A gravidez tem um impacto profundo na glândula tireoide e em sua função. Durante a gestação, a glândula tireoide aumenta de tamanho em 10% em países onde há oferta adequada de iodo e em 20% a 40% em áreas com deficiência de iodo.6 A produção dos hormônios tireoidianos, tiroxina (T4) e tri-iodotironina (T3), aumenta em quase 50%, em conjunto com o aumento de 50% na necessidade diária de iodo.6 

Além disso, outras doenças da tireoide, como doença nodular e câncer de tireoide, são ocasionalmente detectadas durante a gravidez.6 Por essas razões, a função tireoidiana é frequentemente avaliada durante o período de gestação.6 No entanto, a avaliação precisa da função tireoidiana materna durante a gravidez tem interpretação diferente da mulher não grávida.

A gonadotrofina coriônica humana placentária (hCG) estimula a secreção do hormônio tireoidiano, diminuindo frequentemente as concentrações maternas de tireotrofina (TSH), especialmente no início da gravidez.6 Embora essas concentrações maternas de TSH suprimidas transitoriamente sejam com frequência observadas e consideradas seguras, a definição do limite superior de referência do TSH sérico em gestantes permanece controversa.6 Além disso, até 18% de todas as mulheres grávidas são positivas para anticorpos de peroxidase tireoidiana (TPOAb) ou anticorpos de tireoglobulina (TgAb).

O hipotireoidismo materno é definido como a concentração de TSH elevada além do limite superior do intervalo de referência específico da gravidez.6 Os estudos iniciais com mulheres grávidas nos Estados Unidos e na Europa levaram a recomendações sobre um limite superior de referência de TSH de 2,5 mU/L no primeiro trimestre e de 3,0 mU/L no segundo e no terceiro trimestres.6-8 

Quando possível, as curvas de TSH da população local devem ser identificadas para que se tornem padrãode referência para essa mesma população.

Todas as mulheres grávidas devem ser questionadas na consulta de pré-natal inicial sobre qualquer histórico de disfunção tireoidiana e uso anterior ou atual de hormônio tireoidiano (LT4) ou de medicamentos antitireoidianos.

Se algum dos seguintes fatores de risco for identificado, o teste de TSH sérico é recomendado:6 

1. História de hipotireoidismo, hipertireoidismo ou sintomas e sinais atuais de disfunção tireoidiana. 
2. Positividade conhecida de anticorpos tireoidianos ou presença de bócio.
3. História de radiação na cabeça ou no pescoço ou de cirurgia prévia de tireoide.
4. Idade >30 anos. 
5. Diabetes tipo 1 ou outras doenças autoimunes. 
6. História de abortamento, parto prematuro ou infertilidade. 
7. Múltiplas gestações anteriores (duas ou mais).  
8. História familiar de doença autoimune de tireoide ou de disfunção tireoidiana. 
9. Obesidade mórbida (IMC ≥40 kg/m2).  
10. Uso de amiodarona ou de lítio ou administração recente de contraste radiológico iodado.  
11. Residência em área conhecida de moderada a grave insuficiência de iodo.

Como o impacto do hipotireoidismo na gestação pode ser devastador para o feto, e como o adequado tratamento com levotiroxina evita essas complicações, o diagnóstico assertivo e precoce do hipotireoidismo gestacional é imperioso e faz parte das boas práticas durante a assistência pré-natal.