Atualmente, o mundo abriga a maior coorte de adolescentes da história – 1,2 bilhão de pessoas com idades entre 10 e 19 anos, conforme dados da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF. Embora os adolescentes tenham mais chances de melhorar sua saúde e bem-estar do que nunca, estima-se que 1,2 milhão ainda morra a cada ano – principalmente de causas evitáveis. Muitos desses jovens não têm acesso às informações essenciais, serviços de qualidade e aos ambientes protetores de que precisam para se manterem saudáveis e bem.1

Em países de renda baixa e média, onde vivem 90% dos adolescentes de hoje, os jovens estão entre as populações com maior risco de contrair o HIV e o grupo com menor probabilidade de acesso a tratamento. Os adolescentes são a única faixa etária para a qual as mortes por AIDS estão aumentando. Dietas cada vez menos saudáveis, estilos de vida inativos, problemas de saúde mental, uso de álcool, drogas psicoativas, tabaco, riscos ambientais e gestação na adolescência são alguns dos problemas mais proeminentes que os adolescentes enfrentam hoje.1

Independentemente de questões culturais e sociais, o cenário internacional demonstra grande vulnerabilidade dessa população e justifica ações globais e integradas de promoção da saúde para os jovens. Os adolescentes contribuem ativamente para a sociedade e devem ser a referência para o desenvolvimento sustentável: em alguns países, representam até ¼ da população, devendo aumentar essa proporção nas próximas décadas.1

Contrariamente a essas evidências, observa-se escasso acesso a serviços de saúde, assim como raras políticas de saúde direcionadas e elaboradas às peculiaridades dos adolescentes. Recentemente, estudo de um grupo de especialistas internacionais coordenado por Guthold et al publicou um painel de medidas prioritárias em saúde pública para adolescentes, evidenciando significativas diferenças entre prioridades identificadas pelos jovens versus ações governamentais, inclusive relacionadas à pouca ênfase em ações de imunizações.2

Entre as principais limitações das ações de prevenção na adolescência, destacam-se as escassas oportunidades de contato na área de saúde. Diferentemente da infância, onde as consultas de rotina ocorrem periodicamente e favorecem oportunidades de orientação preventiva, a partir da adolescência, observa-se que as visitas médicas têm enfoque específico de queixas agudas ou acompanhamento de doenças crônicas. Da mesma forma, campanhas de prevenção em saúde dificilmente contemplam jovens como público-alvo ou, quando ocorrem, geralmente não seguem diretrizes recomendadas de planejamento e execução específicas para adolescentes.3

Quando o enfoque de prevenção é direcionado às imunizações, o contraste entre as necessidades e as ações torna-se ainda mais significativo, uma vez que a adesão à vacinação necessita de participação ativa do adolescente, que depende de processos tais como informação, interação e comunicação. O desafio na busca por altas taxas de coberturas vacinais na adolescência tem unificado esforços de países de todas as regiões, onde estudos e experiências de sucesso são compartilhados.
A abordagem de imunizações em todas as oportunidades de contato dos jovens com equipes de saúde tem sido uma alternativa amplamente disseminada, seja durante uma consulta de rotina ou durante um atendimento devido a intercorrências. A promoção de atividades de educação em saúde com participação ativa dos adolescentes em ambiente escolar ou em comunidades facilita o acesso a informações e, principalmente, torna os jovens protagonistas de suas ações. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda consultas periódicas durante toda a adolescência, visando ao acompanhamento do desenvolvimento puberal: durante todas essas visitas a imunização deve estar presente, para que o jovem tenha possibilidade de discutir suas dúvidas e receber informações adequadas.5
É fundamental que o calendário de vacinação do adolescente seja apresentado e discutido com os jovens e seus familiares, devendo-se considerar que os questionamentos sobre indicações, segurança, eficácia e efeitos adversos variam dentro de uma mesma família e tais esclarecimentos são essenciais para que a imunização ocorra, sendo necessárias várias oportunidades para que exista adesão às recomendações.3

A percepção de risco na adolescência evolui conforme a maturação psicossocial e neurobiológica, mas está intimamente relacionada a fatores ambientais e familiares. Assim como os jovens devem ser orientados e avaliados em relação a comportamentos de risco (uso de álcool, drogas, sexualidade, violência etc.), os jovens devem ter a compreensão sobre riscos de doenças imunopreveníveis e a importância da vacinação mais ampliada possível.3

Para o adolescente, o conceito de que a imunização oferece não apenas proteção individual como também coletiva pode ser determinante para aceitação individual e para divulgação da vacinação nos grupos de jovens. 
Deve ser esclarecido que algumas vacinas aplicadas na infância podem necessitar de reforços (ex.: difteria, tétano e coqueluche), assim como informado que existem doenças prevalentes na adolescência que devem ser prevenidas por vacinas específicas (ex.: HPV).6

A discussão sobre prevenção da doença meningocócica (DM) pode ser uma grande oportunidade de informação, porque muitos jovens têm interesse em entender como essa doença é transmitida. 

Deve-se apresentar os diferentes sorogrupos de meningococos (A, B, C, W e Y), as vacinas disponíveis para sua prevenção, a eficácia e segurança desses imunobiológicos. Geralmente, os jovens desconhecem a relação direta entre seus hábitos sociais e a transmissão do meningococo: dessa forma, o conceito de portador sadio torna-se fundamental e, com isso, a responsabilidade da vacinação passa a ser uma atitude de cuidado individual e de grupo.3,7 
Após o sucesso da introdução da vacina conjugada meningocócica C no Programa Nacional de Imunizações (PNI), observou-se a necessidade de incluir adolescentes nas campanhas de vacinação a fim de aumentar o impacto em outras faixas etárias, uma vez que esse grupo etário é responsável pela transmissão do meningococo de forma.8 Além disso, com a significativa redução da prevalência do sorogrupo C, observou-se um impacto maior de outros sorogrupos (B e W).9

Infelizmente, nossos índices são de manutenção de baixas taxas de coberturas vacinais entre adolescentes, sendo esse cenário uma realidade internacional. Em 2020, a vacina HPV alcançou taxas de 70% das meninas de 9 a 15 anos com a primeira dose, mas somente 40% dos meninos de 11 a 14 anos foram vacinados. Para as segundas doses, os índices foram de aproximadamente 40% e 30%, respectivamente. O reforço da vacina meningocócica C na adolescência, inicialmente oferecido dos 11 aos 14 anos, é atualmente oferecido dos 11 aos 12 com a vacina quadrivalente ACWY, alcançando, no máximo, taxas em torno de 40%.10 Sendo essas informações referentes ao período pré-pandemia da COVID-19, deve-se considerar taxas ainda mais reduzidas agora, uma vez que se observa que em 2020 nenhuma das vacinas do calendário infantil atingiu as metas de coberturas de 90% a 95%.10

Assim, torna-se fundamental garantir acesso a informações que possam promover ações de saúde. Todos os profissionais de saúde têm um papel de relevância para evitar que baixas taxas de coberturas vacinais favoreçam o ressurgimento de doenças imunopreveníveis. Para obtermos sucesso, necessitamos de maior comprometimento de todos na divulgação de informações adequadas e acessíveis, aproveitando todas as oportunidades de contato com nossos pacientes adolescentes.