Doenças raras pelo mundo 


São caracterizadas como raras as doenças que afetam uma pequena parcela da população em comparação ao restante do mundo. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma doença é considerada rara se afetar até 65 pessoas para cada 100 mil indivíduos, ou seja, 1,3 para cada 2 mil pessoas. É importante ressaltar que uma determinada doença pode ser considerada rara em um local, porém comum em outro, devido a alguns aspectos locais e genéticos que podem influenciar sua incidência.1

Atualmente, existem milhares de doenças raras regularmente descritas. No entanto, o número exato depende do grau de especificidade usado ao classificar os diferentes distúrbios. Estima-se que existam no Brasil cerca de 13 milhões de pessoas portadoras de doenças raras.2

Panorama das doenças raras1-3

  • Há cerca de 7 a 8 mil doenças raras descritas
  • 80% das doenças raras reportadas são de origem genética
  • Em 95% dos casos não há tratamento, somente cuidados paliativos
  • 13 milhões de brasileiros são portadores de alguma doença rara
  • A maioria dos diagnósticos de doenças raras é feito tardiamente, por volta dos 5 anos de idade
Ainda é um desafio para muitos médicos o correto diagnóstico desse tipo de condição, por se tratar de uma patologia rara, em que há falta de conhecimento e escassez de especialização, bem como sua natureza crônica, degenerativa e potencialmente fatal.

Registro de doenças raras


Em 1991, a Sanofi Genzyme criou o Programa de Estudos de Registro de Doenças Raras com o propósito de expandir o conhecimento com observações do mundo real. Trata-se de um programa observacional, longitudinal, internacional e multicêntrico. Inicialmente, foi criado para incluir registros dos desfechos de pacientes para doença de Gaucher. Posteriormente, foram inclusas as doenças de Fabry e de Pompe. No mundo, o programa representa o maior banco de dados da medicina baseada em evidências sobre doenças de depósito lisossômico.5

A iniciativa veio para ocupar uma lacuna que faltava na vida de médicos e pacientes, a fim de melhorar a qualidade de vida da comunidade afetada pelas doenças raras. O programa representa uma segura fonte de informação e evidências, colaborando também com as agências reguladoras no momento da tomada de decisão.5

Programa Registry5

  • Cada estudo de registro é focado em uma doença específica, com coleta de dados do mundo real.
  • Todos os pacientes com diagnóstico confirmado são elegíveis para participar, independentemente do status da sua terapia e da escolha do tratamento.
  • Os pacientes podem ser incluídos a qualquer momento durante a evolução de sua doença, inclusive posteriormente, com aprovação ética.
  • O estudo de registro é não intervencionista e os pacientes recebem tratamento padrão, conforme determinado por seus médicos.
Devido à limitação de conhecimento, caracterização incompleta e ausência de resultados em longo prazo a respeito das doenças raras de forma geral, o Programa de Estudos de Registro de Doenças Raras se torna uma importante ferramenta de informação.5

A grande problemática envolvendo as doenças raras está no desenvolvimento clínico de medicamentos para tratá-las. Isso porque conseguir recrutar muitos pacientes para participação nos estudos de eficácia e segurança é bastante limitado, em comparação às demais doenças existentes.5

Dessa forma, é possível com os estudos de registros preencher o vazio que estudos clínicos não conseguem preencher, propiciando infraestrutura de pesquisa para agregar dados longitudinais do mundo real. Os estudos de registro auxiliam, ainda, na compreensão da doença e de suas terapias a fim de fornecer evidências para melhores cuidados e resultados do paciente.5

Linha do tempo5

Alcance global


O Programa de Estudos de Registro de Doenças Raras possui alcance global, a fim de incluir o maior número de dados e diversidades existentes no mundo. Para realizar a supervisão, foram criados conselhos internacionais e regionais, responsáveis por acompanhar o desenho, a conduta e a duração científica dos registros. Orientados por 12 conselhos consultivos regionais, foram criados, ao todo, quatro conselhos consultivos internacionais, que são:5
Os dados coletados até o momento referem-se a:5
  • 4 registros principais – Fabry, Gaucher, mucopolissacaridose tipo I (MPS I) e Pompe
  • 9 sub-registros
  • Mais de 17 mil pacientes inclusos
  • Presença em mais de 65 países
  • Mais de 880 centros participantes
  • Apoio de mais de 1.200 profissionais da saúde

Estudos Registry – Doença de Pompe



Um artigo publicado em 2019 analisou o uso de Myozyme® em um total de 197 pacientes com doença de Pompe, inscritos no Programa de Estudos de Registros de Doenças Raras na França desde 2004.7 O artigo analisou a evolução dos pacientes quanto às funções motora e respiratória. Em ambos os casos, os pacientes foram divididos em três grupos.

