Os primeiros seis meses de vida do bebê são caracterizados como um período de intenso crescimento e desenvolvimento infantil. Nessa fase, há uma rápida evolução das estruturas físicas e maturação dos sistemas. Por isso, os cuidados com a alimentação são fundamentais para garantir a evolução adequada, uma vez que ela poderá repercutir nas condições de saúde ao longo de toda a vida, pois essa é uma fase mais vulnerável às deficiências nutricionais.1


De acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), durante os primeiros 6 meses, a criança deve ser alimentada exclusivamente com o leite materno.1,2 O aleitamento materno, além de oferecer uma experiência única de vínculo da mãe com o bebê,3 é nutricionalmente superior. O leite humano fornece nutrientes, hormônios, estruturas de defesa, microrganismos e compostos bioativos essenciais (Tabela 1) – carboidratos, proteínas, lipídeos, vitaminas, minerais, enzimas digestivas, células tronco, macrófagos, oligossacarídeos e bactérias probióticas –, além do valor energético ideal, favorecendo o desenvolvimento do bebê.3,4,5


Tabela 1: Composição do leite materno3,4

A composição do leite materno pode sofrer influência de diversos fatores relacionados à mãe (idade, etnia, dieta, estado nutricional) e ao bebê (peso ao nascer, estado nutricional, gênero), além de aspectos ambientais e fisiológicos (fase de amamentação, idade do bebê, hora do dia, medicamentos). Além de seus benefícios nutricionais, o aleitamento materno auxilia na proteção da saúde do bebê, reduzindo os riscos de infecções respiratórias e gastrointestinais, no início da vida, e de doenças não transmissíveis, como diabetes, obesidade e doenças inflamatórias intestinais, na infância, adolescência e vida adulta.5,6 Há também benefícios para bebês prematuros, com associação positiva entre o aleitamento materno exclusivo e o melhor desenvolvimento neurológico, além do menor risco de enterocolite necrosante.5,7


Muitos desses benefícios estão associados ao microbioma do leite materno humano.5 Os oligossacarídeos do leite humano (HMOs) possuem propriedades anti-infecciosas contra patógenos no trato gastrointestinal, como Salmonella, Listeria e Campylobacter, além de possuírem ação prebiótica.3 Os HMOs em sinergia com as bactérias probióticas do leite materno são responsáveis por favorecer a colonização da microbiota intestinal do bebê.3,5


Porém, a decisão de realizar o aleitamento materno exclusivo é pessoal e pode ser influenciada ou impossibilitada por diversos fatores como falta de incentivo e educação com relação à amamentação, práticas hospitalares inadequadas, condições de saúde, uso de medicamentos ou vacinas e complicações durante a gestação ou trabalho de parto.3,8 Em alguns casos, a contraindicação do aleitamento materno pode ser permanente, como no caso de mães portadoras do vírus HIV, HTLV I ou HTLV II ou bebês que possuem galactosemia ou intolerância a algum componente do leite.9,10 Pode também ser temporária, como nos casos de mães usuárias de drogas ou que estejam em tratamento quimioterápico.9,10


Nesses casos, o aleitamento materno deve ser complementado ou substituído pelo uso de fórmulas infantis, cuja formulação deve se assemelhar à composição do leite humano, apesar de não ser possível a produção de um produto idêntico.3 A escolha do tipo de fórmula a ser ofertada à criança deve ser realizada por um profissional de saúde, visando atender às necessidades de cada etapa do desenvolvimento, pois a composição do leite materno varia de acordo com as fases da lactação (Tabela 2), além de levar em consideração as necessidades específicas de cada criança.11


Tabela 2: Variação de composição do leite humano de acordo com as fases de amamentação3,4

Atualmente, existem diversos tipos de fórmulas disponíveis no mercado que tentam atender às demandas específicas de períodos de lactação e de condições de saúde. No caso da substituição total do leite materno pela fórmula, deve-se optar pelas fórmulas de partida, que possuem o perfil mais semelhante ao do leite humano. Além dessa, existem outras fórmulas como:12,13,14

  • Fórmulas de seguimento: indicadas para crianças de 6 meses a 3 anos, conforme recomendação médica;
  • Fórmulas à base proteína de soja: indicadas para crianças com deficiência transitória de lactase, galactosemia, deficiência hereditária de lactase ou alergia à proteína do leite de vaca mediada por IgE;
  • Fórmulas isentas de lactose: indicadas para crianças com má digestão da lactose (congênita, doença celíaca, ressecção intestinal, desnutrição, recuperação de diarreia) ou intolerância à lactose causada por deficiência de lactase;
  • Fórmulas anti-regurgitação (AR): indicadas para crianças com refluxo gastroesofágico (RGE);
  • Fórmulas semielementares: indicadas em casos de alergia à proteína do leite de vaca e de soja e condições de má absorção (doença gastrointestinal, fibrose cística, síndrome do intestino curto);
  • Fórmulas elementares: indicadas para crianças com alergia à proteína do leite de vaca e de soja e condições de má absorção (doença gastrointestinal, fibrose cística, síndrome do intestino curto) que não se adaptaram às fórmulas semielementares;
  • Fórmulas para prematuros e/ou recém-nascidos de baixo peso: indicadas para atender às necessidades nutricionais dos prematuros e/ou recém-nascidos de baixo peso, levando em consideração sua imaturidade digestiva e metabólica.

Além da nutrição adequada, através do leite materno e/ou fórmula infantil, deve ser realizado o acompanhamento do bebê para avaliar necessidades individuais nutrientes. Algumas vitaminas como a vitamina D e a vitamina K, por exemplo, demandam suplementação nos primeiros meses de vida que pode ser feita por meio de suplementos vitamínicos ou por fórmulas enriquecidas com esses nutrientes.3,15 A vitamina K é dada, ao nascimento, via intramuscular (1 mg) para prevenir doença hemorrágica.11 Já o protocolo de suplementação de vitamina D tem algumas variáveis envolvidas, dependendo da condição de vitamina D da mãe, e se a criança é exposta ou não à luz solar, por isso é necessária uma avaliação individual.11

É fundamental o cuidado individualizado com a alimentação e suplementação necessária durante os primeiros meses de vida do bebê, pois os benefícios e os impactos nutricionais se estendem até a fase adulta, com repercussões na qualidade de vida em longo prazo.6