Várias doenças imunopreveníveis não são conhecidas pelos médicos mais jovens, graças à eliminação/erradicação de enfermidades. Esse fato é consequência do sucesso de um programa de vacinação.

Exemplos:
Varíola (lembra?), poliomielite, difteria, tétano, rubéola congênita etc.

Então, por que ainda precisamos vacinar crianças, adultos e idosos?


Primeiro, porque ainda temos o risco de reintrodução de vários agentes em nosso meio. Segundo, existem novas vacinas para velhos problemas (ex. Herpes zoster). E, em terceiro lugar, porque temos novas vacinas para novos problemas (COVID-19).

Lamentavelmente, existem vários exemplos na história da vacinologia de recrudescência de doenças já controladas, após a interrupção equivocada da vacinação. No Japão, a B. pertussis (coqueluche) é um exemplo.

Em 1974, após enorme sucesso do programa de vacinação daquele país, havia cerca de 80% das crianças japonesas vacinadas, apenas 393 casos de coqueluche registrados e zero óbito. Iniciaram-se rumores de que como a doença estava escassa, não haveria mais a necessidade de manter a vacinação infantil e expor a população a possíveis eventos pós-vacinação. 

Em 1976, somente 10% das crianças japonesas foram vacinadas.1 Consequência lógica e esperada foi que, em 1979, o Japão vivenciou o maior surto de coqueluche da história do país, com mais de 13.000 casos e 41 mortes. As autoridades sanitárias japonesas voltaram atrás e instituíram a vacina pertussis acelular no programa nacional de vacinação e, dessa forma, os casos começaram a reduzir novamente.2 Assim como esse, temos inúmeros outros exemplos de sucesso e retrocesso.

Outro bom motivo do sucesso das vacinas é que quanto maior for a cobertura vacinal, maior será a proteção direta (efeito direto de proteção), assim como o efeito indireto (proteção de grupo) oferecido pelas vacinas. Esse último, refere-se à proteção de pessoas que não puderam ser vacinadas, como imunossuprimidos, gestantes, dentre outros, mas que se beneficiam da redução de circulação da doença na população em geral.3 

Mas afinal, como as vacinas funcionam? Como conseguimos atingir todo esse sucesso?


As vacinas têm por objetivo conferir imunidade, ou seja, proteção mesmo que a pessoa vacinada seja exposta ao agente infeccioso, estimulando o sistema de defesa a produzir proteção específica ao agente infeccioso em questão.3 

Existem diferentes tecnologias e plataformas desenvolvidas para estimular nosso sistema imune:4
• temos tecnologias antigas como vírus vivo atenuado (desde os estudos observacionais de Jenner com a variolização das pessoas),
• vírus inativado (morto), 
• engenharia genética e quimeras, 
• vacinas proteicas (nanopartículas), 
• vetores virais
• vacinas genéticas.

Há uma observação muito pertinente de que não basta termos enormes avanços tecnológicos nas vacinas se não houver VACINAÇÃO adequada.

Outro conceito básico importante é sobre os tipos de imunidade induzida, ou seja, passiva e ativa.

A imunização passiva é quando você recebe os anticorpos já prontos, preparados e, com isso, o tempo de proteção conferido é bem mais curto. Exemplo: imunoglobulinas específicas para hepatite B, vírus varicela-zoster, entre outras.5,6 

A imunização ativa é quando você aplica um antígeno que irá induzir nosso sistema imune à produção de resposta imune. Essa resposta e proteção costuma ser mais duradoura e pode responder a novas doses de reforço com uma reação dita anamnésica ou booster.6,7 Por isso o fato de a imunização ativa necessitar alguns dias para desencadear a proteção desejada e as imunoglobulinas a proteção imediata.

Da mesma forma que a imunização ativa está mais relacionada a eventos adversos, também poderá ocorrer através da exposição natural a um agente infeccioso, desenvolvimento da infeção, da doença e de todas as consequências desse processo.8

Hoje, cada vez mais, somos vítimas da disseminação de notícias falsas, especialmente sobre vacinação.9

Figura 1. A memória imunológica é um importante padrão de proteção induzida por vacina.


Conclusão

As vacinas com diferentes plataformas e respostas são as melhores e mais efetivas maneiras de prevenção em saúde coletiva e individual.