A monitorização terapêutica de fármacos (TDM, da sigla em inglês) é uma abordagem que permite a maximização da eficácia no tratamento antimicrobiano, minimizando o surgimento de efeitos adversos.1,2

Para ser apropriado à TDM, um fármaco deve apresentar alta variabilidade farmacocinética interindividual, uma relação de concentração-efeito e/ou toxicidade estabelecida que permite identificar uma janela terapêutica bem defInida.3

A teicoplanina é um glicopeptídeo hidrofílico que apresenta as características citadas (elevada ligação a proteínas plasmáticas, eliminação renal) e uma janela terapêutica de nível mínimo (Cmín) de 15-30 mg/L.1,4

Por sua máxima eficácia, é muito importante que o Cmín terapeuticamente eficaz da teicoplanina seja alcançado desde o início do tratamento.5,6 De acordo com a meia-vida de eliminação muito longa, atingir o Cmín precocemente pode ser possível com a administração de um regime de alta dose de ataque de 10-12 mg/kg a cada 12 horas nas primeiras 48 horas.5,7-11 Esse regime deve ser administrado a todos os pacientes, independentemente da função renal.4,8,12-14

A primeira avaliação de TDM durante o tratamento deve ser realizada no final do período de ataque, ou seja, após as primeiras 48 horas.5,15 Assim, é possível verificar se a janela terapêutica desejada foi ou não alcançada.

Após o período de ataque, a dose de manutenção deve ser ajustada em relação a diferentes fatores: o local e a gravidade da infecção e as características fisiopatológicas do paciente, em termos de função renal e estado albuminêmico.4,13,14,16,17

Diferentes cenários devem ser considerados. Os cenários mais desafiadores são aqueles relacionados a pacientes críticos com infecções da corrente sanguínea (ICS) e/ou pneumonia,1,5,6,14,17,18 e/ou ao tratamento empírico de pacientes onco-hematológicos neutropênicos febris.19-21 Em ambos os casos, existem duas grandes alterações fisiopatológicas que podem ser responsáveis pela eliminação acelerada de teicoplanina: depuração renal aumentada (DRA, definida como depuração de creatinina >130 mL/min/1,73 m2)22,23 e hipoalbuminemia grave (definida como <3,0 g/dL).16,18,19,24,25

Havendo essas condições, sugere-se que seja adotada a dose de manutenção de 6 mg a cada 12 horas e que a TDM de Cmín seja realizada a cada 2-3 dias, para abordar eventuais ajustes de dose, se necessário.18,24,26

Entretanto, para pacientes que sofrem de lesão renal aguda (LRA) ou de doença renal em estágio terminal, a dose de manutenção deve ser reduzida para 2-6 mg/kg a cada 24 horas (de acordo com o grau de disfunção renal) e a TDM deve ser realizada a cada 2-4 dias.8,27,28

É importante notar que cerca de metade dos pacientes internados com LRA associada a infecções graves pode sofrer de LRA transitória, com rápida recuperação da função renal nas primeiras 48 horas após a admissão.29 Nesses casos, recomenda-se a reavaliação da TDM a cada 48 horas.

Por outro lado, a maior parte dos pacientes com infecções ósseas e articulares (IOA) ou infecções articulares protéticas (IAP) são clinicamente estáveis e não sofrem de condições fisiopatológicas que podem causar grande flutuação no Cmín de teicoplanina.30,31 Portanto, nesses casos, após o período de ataque, a dosagem de manutenção pode ser administrada uma vez ao dia nos primeiros 5-7 dias, e a TDM pode ser realizada a cada 48-72 horas durante esse período.32 Ao final da primeira semana de tratamento, quando atingido o Cmín desejado, o regime de dosagem pode ser trocado para administração três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas-feiras (de acordo com os nomogramas de dosagem).32 Assim, permite-se alta hospitalar precoce com OPAT.27,32-34 Nesses casos, o Cmín de TDM deve ser realizado uma vez por semana, de preferência às segundas-feiras, pois é o dia em que o nível mais baixo deve ser buscado.

Conclui-se, então, que o Cmín de TDM é uma abordagem útil ao tratamento adequado de teicoplanina, e a frequência de avaliação da TDM deve ser guiada pela gravidade da infecção e/ou pela complexidade do estado fisiopatológico do paciente.5,8,18,20,26,28,35 (Tabela 1)