A raiva humana é a mais temida das zoonoses, como são conhecidas as doenças transmissíveis entre o homem e os animais. A raiva leva os infectados, humanos e animais de qualquer espécie – domésticos ou silvestres – à morte por uma infecção aguda no sistema nervoso em praticamente 100% dos casos.1 O contágio ocorre por meio do contato com a saliva de um animal contaminado. No Brasil, o morcego hematófago, aquele que se alimenta de sangue, é o principal, mas não o único transmissor da doença.2
Como o vírus age no corpo1

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O vírus da raiva está presente na saliva de animais contaminados, domésticos e silvestres, e é transmitido por mordida, lambida ou mesmo por um arranhão

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Ao entrar no corpo humano, o vírus se multiplica no local da lesão até chegar ao sistema nervoso central, causando uma inflamação aguda e sintomas como confusão mental, agressividade, alucinações, paralisia e espasmos

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Em humanos, o período até o aparecimento dos sintomas é de até 45 dias, mas pode ser menor

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Áreas do corpo com maior número de terminações nervosas, como as mãos, ou mais próximas à cabeça podem acelerar o processo, já que o vírus se desloca pelos nervos antes de atacar o cérebro

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Uma vez diagnosticada, a raiva é praticamente irreversível e leva à morte em quase 100% dos casos, tanto em animais quanto em humanos
A vacinação contra a raiva pode ser administrada antes ou depois do contato com o vírus. A chamada profilaxia pré-exposição consiste em imunizar, preventivamente, pessoas que correm maior risco, por sua profissão ou pela região onde vivem. Essa é uma estratégia eficaz para o enfrentamento da doença.3

Profilaxia pré-exposição3
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São três doses: as duas primeiras com 7 dias de intervalo e a terceira no 28º dia após o início

No 14º dia após o ciclo completo, é feito um exame sorológico, chamado titulação de anticorpos, para avaliar se a imunização foi bem-sucedida ou se há necessidade de reforço

Caso uma pessoa que tenha recebido a profilaxia pré-exposição entre em contato com o vírus, ela pode receber duas doses da vacina para reativar a memória imunológica a depender da sua titulação de anticorpos. Procure com urgência um serviço de saúde para avaliação

Esse tipo de prevenção pode beneficiar, por exemplo, populações ribeirinhas. "As comunidades dentro da floresta amazônica têm acesso mais difícil ao serviço de saúde, que não é próximo e requer deslocamento via barco. Nessas áreas, há também o risco elevado de mordida de morcego hematófago", explica Marco Antonio Natal Vigilato, médico-veterinário da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

Encontrado na natureza do norte do México até o Uruguai e presente em todos os biomas do Brasil, o morcego hematófago,4 na falta de alimento, busca o sangue humano para saciar a fome e se aproveita da pouca proteção das casas sem vedação.

"É muito comum casos de agressão por morcegos nesses locais com moradias mais precárias e mais próximas à mata. Em algum momento, os animais podem estar infectados e transmitir o vírus, causando a raiva humana. Quando acontece, em geral, são cinco, dez casos de uma vez em uma única localidade, por isso é estratégico vacinar essas pessoas que estão mais vulneráveis."

O especialista da Opas conta ainda que alguns países já investem na imunização prévia como medida de saúde pública. “No Peru, há uma legislação que define as áreas de risco e o programa de imunização para essas pessoas.5 É o que queremos fazer no Brasil também, criar uma política pública para evitar mortes através da profilaxia pré-exposição”.

Profissionais em risco
A vacina contra a raiva é administrada preventivamente nos grupos de risco

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Médicos-veterinários

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Zootecnistas

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Biólogos

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Estudantes dessas áreas

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Pescadores

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Outros profissionais que trabalham em áreas de risco

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Espeleólogos

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Guias de ecoturismo

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Funcionários de laboratórios que trabalham com o vírus

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Profissionais que lidam diretamente com animais silvestres ou domésticos

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Ribeirinhos que vivem em áreas de difícil acesso também podem ser vacinados em esquema de pré-exposição9

Posto de saúde

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- Procure o posto de saúde da sua região para saber onde se vacinar preventivamente
- Profissionais em situação de alta periculosidade devem repetir a titulação de anticorpos com periodicidade de acordo com o risco a que estão expostos

No caso de quem lida diretamente com animais, como biólogos, zootécnicos, veterinários e funcionários de pet shops, é fundamental que haja a profilaxia pré-exposição, assim como aqueles que estão mais suscetíveis ao ataque de morcegos, como espeleólogos, por exemplo.

"É importante os profissionais que trabalham em constante risco buscarem o serviço de saúde, explicarem a função que exercem e se imunizarem. Existe vacina e esquema profilático para isso. As pessoas precisam saber que a vacina está disponível e é gratuita no Brasil, ao contrário de outros países", afirma Vigilato.

Ele recorda um caso ocorrido na Costa Rica, em 2018.6 “Era um biólogo que trabalhava com morcegos, um acadêmico, e morreu de raiva. Ele entrou em contato com o vírus por uma mordida na mão, não tinha a profilaxia pré-exposição nem procurou atenção médica imediatamente após o acidente”.

"Muitos negligenciam, porque nunca aconteceu antes e esquecem da importância, não aplicam para si o que aprenderam. É importante fazer uma conscientização para o problema, prevenir quem tem muito risco devido à atividade laboral", destaca Helio Langoni, médico-veterinário, sanitarista e professor titular aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Profilaxia pós-exposição3

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Quem sofre ataque de um animal precisa receber, como tratamento, a mesma vacina usada preventivamente. São aplicadas quatro doses, com intervalo de três, sete e catorze dias, sempre contando a partir da primeira dose

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Em casos mais graves, também é administrado soro ou imunoglobulina para retardar a ação do vírus no corpo e dar mais tempo para o sistema imune gerar a proteção necessária

Caso uma pessoa seja atacada por qualquer animal, há medidas simples que devem ser feitas o quanto antes e que podem ser determinantes na evolução de um possível caso de raiva.

"Foi agredido por um cão ou arranhado por um gato? Lave bem a mão e o local da ferida com água e sabão, e passe álcool. O vírus da raiva é extremamente instável em condições ambientais.7 Ele não resiste a uma série de antissépticos. O que eu recomendo é que primeiro faça o que você pode fazer: uma boa desinfecção para retirar o maior número de partículas que ficaram no local da agressão. Depois, deve-se procurar o posto de saúde", explica o professor Langoni.

Se a avaliação médica constatar a necessidade de realizar o tratamento pós-exposição ao vírus, serão quatro doses da vacina antirrábica, com intervalos de alguns dias entre elas. Em casos graves, soro ou imunoglobulina antirrábicos também são utilizados para que o processo do vírus no corpo seja retardado e haja mais tempo para que o sistema imunológico crie defesas contra a doença.8
Depois de entrar em contato com animais silvestres ou sofrer qualquer tipo de acidente envolvendo, inclusive, bichos domésticos, é fundamental procurar um serviço de saúde imediatamente