A rinite alérgica (RA) é a doença crônica mais prevalente em todo o mundo, atingindo de 20% a 30% da população, com mais de 400 milhões de indivíduos acometidos.1-4 Estudos recentes sobre RA confirmada por médicos mostram prevalência de 14% entre os adultos e 13% entre as crianças nos EUA e de 20% na população do Canadá.2,3 Apesar de se tratar de uma patologia de reduzida mortalidade, sua morbidade se relaciona a vários aspectos da qualidade de vida, inclusive distúrbios do sono, sonolência e fadiga durante o dia, irritabilidade, depressão, interferência na capacidade física e social e déficits de atenção, aprendizado e memória.1-3 

O diagnóstico de rinite alérgica é essencialmente clínico, com a presença de pelo menos um dos sintomas por pelo menos dois dias seguidos e mais de 1 hora/dia, entre eles: congestão nasal, espirros, rinorreia aquosa anterior e/ou posterior e prurido.1,5 Muitos pacientes apresentam sinais e sintomas de outras doenças alérgicas, em especial asma, conjuntivite e dermatite atópica.1,5 

Sua fisiopatologia decorre de uma inflamação crônica do tipo T2 (presença de interleucinas e mediadores de linfócitos Th2, células imunes inatas ILC2, mastócitos, eosinófilos e aumento de IgE, entre outros) das vias aéreas em pacientes geneticamente predispostos que foram sensibilizados principalmente com aeroalérgenos ambientais.1-3,5 

Bases do tratamento de rinite alérgica na criança 


O tratamento de rinite se baseia no controle da inflamação alérgica, que promove a produção de imunoglobulina IgE, específica aos aeroalérgenos ambientais, principalmente ácaros, pólens e alérgenos de animais domésticos.1,5,6 A IgE se liga a receptores de alta afinidade na parede de mastócitos e basófilos e, em exposição subsequente, o mesmo alérgeno se liga à IgE específica, o que desencadeia a liberação de muitos mediadores, mas principalmente de histamina.1 A redução do processo inflamatório alérgico se faz com o uso de corticoides de aplicação nasal que, associados aos anti-histamínicos, reduzem boa parte dos sintomas de RA e constituem os principais medicamentos no tratamento de RA tanto em crianças quanto em adultos.1,5,6 

A presença de altas concentrações de mastócitos nas vias aéreas torna a histamina o mais importante mediador em várias doenças alérgicas, em especial na RA. A histamina pode atuar em quatro tipos de receptores (H1, H2, H3 e H4), que se distribuem em vários tecidos na periferia, mas também no SNC.7 A ação da histamina em receptores H1 promove a maioria dos sintomas de RA.

Os anti-histamínicos H1 são utilizados em grande parte das doenças alérgicas para aliviar os sintomas dependentes de histamina. Desde sua descoberta, há mais de 70 anos, os anti-histamínicos vêm sendo modificados para aumentar suas ações e ao mesmo tempo reduzir seus efeitos colaterais.8,9 Atualmente são conhecidos dois grupos de anti-histamínicos H1: os de primeira geração (também conhecidos como clássicos) e os de segunda geração (conhecidos como não sedantes).8,9 As maiores diferenças dos anti-H1 de segunda geração são: ter moléculas grandes, lipofóbicas e com diferente carga iônica, o que dificulta sua penetração no SNC; apresentar redução de efeitos colinérgicos; ter maior seletividade aos receptores H1 periféricos; e apresentar algumas ações anti-inflamatórias.

Impactos na qualidade de vida de pacientes pediátricos com rinite alérgica 


São bem conhecidas as consequências clínicas da RA não controlada, que acabam por impactar a qualidade de vida (QV) dos pacientes, provocando sonolência ao despertar, maior irritabilidade e até mesmo agitação, além de fadiga durante o dia, e reduzindo as capacidades intelectuais.1,3,5 

Devemos lembrar que, além de a própria RA causar impactos negativos no humor, na energia e nas funções cognitivas, seu tratamento pode influenciar e até mesmo intensificar essas condições.10 O uso de anti-histamínicos de primeira geração acarreta a piora desses parâmetros, já que as pequenas moléculas lipofílicas desse grupo de medicamentos têm a capacidade de penetrar no SNC e se localizar no núcleo tuberomamilar do cérebro.10 Essa região cerebral concentra grande quantidade de neurônios produtores de histamina, e seu bloqueio acarreta alteração do ciclo vigília-sono e do reforço de aprendizado e de memória, além de ações no controle de temperatura, balanço hídrico e cardiovascular.11 

Vários estudos com anti-histamínicos H1 de primeira geração mostraram que as doses habituais são capazes de induzir a um sono não reparador, atrasando e reduzindo o início do sono REM, o que leva à sonolência diurna.11 Já foram descritas alterações de testes psicomotores, redução da memória e do desempenho sensório-motor, redução do aprendizado escolar e piora da qualidade de vida de seus usuários.11 

Um estudo de Yanai et al., que utilizou tomografia com emissão de pósitrons, demonstrou que 75% dos anti-H1 de primeira geração ocupavam os receptores H1 localizados no lobo frontal e nas estruturas mais profundas do cérebro.12 A Sociedade Canadense de Alergia recomendou a adoção de legislação mais restritiva em relação ao uso de anti-histamínicos de primeira geração, pelo grande percentual de intoxicações em menores de 6 anos de idade, e a redução de sua associação com outros medicamentos para tratar resfriados e tosse, além de indicar uma dose máxima de hidroxizina para adultos e idosos devido aos riscos cardíacos.13 

A utilização de fexofenadina já mostrou ser segura, com poucos efeitos colaterais, inclusive no sistema nervoso central, em comparação a outros anti-histamínicos de primeira geração, e mesmo de segunda geração, ou a placebo, mantendo benefícios no tratamento dos sintomas de rinite alérgica tanto em crianças quanto em adultos.14-16 A possibilidade da utilização de múltiplas doses de fexofenadina ao longo do tratamento de pacientes alérgicos levou ao estudo de Lee et al. em 2008.17 Os autores utilizaram a polissonografia em adultos, com o uso de doses elevadas de fexofenadina por uma semana, e demonstraram que não houve interferência nas variáveis do sono noturno nem na sonolência diurna.17 

Conclusões 


Os anti-histamínicos de segunda geração, em especial a fexofenadina, são importantes medicamentos no tratamento de RA e de outras doenças alérgicas, com grande eficácia na melhora dos sintomas e pouca interferência na qualidade de vida de crianças e adultos no que se refere aos aspectos de sono tranquilizador, sonolência diurna e capacidade de memória e aprendizado escolar.14-17 As novas diretrizes de tratamento de RA e de urticárias recomendam a não utilização de anti-histamínicos de primeira geração e a utilização dos de segunda geração como primeira escolha nessas patologias alérgicas.1,18