As Mucopolissacaridoses (MPSs) formam um grupo heterogêneo de doenças de caráter genético, multissistêmico e progressivo1 cuja incidência se encontra em torno de 3,4 a 4,5:100.000 nascidos vivos.2 Resultam da deficiência de enzimas lisossômicas que metabolizam os glicosaminoglicanos (GAGs).1 A mucopolissacaridose tipo I (MPS I) é a mais frequente e tem incidência de 1:100.000 nascidos vivos.3 Já foram descritos sete subtipos clínicos,4 e em cada tipo há variabilidade fenotípica relacionada ao tipo de mutação e à atividade enzimática residual.5 

Nesse cenário, podemos considerar que cada paciente é único, pois variam a idade do início e a ordem do aparecimento dos sinais e sintomas, a gravidade e a evolução.6 Há um continuum de expressões clínicas, desde formas atenuadas e longevidade quase normal até formas graves com morte prematura.6 As formas atenuadas podem não ser diagnosticadas durante anos, e os indivíduos ficam sujeitos a tratamentos ineficazes, além da progressão gradual da doença, que se torna cada vez mais debilitante.7,8 É incontestável o atraso do diagnóstico9,10 pela falta de familiaridade do profissional com a doença, pela dificuldade do reconhecimento clínico e pela natureza não específica dos sinais e sintomas, o que leva o indivíduo a recorrer a vários especialistas até o diagnóstico final, bem como a dificuldade de acesso aos exames complementares específicos.10-12 

A importância do diagnóstico precoce está pautada principalmente no tratamento disponível de alguns tipos de MPSs: I, II, IV-A, VI e VII.13 O início precoce da terapia de reposição enzimática em um de dois irmãos afetados modificou a história natural da doença no irmão que a manifestou aos 5 meses de idade.14 

Muitas vezes, indivíduos que têm a forma atenuada recebem o diagnóstico na idade adulta, embora tenham apresentado manifestações na infância.15 Não há um sintoma específico que nos faça pensar nas MPSs, já que existe grande variabilidade clínica.12 Entretanto, há alguns dados importantes a serem considerados na história patológica pregressa (HPP) para auxílio à suspeição diagnóstica.5,7,16,17 (Figura 1) 

O estudo da história natural de 354 indivíduos com MPS I atenuada identificou hérnias e opacificação corneana como sinais precoces (idade mediana de aparecimento: 4,6 e 10,5 anos, respectivamente).5 Os achados clínicos mais frequentemente encontrados, em ordem decrescente, foram: opacificação corneana, contraturas articulares, anomalias das valvas cardíacas, hérnias (umbilical e/ou inguinal), síndrome do túnel do carpo (STC), hepatomegalia e face grosseira, dentre outros.5 A figura 1 também apresenta achados clínicos e radiológicos encontrados na forma atenuada, mas vale lembrar que nem todos os achados precisam estar presentes no indivíduo.6
É importante ressaltar que as contraturas articulares podem cursar com dor sem sinais inflamatórios, queixa que pode constar no caso dos indivíduos que procuram o reumatologista.12,15 As figuras 2-A e 2-B mostram irmãos com a forma atenuada de MPS I. Não há face grosseira, a limitação da mobilidade articular das mãos foi o motivo da investigação diagnóstica. O quadro evoluiu com alteração valvar, disostose múltipla, escoliose, STC, mãos em garra e baixo ganho de estatura.
A figura 3 mostra um algoritmo de suspeição de MPS I elaborado por especialistas com base em dados de vida real e em publicações científicas.18 O algoritmo foi testado em indivíduos com a forma atenuada da doença, e o resultado foi que 84,2% deles teriam obtido o diagnóstico de MPS I atenuada.18 
Em conclusão, a forma atenuada de MPS I pode ocorrer insidiosa e sutilmente, com quadro clínico inespecífico, elementos que dificultarão a suspeita diagnóstica. Entretanto, mediante quadro osteoarticular não inflamatório acompanhado de hérnias e infecções repetidas de VAS, é importante pensar em MPS I na faixa etária pediátrica e no adulto, já que constitui doença tratável.