No que concerne à função motora, os pacientes foram divididos em “independentes”, “necessitam de andador ou bengala” e “cadeira de rodas”. Foram comparados os resultados de testes relacionados ao caminhar e à habilidade de subir escadas em dois, três, quatro e seis anos após o início da terapia de reposição enzimática (ERT, sigla em inglês). Na função respiratória, os pacientes foram avaliados nos mesmos períodos, sendo divididos em “sem assistência ventilatória”, “assistência ventilatória não invasiva” e “ventilação invasiva”.7 Comparados os resultados com a linha de base, esse artigo de 2019 demonstrou que a ERT, com o uso de Myozyme®, melhorou significativamente a função motora nos três primeiros anos após o início do tratamento. Além disso, reduziu a taxa de progressão do comprometimento respiratório.7
Outro estudo baseado nos dados do Registry, realizado em 2014, se propôs a avaliar os métodos diagnósticos para a doença de Pompe, ainda um desafio para médicos e especialistas, pois se trata de uma doença com manifestações clínicas variáveis, amplo espectro fenotípico e sobreposição de sinais e sintomas com outras condições neuromusculares.8

A fim de avaliar a evolução diagnóstica, os pesquisadores examinaram os métodos usados para 1.059 pacientes inscritos no Registry com doença de Pompe e os dividiram em três categorias de início:8
  • Grupo A: início dos sinais/sintomas ≤12 meses de idade com cardiomiopatia8-10
  • Grupo B: início ≤12 meses sem cardiomiopatia e início >1 ano a ≤12 anos8-10
  • Grupo C: início >12 anos8-10
Os achados mostraram que a atividade enzimática foi o método diagnóstico mais utilizado, em comparação aos demais disponíveis. Outro ponto foi que a medição da atividade da alfa-glicosidase ácida no sangue (leucócitos, linfócitos ou mancha de sangue seco) aumentou com o tempo, enquanto o uso de biópsia muscular diminuiu. Os pesquisadores desse estudo também concluíram que o aumento dos testes sanguíneos para suspeita da doença de Pompe pode resultar em um diagnóstico mais oportuno para os pacientes.8

O tempo diagnóstico tem impacto significativo na evolução do paciente. Contudo, os atrasos para a identificação da doença de Pompe ainda são comuns. Um estudo realizado para avaliar a lacuna diagnóstica (o tempo desde o início dos sintomas até o diagnóstico da doença de Pompe) e os fatores associados aos atrasos no diagnóstico, acompanhou 1.003 pacientes. Os pacientes foram divididos em grupos de acordo com a faixa etária de início e características clínicas. Em todos os grupos, os sinais e os sintomas musculoesqueléticos estiveram entre as características de apresentação mais frequentes.9

Os resultados mostraram que os pacientes que apresentaram sinais e sintomas respiratórios e musculoesqueléticos simultaneamente tiveram a menor lacuna diagnóstica, enquanto aqueles que se apresentaram sem sinais nem sintomas respiratórios ou musculoesqueléticos tiveram os mais longos. Entre os fatores independentes que influenciaram a probabilidade de uma longa lacuna diagnóstica, podemos citar os sinais e sintomas apresentados, o ano do diagnóstico e a idade no início dos sintomas. O grupo B, que representava os pacientes infantis sem cardiomiopatia e os casos de Pompe juvenil, apresentou o gap mediano mais longo: cerca de 12,6 anos de atraso.9 
A ocorrência de diferentes variantes patogênicas dentro do gene GAA pode causar vários níveis de deficiência da enzima GAA e atividade enzimática anormal. Esse fator influencia a gravidade da doença e as manifestações em todo o espectro. Dessa forma, trata-se de um fator contribuinte primário para a variação considerável observada na idade de apresentação, gravidade e taxa de progressão. Um estudo publicado recentemente relatou o número, a natureza, a frequência e a distribuição geográfica das variantes da sequência GAA listadas no Registry para doença de Pompe.10

Entre os 1.079 pacientes elegíveis, foram identificadas 2.075 variantes GAA, listadas por grupos que representam os fenótipos da doença de Pompe. Identificar tais variantes pode contribuir significativamente para confirmação diagnóstica ou avaliação do paciente, determinação das correlações do fenótipo-variante e do fenótipo-genótipo e aconselhamento genético.10