O Programa Nacional de Imunizações (PNI) introduziu, continuamente ao longo das últimas décadas, diversas vacinas no calendário de vacinação de bebês, crianças e adultos.1 Isso tem se mostrado uma importantíssima política de saúde pública para controle e prevenção de doenças, o que evita a sobrecarga sobre o sistema de saúde e uso de recursos para tratamentos dessas doenças.2,3 Apesar de contribuir para redução da incidência e severidade de infecções,2,3 especialmente em bebês e crianças, o número crescente de aplicações durante os primeiros anos de vida naturalmente aumenta a complexidade de administrações das vacinas, trazendo alguns desafios.

 

A taxa de adesão à vacinação é um parâmetro importante para avaliar a qualidade de um programa de imunização, visto que taxas elevadas são um indicativo de que boa parte da população está protegida de certas doenças. O aumento no número de aplicações, conforme mencionado, tem impactado negativamente essa adesão.4–6 Um estudo americano com mais de 1.000 crianças mostrou que há tendência de resistência à vacinação com um número crescente de aplicações numa mesma visita, sendo que a proporção de crianças recebendo todas as vacinas recomendadas pode ser reduzida em mais de 10% com cinco aplicações em comparação a duas aplicações.7 Além disso, os pais tendem a se preocupar  com as múltiplas aplicações, atrasando ou rejeitando a vacinação dos filhos por esse motivo.6

Fonte: Adaptado de Melman ST, Nguyen TT, Ehrlich E, Schorr M, Anbar RD. Parental compliance with multiple immunization injections. Arch Pediatr Adolesc Med. 1999;153(12):1289-1291. doi:10.1001/archpedi.153.12.1289.

 

Além de contribuir para diminuição da adesão, o tempo gasto com as visitas aos postos de vacinação aumenta significantemente com o número de aplicações.8 Sendo assim, a rotina dos pais também é impactada. Esse tempo elevado pode acarretar em perda de produtividade e aumento nos dias de trabalho perdidos.6

 

Dados do DataSUS mostram que a cobertura de diversas vacinas tem diminuído ao longo dos últimos anos no sistema público brasileiro. Por exemplo, de 2015 para 2020, a cobertura de hepatite B reduziu de 90,93% para 54,27%, a de poliomielite reduziu de 98,29% para 65,57% e de meningococo C reduziu de 87,85% para 67,39%.9,10 Segundo as recomendações presentes no calendário de vacinação,11,12 muitas dessas vacinas devem ser aplicadas numa mesma visita. Porém, é possível notar que as coberturas dessas vacinas são diferentes,10 o que sugere que muitos bebês podem estar parcialmente protegidos.

 

Considerando as dificuldades encontradas tanto pelas crianças sendo vacinadas quanto pelos pais, a simplificação do esquema de vacinação é uma estratégia importante para garantia da cobertura adequada. Especialistas, pesquisadores e autoridades de saúde internacionais recomendam amplamente que sejam utilizadas vacinas combinadas para superar esses desafios,13–15 uma vez que são seguras e garantem uma proteção eficaz contra diversas doenças, reduzindo o número de aplicações necessárias.6

 

Um estudo conduzido na Alemanha mostrou que a proporção de crianças vacinadas dentro do cronograma adequado chegou a aumentar 2,9 vezes contra Haemophilus influenzae tipo b (Hib), 3,6 vezes contra poliomelite e 1,9 vezes contra hepatite B após a utilização de vacinas combinadas em relação a vacinas monovalentes.16 Um estudo americano também reportou que vacinas combinadas proporcionaram redução considerável no atraso da vacinação em crianças.17 Além disso, há evidências de que combinações podem não somente reduzir o atraso na aplicação das vacinas incluídas na própria combinação, mas também de outras vacinas17 e acelerar a vacinação de crianças que estão em atraso.18

Fonte: Adaptado de Kalies H, Grote V, Verstraeten T, Hessel L, Schmitt H-J, von Kries R. The Use of Combination Vaccines Has Improved Timeliness of Vaccination in Children. Pediatr Infect Dis J. 2006;25(6)

Por esse motivo, a introdução de vacinas combinadas tem contribuído para ampliação da cobertura vacinal de diversas doenças19–22 e, sendo assim, torna-se uma ferramenta importante para redução do impacto de doenças na saúde da população.