polínico aumenta; o brotamento e o florescimento estão intimamente ligados ao calor acumulado pelas plantas.4,13 O aquecimento global antropogênico resulta no florescimento mais precoce, e com isso a estação polínica começa mais cedo e se prolonga mais que o habitual.13

Estudos sobre as respostas das plantas a altos níveis atmosféricos de CO2 demonstram que as plantas exibem fotossíntese aumentada e produzem mais pólen.14,15

Sintomas de rinoconjuntivite alérgica e asma, consequentemente, serão mais intensos, começarão mais precocemente e serão mais prolongados devido a essa interação com cargas polínicas maiores na atmosfera.16-19 Está demonstrado que plantas da mesma espécie que crescem em áreas rurais produzem menos grãos de pólen e com menos conteúdo alergênico do que aquelas que se desenvolvem à margem de rodovias e estão sujeitas a índices maiores de poluentes do ar.19,20 As plantas alergênicas se tornam mais robustas e aumentam a carga de aeroalérgenos para os pacientes com alergia respiratória.13,21 A poluição do ar no interior das residências engloba diversos fatores biológicos contaminantes, como alérgenos, principalmente ácaros da poeira doméstica, bem como insetos, pólen e fontes animais, fungos e endotoxinas bacterianas.22 

Durante o processo de sensibilização das vias aéreas, há ativação de células e liberação de mediadores químicos inflamatórios como histamina e leucotrienos.9 No curso da inflamação das vias aéreas, uma variedade de citocinas, como IL-4, IL-5, IL-13, IL-6, além das que são secretadas por células epiteliais, TSLP (linfopoietina do estroma tímico), IL-25 e IL-33 desempenham um papel central na modulação dessas reações inflamatórias alérgicas.9 Outras citocinas Th2, como IL-5, IL-9 e IL-13 são responsáveis pela propagação e manutenção da fase tardia da inflamação alérgica.9 Na rinite sazonal, esse processo persiste por várias semanas após a estação do pólen, sugerindo que um processo inflamatório persistente, denominado inflamação persistente mínima, continua após a exposição ao alérgeno, a qual é confirmada em pacientes assintomáticos com alergia perene (alergia a ácaros) e alergia sazonal ao pólen, fora da estação de polinização.23,24

A molécula de adesão intercelular-1 (ICAM-1) é um receptor para rinovírus B humano que infecta células epiteliais da mucosa respiratória para induzir sintomas de resfriado, com mais consequências graves para aqueles com doenças respiratórias crônicas subjacentes.25 A ICAM-1 é expressa positivamente pela poluição do ar em células epiteliais, o que poderia aumentar a infectividade das células por rinovírus: o resultado é a maior tendência a resfriados no paciente com RA.25  

Esse estado permanente ocasiona hiper-reatividade da mucosa nasal, e os pacientes alérgicos reagem a quantidades menores de alérgenos e de substâncias poluentes e irritantes no ar.26,27 A hiper-reatividade nasal clinicamente se verifica em situações como mudanças bruscas de temperatura, nas mudanças de estação do ano ou presença de odores, perfumes e fumaça.26,27

Conclusão


A poluição do ar ambiente é uma exposição universal, ou seja, toda a população está exposta até certo ponto. No entanto, o nível dessa exposição vai variar dependendo de fatores como o tempo gasto em interiores de domicílios, o tipo de construção, a proximidade de estradas, distância de casa à escola etc. Dada a carga crescente da RA associada à poluição do ar, existe atualmente um desafio contínuo de compreender o desenvolvimento da RA e o papel da poluição do ar na exacerbação dos sintomas e no aumento da prevalência de doenças alérgicas. 

Foi demonstrado que a coexposição a alérgenos e poluentes atmosféricos exacerba os sintomas de RA e potencializa a resposta imunológica alérgica.12

Mecanismos, como o estresse oxidativo particularmente, explicam as interações entre poluição do ar e RA.28 O controle da RA agravada pela poluição do ar envolve principalmente o tratamento da rinite recomendado nas diretrizes e a redução da exposição a poluentes.28 A fexofenadina, um anti-histamínico oral não sedativo, melhora os sintomas de RA agravados pela poluição do ar.28 No entanto, faltam atualmente mais estudos de eficácia sobre outras terapias farmacológicas para a rinite coexistente com a poluição do ar.28